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Literatura: Modernismo – Prosa (1ª fase)

Inovação e ruptura

Na primeira fase do Modernismo (1922-1930), uma nova estética reafirma a identidade nacional

Na primeira metade do século XX, no contexto dos avanços tecnológicos e da I Guerra Mundial, a arte moderna instaura uma série de rupturas com os fundamentos artísticos defendidos pelos movimentos anteriores, criando uma atmosfera de radicalidade. Revoltados com a arte acadêmica e tradicional, os modernistas desejam libertar-se dos antigos modelos de composição. Movimentos de vanguarda, como o Surrealismo (que explorou muito o sonho e a criação de novas realidades), o Cubismo (que trabalhou com formas geométricas de modo pouco usual), o Expressionismo (que valorizou a percepção do sujeito sobre o objeto), o Dadaísmo (que rompeu com os limites do sentido) e o Futurismo (que exaltou o progresso e a inovação), legitimaram o tratamento de realidades fragmentárias, incompletas e irracionais.

Os valores defendidos pelos modernistas estão associados ao histórico de destruição e caos provocados pela guerra e exploram o inconsciente humano, à luz das modernas teorias psicanalíticas, criadas por Sigmund Freud.

Semana de Arte Moderna 

O marco do Modernismo brasileiro é, convencionalmente, a Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. No decorrer de toda a década de 1910, porém, os artistas brasileiros já propunham mudanças nos padrões estéticos e expunham criações que desafiavam o gosto tradicional.

Um dos eventos mais conturbados desse período foi a exposição de obras da pintora Anita Malfatti, que provocou severas reações da crítica conservadora – a exemplo do artigo Paranoia ou Mistificação?, publicado pelo pré-modernista Monteiro Lobato (1882-1948).

 

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Leitor:
Está fundado o Desvairismo.

Este prefácio, apesar de interessante, inútil. 

Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis[1] ambos. Os curiosos terão o prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.[2]

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo.

Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei.[3]

(…)

Não sou futurista (de Marinetti)[4]. Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade.

(…)

Um pouco de teoria?

Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada.[5] 

A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer empecilho a perturba e mesmo emudece.[6]

(…)

RODRIGUES, A. Medina (et al). Antologia da Literatura Brasileira:
Textos Comentados. São Paulo: Marco, 1979. vol. 2, p. 28-32


No processo de ruptura com a arte acadêmica e tradicional, os artistas do Modernismo, como o escritor e poeta Mário de Andrade, compuseram inúmeros manifestos e textos críticos, nos quais apresentavam propostas estéticas inovadoras e inauguravam correntes artísticas de vanguarda.


[0]ADJETIVO SUPERLATIVO : O prefácio de Pauliceia Desvairada (1922) explicita seu processo composicional. O adjetivo usado no grau superlativo objetiva intensificar o interesse sobre o texto.

[1]SINTAXE FRAGMENTADA : As frases nominais (curtas e sem verbos) são típicas da dicção do autor. A síntese e a concisão estão presentes na sintaxe fragmentada e direta de Andrade. 

[2]LEITOR PARTICIPATIVO : O autor se dirige diretamente ao público e estimula a curiosidade do leitor, que auxiliará no processo de atribuição de sentido à obra.

[3]HUMOR E SERIEDADE : O inacabamento e a perda de contornos rigidamente definidos entre o humor e a seriedade são traços da arte moderna. 

[4]FUTURISMO : Apesar da semelhança dos poemas de Mário de Andrade com os textos futuristas (verificável na adoção do verso livre, no apelo à tecnologia nas metrópoles), o autor inicialmente não se considera filiado a uma corrente específica.

[5]PSICANÁLISE : As teorias psicanalíticas fundamentaram as criações da arte moderna. A noção de inconsciente permitiu a defesa de princípios como a escrita automática (praticada pelos surrealistas) e a afirmação da liberdade composicional.

[6]COMPOSIÇÃO ESPONTÂNEA : Para o autor, a racionalidade é um obstáculo à expressão poética genuína. Este prefácio se legitima por abrir espaço para as reflexões racionais após a composição espontânea dos poemas.

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Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.
(…) 
A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva.[1]
(…)
Embora se deem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como a paranoia e a mistificação.[2]
(…)
Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma – mas caricatura que não visa, como a verdadeira, ressaltar uma ideia, mas sim desnortear, aparvalhar, atordoar a ingenuidade do espectador.[3]
(…)
A pintura da sra. Malfatti não é futurista, de modo que estas palavras não se lhe endereçam em linha reta; mas como agregou à sua exposição uma cubice, queremos crer que tende para isso como para um ideal supremo.[4]
(…)

 http://www.pitoresco.com.br/brasil/anita/lobato.html


Neste artigo, Monteiro Lobato faz uma ácida crítica ao trabalho da pintora Anita Malfatti e ao dos modernistas em geral.


