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Interpretação de texto: Intertextualidade (relações entre textos)

Conversa afiada

Um texto pode dialogar com outro ao apropriar-se de sua estrutura ou ideias. Perceber essas relações é fundamental para compreender o seu sentido

Além do Nacionalismo (e do Indianismo, no caso do Brasil), a subjetividade e a expressão dos sentimentos são outras fortes características do Romantismo. Os autores desse período funcionavam como conselheiros amorosos, e suas obras serviam como apoio para que leitores tomassem decisões sentimentais baseadas nas aventuras vividas pelas heroínas românticas.

Muitas histórias do Romantismo brasileiro eram releituras de outros enlaces amorosos vividos por personagens clássicos da literatura universal, o que configura, de alguma forma, um processo de diálogo entre textos.

O artigo abaixo, do escritor e jornalista Xico Sá, publicado em dezembro de 2015 no site brasileiro do jornal El País, trabalha tanto com a temática do Romantismo, ao oferecer conselhos amorosos a uma leitora, como com a própria intertextualidade. O colunista usa alusões e citações para tratar das desventuras amorosas da moça e mostra que elas também estão contadas nas obras literárias e nas canções populares, sobretudo de Chico Buarque.

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Carolina sabia que o seu amor estava por um foi, mas Carolina nem em pesadelo imaginava que o fim seria agora, nas cinzas desse 2015 que teima em não desfolhar de vez o calendário[1]. Carol não sabia que os barracos natalinos são fatais – muita gente sai para comprar a ceia e não acerta mais o caminho de volta. Foi o caso.
Carolina não havia lido as frias estatísticas sobre o aumento do número de divórcios na virada de ano. Carolina não viu e nem leu nos olhos do moço os si- nais de fraqueza e desistência. Todo homem anuncia, nas entrelinhas dos vacilos, o apocalipse. Carolina não viu que ele andava frio na cama, acreditou nas desculpas não solicitadas do cansaço, do stress no emprego, da carga pesada do trabalho e os dias.
O amor estava por um foi…
Carolina sempre escreveu a este cronista e consultor sentimental[2] em momentos delicados. Desde o seu primeiro rolinho primavera amoroso[3], ainda em 2000. Ela completara seus 15, pelo que me lembro.
Carolina sabe pouca coisa a essa altura. Uma delas é que seu batismo, como o de milhares de moças parecidas, pode ter sido inspirado na canção homônima do Chico. Carolina até transa política, mas não agora. Carolina, para se ter ideia do alheamento do mundo, nem comentou sobre o cerco fascista ao xará nesse tempo da indelicadeza. Nada disse sobre o assunto[4].
Onde queres Leblon, sou Pernambuco[5], provoquei Carolina, recifense que hoje habita a cidade de São Paulo.
Mulher de 30 anos[6], C. confessa que nunca viu o amor vingar de fato. Contesto. O amor não precisa ser eterno. Tento ativar a memória da moça, bloqueada a essa altura. Relembro para ela os namoros e rolos que deixaram algumas marcas –  as cartas enviadas a este conselheiro são provas. Nada, porém, conforta a moça neste fiapo de infeliz ano velho[6].

Carolina namorava havia quase dois anos. O tipo de namoro que demorou para incendiar as horas e que ainda não havia chegado naquele estágio de “to- dos los fuegos, el fuego”[6]. Que vacilão esse cara, oito anos a mais do que ela. Que vacilão, meu Deus, tudo lindamente planejado por ela, incluindo o Réveillon na praia de Carneiros, litoral sul pernambucano.

O cara simplesmente desapareceu, como na lenda do homem que sai para comprar cigarros. O king size sem fltro do abandono[7]. Sem deixar pelo menos um bilhete na porta, como no samba do Arnesto[8]. Um fumegante chá de sumiço[7].

Sim, está vivíssimo. Não foi vítima de nenhuma violência urbana. Carolina, cujos olhos guardam tanta dor, viu apenas os passos do desalmado nas redes sociais. Em uma daquelas festas de confraternização de amigos. Sorriso cínico abraçando a chefe do seu departamento na firma.

Sim, haviam brigado. Desentendimento de rotina, aquelas rusgas tão comuns no final do ano dos casais. Carolina não sabia é que ele seria tão menino ao ponto de cair fora. Tempo de homens vacilões, tento de novo confortá-la. Não lhe merece etc. Palavras de consolação ao vento.

Folhetim

Ah, Carolina, tenta mudar de personagem entre as mulheres das canções de Chico. Aconselho. Que tal fazer como aquela fêmea madura e bem-resolvida, a que diz mais ou menos assim: “…E já não vales nada, és página virada descartada do meu folhetim”.
Vira essa página[9], Carolina. Sei que não é fácil, mas o que posso dizer a essa altura?
Como toda mulher revoltada, Carolina, pega o primeiro que encontrar pela frente, aquele homem que bebe na calçada da tua esquina. Quem dera fosse assim tão simples, não é, minha amada leitora? Ah, mata esse infeliz-das-costas-ocas, a punhaladas, nem que dê primeira página, cenas de sangue num bar da Vila Madalena[10]. Pelo menos agora ela riu da minha proposta maluca. Rimos. Vida, teu nome é tragicomédia.
Ah, Carolina, escuta o Chico,  o Roberto das antigas, o Leonard Cohen, a tua estimada Cat Power, Waldick. Vanusa…[10] Enche a cara com um brega…  E fica o mantra: quando a vida dói/ drinque caubói”.
Mil perdões[10], Carolina, realmente não é uma missão fácil de aconselhamento. Fica o meu afeto e conte sempre com o ombro do cronista. Mais sorte no amor em 2016. Beijos.

