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Idade Contemporânea: Independência na América Espanhola

Livres, pero no mucho

A elite hispano-americana livrou-se do domínio espanhol, mas não rompeu a relação e dependência da Europa

A invasão da Península Ibérica por Napoleão Bonaparte, em 1807, causou o desaparecimento temporário da presença da metrópole nas colônias espanholas. Inspirados no Iluminismo, na independência dos Estados Unidos (EUA) e na Revolução Francesa, e querendo se ver livres do pacto colonial, que limitava seus negócios, os criollos (descendentes dos espanhóis nascidos na colônia, que compunham uma aristocracia local) perceberam que era um bom momento para ampliar a autonomia das colônias e brigar pela independência.

Para isso, eles contavam com um importante aliado: a Inglaterra. A maior potência industrial da época tinha grande interesse na liberação dos mercados latino-americanos – até então subordinados ao monopólio espanhol –, o que lhe permitiria inundá-los com seus produtos.

Rotas da Liberdade

Guerras

Os primeiros movimentos pela independência ocorreram ainda no século XVIII e foram severamente reprimidos pela metrópole. O mais célebre foi comandado pelo líder indígena Tupac Amaru, no Peru, em 1780. A reação espanhola foi intensa e deixou 80 mil mortos.

Quando Napoleão Bonaparte foi derrotado na Batalha de Waterloo, em 1815, a Espanha tentou se impor novamente nas colônias, mas as forças emancipacionistas já estavam bem articuladas e, com o apoio inglês, intensificaram o embate. Entre os principais líderes que lutavam pela independência das colônias espanholas, destacavam-se o venezuelano Simón Bolívar e o argentino José de San Martín, que percorreram o continente enfrentando os espanhóis (veja o mapa acima). O primeiro partiu do norte, libertando a Venezuela (1819), a Colômbia (1819), o Equador (1822) e a Bolívia (1825). San Martín, após conseguir a libertação de seu país, em 1816, rumou em direção aos Andes, proclamando a independência do Chile (1818) – com a colaboração do líder local Bernardo O’Higgins – e do Peru (1821).

O movimento emancipacionista se estendeu à América Central e ao México. Em 1825, as únicas possessões espanholas no continente eram Cuba e Porto Rico, que passariam ao controle dos EUA em 1898, na Guerra Hispano-Americana.

Fragmentação

Em 1826, Bolívar apresentou na Conferência do Panamá seu projeto de uma grande federação de repúblicas, unindo as antigas colônias espanholas em um só país. Para Bolívar, a unidade da América espanhola era fundamental para mantê-la forte diante de duas ameaças que pairavam sobre os territórios independentes. A primeira vinha do Congresso de Viena e seu braço armado, a Santa Aliança. O projeto restaurador do Congresso deixava implícito que a Espanha poderia se aventurar a reconquistar as colônias na América, com o apoio da Aliança.

Além disso, em 1824, os EUA aprovaram a Doutrina Monroe, que propunha “a América para os americanos” e explicitava que os norte-americanos não aceitariam intervenções europeias de caráter restaurador na América. Implícita à doutrina estava a intenção dos EUA de substituir a hegemonia europeia sobre a América do Sul pela sua hegemonia. A união proposta por Bolívar pretendia criar um obstáculo às pretensões dos EUA. Mas a ideia da federação fracassou, pois batia de frente com as ambições das oligarquias locais, sedentas por poder. Formaram-se, assim, quase duas dezenas de Estados.

México

Um dos casos mais particulares das independências das colônias espanholas na América foi o mexicano. A partir da independência, proclamada em 1821 e após uma série de conflitos populares, o país passou por várias intervenções estrangeiras, tendo, inclusive, perdido cerca de metade de seu território para os EUA na década de 1840. Entre 1876 e 1910, Porfírio Diaz implantou uma sangrenta ditadura e abriu o mercado do México ao capital estrangeiro. Entre 1910 e 1917, Emiliano Zapata e Francisco “Pancho” Villa promoveram uma das maiores revoluções populares da América, ocupando e distribuindo terras para os camponeses, na chamada Reforma Agrária Revolucionária, que terminou com o assassinato dos dois líderes populares.

Nova dependência

De modo geral, a independência da América Espanhola representou a separação política em relação à metrópole, mas a estrutura social se manteve, com o domínio dos criollos. As novas nações também continuaram subordinadas economicamente, mas operou-se uma mudança significativa: agora, a subordinação não era mais em relação à Espanha, mas sim ao capitalismo industrial britânico.