[1]DOIS GRUPOS: O autor divide os artistas em dois grupos. Um formado pelos acadêmicos, fiéis aos modelos clássicos de composição, e o outro pelos modernistas. Ele os desqualifica, usando os adjetivos “efêmeras”, “estrábica” e “rebeldes”.

[2]ARTE DEGENERADA: O texto liga a arte moderna a um suposto processo de decadência dos valores ocidentais. Lobato qualifica as produções como “arte degenerada”, fruto de perturbações mentais.

[3]PROGRESSÃO TEXTUAL: A cada argumento, Lobato retoma a tese inicial. Note os mecanismos de progressão textual, ligados à alternância entre informações novas e antigas.

[4]ANITA MALFATTI: Lobato volta-se ao alvo de seu texto: os quadros de Malfatti. O autor se coloca como exceção diante da receptividade com que parte dos críticos acolheu a pintura da artista. Para além das críticas à exposição de Malfatti, ele tomou o fato concreto como pretexto para vociferar contra os ideais estéticos do Modernismo.

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No quadro Caipira Picando Fumo, de 1893, Almeida Júnior retrata a simplicidade de um homem do campo. Todo o contexto reflete a realidade singela da pessoa, desde suas roupas até a casa de pau a pique. A desolação do local e a passividade do homem lembram Jeca Tatu, caipira imortalizado por Monteiro Lobato. Ao contrário de Abaporu (abaixo), esta pintura está de acordo com os padrões acadêmicos de arte defendidos por Lobato.

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Em Abaporu, de 1928, Tarsila do Amaral usa cores associadas ao Brasil e subverte as proporções convencionais. Uma figura humana é representada com os membros em tamanho deformado – algo impensável para as estéticas clássicas. No Modernismo, temas ligados ao país (como a natureza tropical) recebem um olhar crítico – não são mais idealizados, como no contexto romântico. O pé gigante que toca o chão busca provocar uma reflexão sobre a ordem aparente do mundo real.

Mário de Andrade 

A arte moderna valoriza as diferenças e as especificidades do mundo, em detrimento da harmonia e do reconhecimento familiar da arte acadêmica. Em literatura, a produção modernista da primeira fase (1922-1930) também prioriza elementos capazes de chocar o público e promover certo estranhamento diante de uma nova realidade, questionando e rompendo com a identificação do público diante da obra. Passa a predominar uma preocupação com os processos artísticos de composição das obras, e não importa mais a representação fel da realidade. Os escritores da primeira fase estavam preocupados em descobrir a identidade do país e do brasileiro. A reflexão crítica sobre a realidade brasileira é uma das preocupações centrais do escritor Mário de Andrade (1893-1945).

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A editora Peirópolis lançou, em 2016, uma adaptação de Macunaíma para HQ. O “herói sem nenhum caráter” aparece nos traços de cores fortes da dupla mineira Angelo Abu e Dan X, que preservou a irreverência da obra original. Além da história principal, a edição traz os bastidores da elaboração da HQ – também numa divertida história em quadrinhos – usando a linguagem adotada no livro de Mário de Andrade.

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No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite.[2] Houve um momento em que silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia[2]. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si[3] o incitavam a falar exclamava:

– Ai que preguiça!…[4] e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguns cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara.[5] Porém respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo[6].

Belo Horizonte/Rio de Janeiro:
Garnier, 2004.


Macunaíma (1928) incorpora elementos folclóricos para traçar um perfil do brasileiro, criando o “herói sem nenhum caráter”. O personagem pertence ao rol de malandros nacionais, como Leonardinho, de Memórias de um Sargento de Milícias, e Brás Cubas, de Memórias Póstumas de Brás Cubas.


[1]PARÓDIA: O início da obra faz uma paródia de textos indianistas (como Iracema, de José de Alencar). O nascimento de Macunaíma ocorre na mata, no contato com elementos naturais.  Em todo o texto, porém, não há a idealização positiva do herói.

[2]CRIANÇA FEIA: O adjetivo usado para caracterizar Macunaíma é essencial para a configuração da personagem: era uma criança “feia”, por oposição aos retratos idealizados dos românticos.

