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O que influencia o aumento no preço dos alimentos

Pandemia, moeda em baixa, alta demanda para pouca oferta, desemprego e inflação influenciam o preço dos alimentos. Entenda

Por Redação Atualizado em 22 ago 2021, 09h13 - Publicado em 20 ago 2021, 00h01

Por Politize!

Ir ao mercado fazer as compras do mês ou da semana é uma situação cotidiana, mas que nos últimos meses vem testando o planejamento da renda familiar dos brasileiros. Manter armários e geladeira abastecidos com alimentos variados é uma tarefa cada vez mais difícil. Contudo, o cenário não é novo.

Em 2008, ao analisar a crise econômica no Brasil, o ex-Diretor Geral da Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO-ONU) José Graziano da Silva pontuou reflexões importantes sobre o consumo dos alimentos que ajudam na compreensão do quadro atual: “O que pagamos hoje por um alimento na realidade é resultado de uma definição que ocorreu no passado, baseada na especulação sobre a provável oferta e demanda futura, os resultados do próprio plantio e a demanda efetivado presente”. 

Apesar de não ter uma pandemia para pesar em sua análise, os apontamentos de Silva direcionam para o quadro brasileiro atual. O aumento dos alimentos não é incomum, respondendo a políticas internas e externas, mas que fatores estão pesando nos preços dos alimentos hoje?

Vamos entender melhor sobre isso!

Por que os alimentos estão mais caros? Três fatores em jogo!

Arroz, feijão, óleo e leite, itens básicos da alimentação brasileira, estão mais caros. Nos últimos meses, em 2021, os preços observados nas prateleiras do mercado subiram em resposta a desvalorização do real, mudanças nos hábitos de consumo e ao aumento da inflação, aliados a crise econômica criada pela pandemia da Covid-19.

Para Patrícia Costa, economista e coordenadora da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), os três fatores vêm convergindo desde o segundo semestre de 2020.

Em entrevista ao Politize! ela explica a questão: “O real desvalorizado é um fomento para exportação. Na pandemia, o Brasil assumiu uma posição de continuar exportando, enquanto outros países seguraram o estoque de suas produções. E, ainda tínhamos o auxílio emergencial de R$ 600 circulando, dando um maior poder de comprar as famílias. Com pouca oferta para muita demanda o preço subiu, impactando na inflação”.

Bom…vamos entender cada um desses fatores!

1 – O efeito da inflação

Para compreendermos o efeito da inflação, primeiro precisamos entender o impacto da alta nas commodities, produtos que servem como a matéria-prima para fabricação de terceiros – como é o caso do milho que serve de insumo para o leite e para carne – e são cotadas em dólar. De acordo com Costa, com a alta das commodities se privilegia o lucro que o agronegócio pode gerar com a exportação dos produtos em detrimento do mercado interno do país.

++ Como o novo ciclo de commodities deve impactar o Brasil

Ela pontua que o equilíbrio entre a exportação e o armazenamento de alimentos para o consumo da população local é um dos fatores que ajudam a estabilizar os preços dos alimentos, mas o cenário de crise que o Brasil vivencia está tornando todo o processo, desde a produção até o consumo final, mais caro e atingindo em cheio a alta de preços observada nos supermercados.

“É uma política que privilegia a exportação sem estabelecer políticas agrícolas que controlem o consumo interno, seja estimulando um aumento da produção ou exportando menos; era o que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deveria conseguir fazer neste cenário. Existem outros elementos que se somam a conta, como a alta da gasolina e da energia elétrica que fazem parte do processo de distribuição e armazenamento dos alimentos”.

