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O que é capacitismo e por que todos deveriam saber

Pequenas expressões e atitudes podem passar despercebidas no dia a dia, mas são extremamente problemáticas para pessoas com deficiência

Por Luccas Diaz Atualizado em 8 mar 2021, 19h39 - Publicado em 3 dez 2020, 16h30

Você sabe o que é capacitismo? É provável que muitos leitores respondam “não”. A palavra lembra outras com o mesmo sufixo -ismo, como racismo e elitismo, mas, na maioria dos casos, não desperta nenhuma associação na cabeças das pessoas. Mesmo que, em suas vidas, já tenham topado com essa questão. Em linhas gerais, o capacitismo é o preconceito que tem como base a “capacidade” de outros seres humanos. Principalmente, quando se pensa na parcela da população que possui algum tipo de deficiência.

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Uma sociedade capacitista é aquela que não enxerga uma pessoa com deficiência, ou, abreviando, uma pcd, como um ser humano “normal”. Nela, esses indivíduos são vistos como seres inferiores, de menor valor e que não devem ser tratados de mesma forma. Nesta quinta-feira (3), Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o GUIA dá sua contribuição para mudar essa realidade.

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010 (e revistos em 2018), 6,7% da população brasileira têm algum tipo de deficiência. São cerca de 14 milhões de brasileiros, um número expressivo. Mas, no dia a dia, não é difícil encontrar discursos e atitudes que reforçam a exclusão das pessoas com deficiência – e passam despercebidos pela maioria. Muitas pessoas ainda têm dificuldade de enxergar o racismo, o machismo e a LGBT e a transfobia no cotidiano, mas, como esses assuntos estão mais frequentemente na pauta, há avanços na conscientização, ainda que lentos. É preciso fazer o mesmo com o capacitismo.

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Uma publicação compartilhada por Victor Di Marco (@victordimarco)

Em conversa com o GUIA, a artista Nayara Silva conta que, desde cedo, sofreu preconceitos por causa da surdez, resultados da falta de informação de qualidade na sociedade. “Minha professora da escola não me tratava da mesma forma que meus colegas, muitas vezes não tinha paciência para adaptar os exercícios ou me incluir nas atividades”, conta. “Tinha até uma intérprete na sala, mas muitas vezes ela não conseguia traduzir palavras mais específicas, como as de Biologia ou Química”.

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Hoje, Nayara, que tem a Língua Portuguesa como segundo língua, trabalha traduzindo e interpretando para a linguagem de sinais. Além disso, também cria conteúdo para a internet, como poemas que refletem a posição do surdo no Brasil. “Não sou diferente. Sou um ser humano normal como todo mundo. A diferença é que meu ouvido tem uma falha e não consigo escutar. Mas é só isso. Tenho o mesmo potencial que qualquer um”, reflete a jovem ao lembrar de quando ia a entrevistas de emprego e era tratada de maneira diferente de outros candidatos.

Tratamento diferenciado?

Durante a conversa, que teve a participação da intérprete Priscila Fernandes, Nayara esclareceu algumas dúvidas de questões que podem auxiliar na construção de um futuro menos capacitista e mais inclusivo. Para ela, a melhor forma de se referir à condição de uma pessoa com deficiência é perguntando: “Perguntar não ofende. O que é ofende é você chegar a um lugar e ser apresentada como: ‘Gente, essa é a Nayara, ela é deficiente’”. De acordo com a jovem, o termo deficiente não é o mais indicado e pode ser ofensivo para partes da comunidade pcd. “Essa palavra já é datada e remete a termos que a classe médica usava anos atrás. Além disso, ela coloca um rótulo na pessoa que parece impedi-la de ser outra coisa a não ser ‘deficiente’”. É bom lembrar que, por um tempo, foi usado o termo “portadora de deficiência”, que também caiu por inadequação.

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Nayara fala que, muitas vezes, se sente um monstro ou uma portadora de uma doença contagiosa, como se as pessoas tivessem medo ao falar com ela. “É como se, ao falar comigo, e percebessem que sou surda, as pessoas simplesmente parassem de me enxergar como igual. Se alguém na rua me aborda perguntando onde fica tal lugar, explico que sou surda e peço para repetir mais devagar para eu ler os lábios, a pessoa simplesmente desiste e prefere perguntar para outra”, conta.