[3]ORALIDADE E LINGUAGEM COLOQUIAL: Note a oralidade da escrita. A palavra “se” é grafada com o som da fala “si” do português brasileiro. A referência à linguagem oral é típica da primeira fase modernista.

[4]JEITINHO BRASILEIRO: No bordão de Macunaíma, bocejando de preguiça, ocorre uma inversão dos valores habitualmente considerados positivos. Macunaíma é um herói preguiçoso e malandro, representante típico do “jeitinho” brasileiro. Ele não gosta de trabalhar e não cultiva valores heroicos nem guerreiros, assim como Brás Cubas e Leonardinho.

[5]LIBIDO: Desde pequeno, Macunaíma tinha a sexualidade aflorada. Ao perturbar as índias no rio ou assediar as mulheres na tribo, o garoto já revelava a licenciosidade que o caracterizaria durante a vida.

[6]PONTUAÇÃO: O autor trabalha com os elementos da cultura indígena, subvertendo as regras convencionais de escrita. Repare na ausência de pontuação, quando são enumeradas as danças típicas praticadas pelos índios.

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HERÓI E ANTI-HERÓI 

Macunaíma resulta do anseio da primeira fase modernista pela criação de uma identidade nacional. O epíteto “herói sem nenhum caráter” designa a ausência de um caráter brasileiro definido, pois este ainda estaria em formação. Macunaíma simboliza aspectos relevantes da história do Brasil, como a miscigenação. A identidade nacional também preocupou os românticos. Contudo, para eles a expressão máxima do nacionalismo estava na figura do índio anterior à colonização. Peri, personagem de O Guarani, de José de Alencar (1829-1877), reúne as características desejáveis ao melhor europeu: católico, forte, destemido e honrado. Contrariando o ideal romântico do herói nacional, Macunaíma, assim como Leonardinho e Brás Cubas, são covardes e não têm grandes aspirações na vida.

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De repente, entre o dossel de verdura que cobria esta cena, ouviu-se um grito vibrante e uma palavra de língua estranha:
— Iara!
É um vocábulo guarani: significa a senhora.
(…)
De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita que formava a rocha, um selvagem (…) metia o ombro a uma lasca de pedra que se desencravara do seu alvéolo e ia rolar pela encosta.

O índio fazia um esforço supremo para suster o peso da laje prestes a esmagá-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de árvore mantinha por uma tensão violenta dos músculos o equilíbrio do corpo.

A árvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavam numa mesma volta, e precipitavam sobre a menina sentada na aba da colina.
(…).

Uma larga esteira que descia da eminência até o lugar onde Cecília estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, arrancando a relva e ferindo o chão. (…)

O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que ele salvara sua flha, se o milagre de agilidade com que se livrara a si próprio da morte. (…)

— Como te chamas?

— Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo.

Editora Ática, 2010

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Eu adoro andar no abismo
Numa noite viril de perseguição
saltando entre os edifícios
vi você
Em poder de um fugitivo
Que cercado pela polícia, te fez refém
lá nos precipícios
Foi paixão à primeira vista
me joguei de onde o céu arranha
te salvando com a minha teia
Prazer, me chamam de Homem-Aranha
Seu herói[1]

Hoje o herói aguenta o peso
das compras do mês
No telhado, ajeitando a antena da tevê
Acordado a noite inteira pra ninar bebê

Chega de bandido pra prender,
de bala perdida pra deter[2]
Eu tenho uma ideia:
Você na minha teia
Chega de assalto pra impedir,
Seja em Brasília ou aqui[3]
Eu tive a grande ideia:
Você na minha teia
Hoje eu estou nas suas mãos
Nessa sua ingênua sedução
que me pegou na veia
Eu tô na tua teia

http://www.vagalume.com.br/jorge-vercilo/homem-aranha-letra-sem-erros


Nesta canção, de Jorge Vercilo, aparece também a figura de um anti-herói: um personagem cujo comportamento não serve como exemplo ou modelo de conduta. Surge um super-herói problemático,  às voltas com os problemas do nosso tempo.


[1] PERSONAGEM : O super-herói enfrenta problemas cotidianos e torna-se vulnerável à rotina diária.

[2]RECUSA DO TRABALHO :  Assim como Macunaíma, o anti-herói da canção se nega a desempenhar o papel heroico e privilegia a relação amorosa.

[3]VISÃO CRÍTICA : Nota-se um olhar questionador acerca da sociedade, em um processo de reflexão sobre a realidade já desenvolvido pelos autores modernistas. A violência combatida pelo herói é equiparada à corrupção que ocorre no plano político.