Para se ter uma ideia, entre abril de 2020 a abril de 2021, o preço das commodities agrícolas utilizadas na indústria de alimentos variou de 20% a 100%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia). De acordo com o levantamento, insumos como milho, soja e arroz subiram 84%, 79% e 59%, respectivamente, ao longo do período analisado. Já o trigo e o leite tiveram alta de 37%, enquanto o café robusta subiu 36% e o açúcar ficou 40%.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação começou a registrar um aumento gradual com a distribuição do auxílio emergencial em 2020. Desde então, o preço do óleo de soja subiu 87,89%, o arroz ficou 69,80% mais caro e a batata passou custar 47,84% a mais. Os preços mais altos, que pesam para as famílias mais pobres e vulneráveis, promoveram outro cenário para os supermercados.

O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, teve lucro de R$ 1,59 bilhão no último trimestre de 2020, um aumento de 58,5% em relação ao mesmo período de 2019. Já o Carrefour registrou lucro de R$ 935 milhões, um aumento de 47% em relação ao último trimestre do ano anterior, segundo reportagem da Gênero e Número.

Vale pontuar que o índice geral de vendas, que é calculado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), disparou em 2020: os supermercados venderam 9,36% a mais do que em 2019, o maior aumento anual da categoria em 20 anos, revelou a Gênero e Número.

Moeda em baixa

Outro ponto que influência nos preços é a desvalorização do real brasileiro em comparação ao dólar. Entre dezembro de 2019 a outubro de 2020, o real perdeu 28% do seu valor perante o dólar. De acordo com um levantamento da Fundação Getúlio Vargas, divulgado pelo BBC News Brasil, é o pior desempenho entre as 30 moedas mais negociadas do mundo junto ao peso argentino.

A desvalorização do real ocorre devido à crise econômica e política vivenciada pelo país desde 2015 e agravada pela pandemia, que colocou o mercado brasileiro como “instável para o investimento estrangeiro”, devido a insegurança na capacidade de austeridade fiscal – políticas que atuam para equilibrar os gastos e a arrecadação do Estado – brasileira no pós-pandemia. É neste cenário que os diversos insumos importados acabam tendo seus preços influenciados pelas variações das cotações internacionais.

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Assim, as commodities exportadas geram lucro por serem cotados em dólar, mas ficam mais caras quando importadas, afetando também o preço para o consumidor final. Em entrevista à BBC News Brasil, a economista Maria Andreia Lameiras, pesquisadora responsável pelo Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, explicou a questão:

“Aí, essa alta de alimentos no Brasil fica ainda maior, porque aquele alimento que tenho que importar fica mais caro e porque o produtor do grão, da carne, vê que é mais vantajoso exportar do que vender para o mercado interno, porque ele vai receber em dólar e acaba tendo rentabilidade muito maior”, argumenta.

Alta demanda para pouca oferta

Além do efeito da inflação nas commodities e a desvalorização da moeda, outro fator que impacta no aumento dos preços é a Lei da Oferta e Demanda, desenvolvida por Adam Smith. De acordo com Smith, o preço de uma mercadoria seria regulado com base na “quantidade efetiva colocada no mercado (oferta) e a demanda daqueles que estão dispostos a pagar pelo preço total do produto, considerando o trabalho para a sua produção e o lucro a ser pago para colocá-lo no mercado”.

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O conceito, criado ao longo do século 18, ainda se mostra atual. Um exemplo de sua funcionalidade pode ser observada com a diminuição do auxílio emergencial em 2021, que não deve passar de R$ 300 para quem conseguir o benefício. A queda no poder de compra, ou seja, de se conseguir adquirir bens através de recursos monetários, leva a uma baixa nos preços pois a demanda pelos alimentos irá diminuir enquanto outro problema se agrava pelo país.

“No momento, temos uma população extremamente empobrecida que está pagando mais caro pela pandemia. São famílias vulneráveis e informais que perderam o emprego e a oportunidade de renda. Em 2020, o auxílio compensava em certa medida o desemprego dando um maior poder aquisitivo para famílias que passaram a cozinhar mais em casa. Mas agora o que temos é insuficiente. Quando não se tem renda, a família deixa de comer. E, quando as pessoas compram menos, a demanda diminui fazendo com que o aumento não chegue ao consumidor final”, argumenta Patrícia Costa, do Diesse.