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Uma publicação compartilhada por Mariana Torquato (@marianatorquato)

Nas redes sociais, é comum se deparar com vídeos, fotos ou textos que usam casos de pessoas com deficiência para promover discursos de aceitação, superação e igualdade. Durante a pandemia, com os usuários mais presentes nas redes, Nayara confessa que se cansou de ver tantas pessoas promovendo esse tipo de discurso nas redes enquanto praticam o exato oposto na vida real. “Na internet, prega-se essa mensagem de igualdade, solidariedade e aceitação, mas, na vida real, as pessoas nos tratam de maneira totalmente oposta. A sensação que dá é que sempre estamos preenchendo algum tipo de cota. Que sempre nos tratam como se isso fosse um ato de piedade, uma boa ação”.

Atitudes para não fazer mais

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Nayara faz parte de uma parcela de influencers digitais que têm militado contra o capacitismo na internet. Nomes como Victor Di Marco, Mariana Torquato e Letícia Guilherme (dos IGTV acima) têm feito um trabalho didático nas redes ao mostrar que expressões e atitudes aparentemente inofensivas do dia a dia podem ser problemáticas para a comunidade pcd. Alguns dos principais pedidos da comunidade são:

  • Sempre pergunte antes de assumir alguma coisa. Nayara usa o seu próprio exemplo para explicar: “Eu sou surda, e prefiro ser chamada assim, mas dentro das comunidades, há aqueles que preferem o termo DA, que é abreviação de Deficiente Auditivo”;
  • Repense palavras e expressões da Língua Portuguesa que ridicularizem pessoas com deficiência. “Você não tá vendo que tem uma caneca ao lado da mesa? Tá cego?”, “Fala mais alto que eu sou surdo”, “Aquele menino é um retardado”, “Ela é tão baixinha, quase uma anã” etc;
  • Piadas ofensivas nunca são engraçadas. O humor não precisa ofender ninguém para ter graça. Tirar sarro da condição de uma pessoa é um ato de deselegância e falta de empatia. Seja uma deficiência física ou mental;
  • Olhe ao seu redor: quantas pessoas pcd há no seu grupo de amigos? Ou quantas você viu na última série ou filme que assistiu? A inclusão de pessoas com deficiência deve ser uma prioridade da sociedade e não deve ser tratada como cota;
  • Não se sinta especial por fazer o mínimo. Tratar todos com gentileza e respeito é um dever. Ao ajudar, interagir ou se relacionar com uma pessoa com deficiência não se deve enxergar a situação como heroísmo ou “boa ação”. É apenas o que todos deveriam fazer, com qualquer pessoa;
  • Tente ser inclusivo em todos os aspectos de sua vida. Legendar aquele stories super interessante que você postou com a descrição do áudio é uma maneira simples, mas eficaz, de garantir que mais pessoas consigam entender o que você está dizendo. Assumir que todos escutam, enxergam e entendam da mesma maneira é um equívoco. Afinal, acessibilidade não é só rampa para cadeirante.

Política Nacional de Educação Especial?

CFP diz não ao PNEE
Cartaz de divulgação da live do Conselho Federal de Psicologia pedindo a revogação da proposta de escolas especiais para crianças com deficiência. CFP/Reprodução

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A falta de preparação e informação da sociedade é um reflexo da própria forma como a deficiência é encarada no Brasil e no mundo. No começo da semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli suspendeu o decreto do governo federal que incentivava a criação de escolas específicas para pessoas com deficiência. A proposta inicial faz parte do plano da Política Nacional de Educação Especial (PNEE) e foi assinada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 30 de setembro, em uma celebração ao lançamento do projeto. A suspensão foi comemorada pelos especialistas em educação, que afirmam que a criação de escolas unicamente para crianças com deficiência seria uma atitude de exclusão, colocando por terra anos de esforço para incluir pessoas com deficiência na sociedade. A decisão final, porém, sairá apenas no dia 11 de dezembro, quando os outros ministros votarão sobre a questão.

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