Oswald de Andrade

Em países colonizados por outras nações, como é o caso do Brasil, os escritores modernistas rompem com a tradição e propõem uma afirmação da identidade nacional, bem como a libertação definitiva da herança dos colonizadores. Trata-se da defesa de uma literatura autêntica e pessoal, visando à afirmação da nacionalidade de modo crítico, sem a idealização característica dos românticos. Oswald de Andrade (1890-1954) viaja para a Europa e, ao retornar, traz consigo o repertório das vanguardas artísticas do continente. Ao lado de outros intelectuais, participa da Semana de 22. No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, mostra o desejo de que a cultura brasileira seja exportada, assim como ocorreu com a árvore pau-brasil, e passe a influenciar a própria cultura europeia. No Manifesto Antropófago, lançado em 1928, propõe que o Brasil “devore” a cultura estrangeira.

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A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério.  A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
(…)
A poesia Pau-Brasil, ágil e cândida. Como uma criança.
(…)
Contra o gabinetismo, a prática culta da vida.
(…)
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação. (…)
Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A foresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.


Publicado em 1924 no Correio da Manhã, Oswald de Andrade defende, em tom paródico e festivo, uma poesia que não siga modelos ou regras preestabelecidos de composição.


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MANIFESTOS

O gênero manifesto é caracterizado pela linguagem direta e exaltada, em caráter provocador, com que se defende um tema. Na primeira geração do Modernismo brasileiro, os manifestos de Oswald de Andrade explicitam os objetivos principais do movimento. A crítica e o humor aparecem combinados, a exemplo dos manifestos vanguardistas europeus, em textos que mesclam a linguagem artística e o registro popular, com a finalidade de difundir as ideias para o grande público.

Outra característica é o uso de conclamações, com o emprego de vocativos e de verbos no imperativo, como na famosa frase do Manifesto Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels: “Proletários de todo o mundo, uni-vos.”

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Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos.
De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.[1]
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
(…)
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro. […]
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.[2]
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
(…)
Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
(…)
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.[3]
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz[4].
(…)
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema[5], – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

Revista de Antropofagia, Ano 1, nº 1, maio 1928


O conceito de antropofagia (ingestão de carne humana), associado à cultura indígena e, portanto, ligado ao passado pré-colonial do Brasil, é usado por Oswald de Andrade em referência à estética do Modernismo.


[o]MOVIMENTO ANTROPÓFAGO: O manifesto defende o nacionalismo e propõe a deglutição canibal dos elementos culturais estrangeiros, para que estes possam, depois, ser recriados artisticamente no país, dando origem a manifestações tipicamente brasileiras.

[1]PARÓDIA: O autor parodia o verso de Shakespeare (“To be or not to be, that’s the question”) e “deglute” o repertório estrangeiro adaptando-o à cultura nacional. A paródia é uma forma de se estabelecer intertextualidade. Ao mudar o sentido do texto original, costuma provocar um efeito de humor.

[2]IDENTIDADE NACIONAL: Nosso passado colonial é atacado pela sátira mordaz; por outro lado, os elementos da cultura indígena ressurgem como parâmetros definidores da nacionalidade e da identidade cultural.

[3]JOGO TEMPORAL: Dois fatos passados relacionam-se entre si – o período anterior (assinalado por “tinha descoberto”) e o posterior à descoberta do Brasil. O passado mais antigo é valorizado, em detrimento dos tempos coloniais.

[4]A FIGURA DO ÍNDIO: Oswald se opõe à representação romântica e idealizada dos indígenas, no molde dos cavaleiros europeus e impregnada de elementos estrangeiros. Note a referência a Peri, protagonista  de O Guarani, de José de Alencar.

[5]INTERTEXTUALIDADE: A oposição à cultura trazida pelos europeus retoma a figura da índia Iracema e estabelece um diálogo intertextual com o romance indianista de José de Alencar.

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Os elementos brasileiros foram representados de maneiras diferentes pelas histórias em quadrinhos, no decorrer do século XX. Após a II Guerra Mundial, os estúdios de Walt Disney desenvolveram uma visão estereotipada do brasileiro, encarnada pelo malandro Zé Carioca (no alto), um papagaio brasileiro, amante dos prazeres e da vida fácil. Já o brasileiro Ziraldo utilizou personagens e temas do folclore nacional para criar A Turma do Pererê (acima), encabeçada pela figura do saci e de um índio (representativos da cultura brasileira). Oswald de Andrade era favorável à representação crítica da realidade brasileira por autores nacionais.

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