Em março deste ano, o IBGE revelou que a suspensão do auxílio emergencial, que ocorreu em dezembro, e a realização de grandes eventos no início do ano, como o Carnaval, já estavam causando este efeito com a desaceleração gradual da inflação. Para Patrícia, contudo, os preços dos alimentos continuam altos para a população, principalmente a mais vulnerável, que precisa lidar com um baixo poder aquisitivo.

“Você tem o alimento no mercado, mas a população não consegue comprar. O Diesse analisa apenas os 13 itens principais da cesta, então há comportamentos que não conseguimos acompanhar, como por exemplo, quem está trocando a carne pelo frango ou ovo. As pessoas estão sem renda, sem auxílio e com um salário mínimo abaixo da inflação”.

De acordo com edição de maio da Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Diesse, o salário mínimo necessário para as despesas básicas de um trabalhador e sua família teria que ser de R$ 5.351,11. Esse valor corresponde a 4,86 vezes o mínimo oficial (R$ 1.100). No total, o trabalhador remunerado pelo salário mínimo comprometeu, em média, 54,84% da renda para comprar os alimentos básicos para uma pessoa adulta.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, em novembro de 2020, o professor e especialista em inflação da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, Heron do Carmo, já destacava o peso desigual dos alimentos na renda familiar. “Se nós calculássemos só a inflação da classe média, ela seria menor que a inflação geral, enquanto a dos mais pobres é muito maior que a geral”.

O cenário foi analisado pelo Jornal Folha de S. Paulo, com base em dados do Dieese e do Procon-SP. Em 2019, o consumidor ia ao supermercado com R$ 100 e saía com 11 produtos básicos, entre eles o arroz, feijão, açúcar e o café, sendo que ainda havia espaço para levar 1 quilo de carne de primeira, pão francês e queijo mussarela.

Com o mesmo valor em abril de 2020, contudo, a carne deu lugar ao frango congelado para que os outros itens se mantivessem no carinho. No mesmo mês, já em 2021, com o valor do novo auxílio, o paulistano conseguiria levar 39% de uma cesta completa de alimentos, que na capital, segundo o Diesse, custava em média, R$ 639,47, até fevereiro de 2021.

Sem um reajuste adequado no salário mínimo, a população brasileira vivenciará ao longo de 2021 o menor poder de compra – capacidade de adquiri bens e serviços por meio do real – em relação aos produtos da cesta básica desde 2005, segundo o Diesse.

Ainda, segundo Patrícia Costa, do DIEESE, o Brasil deveria aprender com as experiências passadas, principal mente com o cenário vivenciado na crise econômica de 2008-2009. “A pandemia da Covid-19 não permite comparação com outros anos, mas existem lições que já aprendemos. Sobrevivemos à crise de 2009 devido ao consumo interno. E o auxílio emergencial do último ano evidenciou a importância do consumidor brasileiro. Hoje, não tem nada que possibilite o crescimento interno, um real crescimento e desenvolvimento do país. Agora, seria fundamental políticas de valorização do salário mínimo e manter os alimentos [produção] aqui dentro. Estamos dando o melhor para fora quando deveríamos estar contendo a exportação. É um sistema que penaliza mais duramente as famílias de baixa renda”, argumenta.

Atualmente, está em tramitação no Senado o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 53, de 2021, que tem como objetivo vetar o aumento dos preços dos alimentos da cesta básica acima da inflação durante a pandemia. Segundo o Valor Investe, o PLP pretende conceder às famílias carentes em situação de vulnerabilidade social o direito de receber a cesta básica em meio à crise causada pela pandemia. O projeto propõe, ainda, alíquota zero para os impostos IPI, ICMS, Cofins e Pis/Pasep sobre comidas da cesta básica.

REFERÊNCIAS

SILVA, J. G. da; TAVARES, L. Segurança alimentar e a alta dos preços dos alimentos: oportunidades e desafios.

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