[0] PARÓDIA: O título parodia a famosa canção Carolina, de Chico Buarque (“O tempo passou na janela/ só Carolina não viu”). Ele se refere ao desejo da destinatária da carta de não perceber que sua história amorosa acabou.

[0] IRONIA: Há ironia no uso do advérbio “só”: todo mundo percebeu o fim do romance, exceto Carolina, moça sonhadora como as heroínas românticas.

[1] FUNÇÃO POÉTICA  E ALUSÃO: O autor se refere à passagem do tempo de forma figurada. Estabelece uma relação entre mudar a folha do calendário e mudar de fato o tempo ou, até mesmo, sua história amorosa.

[2] METALINGUAGEM: Ao se colocar como um conselheiro sentimental e fazer referência a esse tipo de procedimento, o autor estabelece uma relação metalinguística (pois é usado o próprio código – a linguagem – como o assunto que está sendo tratado).

[3] VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: O colunista alude a um prato típico da cozinha asiática (rolinho primavera) e o relaciona a histórias amorosas que, na expressão popular, são chamadas de “rolo”.

[3] IRONIA: A ironia está na descaracterização da relação como algo sério (ao ser chamado de “rolinho”) e na ilusão de promessa amorosa com “primavera” (conhecida como a estação do amor).

[3] DIMINUTIVO: O diminutivo “rolinho” torna a relação menos séria ainda do que “rolo”. É muito comum o uso  do diminutivo com sentido pejorativo

[4] INTERTEXTUALIDADE  E POLÍTICA: O autor faz referência ao fato de Chico Buarque ter sido hostilizado por simpatizantes da direita por ter sua imagem associada à esquerda. “Tempo da delicadeza” é um verso da música Todo Sentimento, do cantor.

[5] ANTÍTESE: Referência à canção  O Quereres, de Caetano Veloso, que mostra uma relação antitética (um bairro rico, Leblon, versus uma região pobre, Pernambuco).

[6] INTERTEXTUALIDADE E LITERATURA: A desilusão de Carolina é associada aos dramas típicos das heroínas românticas. Não faltam menções à literatura: Mulher de Trinta Anos, de Balzac, Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, e Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar.

[7] METÁFORA: Sair para comprar cigarros (e não voltar) é uma metáfora para abandono. O autor cita um tipo de cigarro que se vendia antigamente, sem filtro e mais forte – como a dor de quem é abandonado. A fluidez da fumaça (fumegante chá), que rapidamente se esvai, reforça a ideia de sumiço e de abandono.

[8] CITAÇÃO E METÁFORA: Mais uma citação a Chico Buarque. Desta vez, a canção Folhetim. Note as metáforas “tenta mudar de personagem” e “vire essa página” para que ela busque uma nova vida ou um novo amor. Outra canção do compositor também é citada (Mil Perdões), no último parágrafo.

[9] INTERTEXTUALIDADE E CANÇÕES POPULARES: Mais referências a canções populares: Samba do Arnesto, em que o anfitrião some sem avisar, e Ronda (“cenas de sangue num bar”), sobre uma apaixonada que ronda a cidade em busca de seu amado.

[10] ENUMERAÇÃO  E DOR DE COTOVELO: O autor enumera diversos cantores populares que tratam das dores de amor, como a de Carolina, conhecidas popularmente por “dor de cotovelo”

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RELAÇÕES ENTRE TEXTOS.

A intertextualidade é o diálogo estabelecido entre um ou mais textos. Ela ocorre toda vez que um texto se apropria de outro, no nível da composição da frase ou da ideia (veja exemplos no texto de Xico Sá). Nesse caso, um autor deseja, conscientemente, referir-se a outro texto, escrito em outro momento, por outro autor (ou até por ele mesmo). Geralmente, os textos fontes (retomados) são aqueles de referência, considerados fundamentais em uma determinada cultura. Daí a importância de ter um bom repertório cultural, para reconhecer e identificar uma relação intertextual. A intertextualidade pode ocorrer afirmando as mesmas ideias da obra citada ou contestando-as. Há duas formas básicas: a paráfrase e a paródia.

Paráfrase: É dizer com outras palavras o que já foi dito. Na paráfrase, o texto é reescrito, porém a ideia é confirmada pela nova transcrição
Paródia: Ao alterar o sentido do texto original, a paródia faz uma transposição de contexto e, frequentemente, provoca um efeito de humor.
Atenção: não confunda intertextualidade com a citação pela simples citação (Isso me lembra um samba antigo: “Tristeza não tem fim/Felicidade sim”). Neste exemplo, não há apropriação da frase ou da ideia, apenas uma referência isolada.

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