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Inflação descontrolada: entenda o que foi o Plano Cruzado

Em 1986, o presidente José Sarney lançou um amplo pacote de medidas baseado no congelamento de preços para tentar conter a escalada inflacionária

Por Márcia Nogueira Tonello Atualizado em 18 jul 2022, 16h13 - Publicado em 18 jul 2022, 15h20

“Cada brasileiro ou brasileira será e deverá ser um fiscal dos preços”. Dessa forma, em um pronunciamento histórico em rede nacional de televisão, o presidente José Sarney (1985-1990) convocava a população para auxiliá-lo na ambiciosa tarefa de impedir a remarcação dos preços pelos lojistas. Era 28 de fevereiro de 1986, e a equipe econômica do governo acabava de lançar o Plano Cruzado, um amplo programa de medidas econômicas baseado no congelamento de preços para derrubar a hiperinflação.

A inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços. Se a taxa for muito elevada e por um período prolongado, seu efeito na economia é devastador, pois a moeda perde poder de compra – passado algum tempo, é preciso gastar mais dinheiro para comprar o mesmo produto. Desde 1983, a taxa anual de inflação superava os 200%. Como a taxa é o percentual médio de elevação dos preços, isso signifca que o preço de produtos e serviços estava triplicando a cada ano.

Por exemplo: um pacote de arroz vendido a 1 cruzeiro no início do ano custava 3 cruzeiros no fim do ano, e 9 cruzeiros ou mais no fim do ano seguinte. E esse é o percentual médio de elevação dos preços. Na prática, um determinado produto ou serviço pode ter aumentos bem maiores.

Congelamento geral

Uma das razões para o descontrole inflacionário era a existência do que os economistas chamam de inflação inercial. Por exemplo, quando uma economia tem uma inflação mensal de 15% ao mês, os comerciantes, prevendo uma inflação futura, antecipam o aumento e passam a alimentar o avanço da inflação. Ao mesmo tempo, para fazer frente à elevação dos preços, a taxa da inflação passada, que era de 15%, passava a ser usada para recompor preços e salários, gerando a inflação futura. Seguindo essa lógica, o mundo empresarial estabeleceu uma verdadeira corrida de reajuste permanente de preços. Ao mesmo tempo, estimulou uma intensa especulação financeira, com o dinheiro do grande capital aplicado no mercado fnanceiro e não na produção.

O Plano Cruzado tinha como objetivo acabar com essa inflação inercial e criar bases para investimentos na produção e um novo ciclo de desenvolvimento. O nome formal do ajuste era Plano de Estabilização Econômica (PEE). Por ele, o governo congelou todos os preços da economia por tempo indeterminado e trocou todo o dinheiro em circulação em cruzeiros por uma nova moeda, o cruzado. Cada cruzado valia 1 mil cruzeiros.

Foi abolida a correção monetária, que era um mecanismo de atualização do valor do dinheiro pela taxa de inflação. Essa correção atrelava todos os valores do mercado pela taxa da inflação passada (processo chamado de indexação). Para a correção futura dos salários, o plano previa apenas uma taxa média da inflação dos seis meses anteriores (e não a acumulada de um ano inteiro), mais um abono de 8% para salários em geral, e de 15% para o salário mínimo. Esses abonos pretendiam recuperar gradualmente o poder de compra dos assalariados.

Já no primeiro mês de execução, a população sentiu a diferença. A taxa de inflação de março foi negativa: os preços caíram 0,11%. Estabeleceu-se um clima de euforia. Multiplicaram-se pelo país cenas como a de donas de casa cantando o Hino Nacional dentro de um supermercado. Imagine o quanto a superinflação era desastrosa e você entenderá a euforia das pessoas quando o Plano Cruzado foi lançado.

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Os resultados imediatos foram  ótimos: poder aquisitivo mais estável, mais consumo, mais emprego e a economia crescendo. Tudo isso num momento político também signifcativo, afinal, após duas décadas de ditadura militar, o Brasil tinha seu primeiro presidente civil, José Sarney (já ofcializado no comando do país após a morte de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985). Nesse cenário, a popularidade do presidente chegou às alturas e ele chamou as pessoas a se tornarem “fiscais do Sarney”. Atendendo ao pedido, muitos denunciaram comerciantes que aumentavam os preços.

O que deu errado

No segundo semestre de 1986, a economia estava aquecida e o consumo crescia, alimentando a inflação. Alguns setores da economia se sentiram prejudicados, pois quando foi estabelecido o congelamento, os preços de seus produtos estavam defasados. Nesses setores, os empresários perderam a capacidade econômica de investir na produção para acompanhar o aumento do consumo.

Na pecuária, o impacto foi grande. O preço do leite fora congelado com uma defasagem de cerca de 40%, e, com o aumento do consumo de carne, o boi magro passou a valer mais que o boi gordo. Sem poder reajustar seus preços, os pecuaristas diminuíram o abate, e houve falta de carne e também de leite. No segundo semestre, a euforia consumista continuava e houve escassez de oferta de produtos. Tanto na indústria quanto no comércio, generalizou-se a prática de cobrar ágio de quem comprava, exigindo valores por fora do preço congelado.

Economistas defendiam que o Plano Cruzado precisava de ajustes, mas as medidas seriam impopulares. Numa manobra considerada eleitoreira, o governo resolveu deixar as reformas para depois das eleições de novembro. Deu certo: o PMDB, partido de Sarney, elegeu quase todos os governadores – exceto em Sergipe – e ganhou a maioria das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado.

No mesmo mês, o governo lançou o chamado Plano Cruzado II. Preços foram reajustados em até 120%, e foi reinstituída a correção monetária. O fim do congelamento deu origem a uma corrida
de remarcações para “tirar o atraso”. A inflação disparou e, em fevereiro de 1987, já estava no mesmo patamar de fevereiro de 1986. E o Plano Cruzado entrou para a história como um dos grandes fracassos da economia brasileira.

Nos anos seguintes, outros planos tentaram conter a inflação, sem sucesso: o Plano Bresser, em 1987; o Verão, em 1989; e o Collor, em 1990. A vitória no combate ao aumento dos preços só viria a partir de 1994, durante a presidência de Itamar Franco (1992-1995), quando a equipe do ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Real.

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