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Eco-ansiedade: o mal de quem está aflito com a mudança climática

Eventos climáticos extremos mais frequentes fazem com que o medo sobre o futuro gere consequências para a saúde mental

Por Jennifer Ann Thomas Atualizado em 26 out 2021, 12h49 - Publicado em 26 out 2021, 12h48

Ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático. São diversas as questões e problemas que podem afetar a mente de alguém. Em 2017, a Associação Americana de Psicologia adicionou mais um item a essa lista: a eco-ansiedade. Trata-se do medo crônico da ocorrência de desastres ambientais que tem se tornado cada vez mais frequente entre jovens ou adultos preocupados com os efeitos drásticos da mudança climática. Pessoas com eco-ansiedade costumam ser inquietas em relação ao seu próprio futuro e ao futuro das próximas gerações. Por mais que o cenário seja realmente alarmante, e toda ação é importante para construir um mundo sustentável, os principais responsáveis pela crise climática são as grandes corporações e as lideranças políticas, que tomam as decisões que vão respaldar o sistema econômico. É natural ficar preocupado, mas é importante entender o problema para não transformar esse sentimento em culpa. 

“Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos”, disse Marie Curie (1867-1934), primeira mulher a receber o Prêmio Nobel por seu trabalho com materiais radioativos. Em tempos de eco-ansiedade, quanto maior for o conhecimento sobre a mudança do clima, maior será a compreensão sobre como podemos agir para reverter a tendência de projeções ruins. 

Água no pescoço

Nos últimos anos, o debate em torno da crise climática se tornou mais presente e urgente. As projeções de cientistas, como as do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC, são assustadoras. Com o aquecimento global, algumas das consequências previstas são a redução de chuvas na região central do Brasil, o aumento do nível do mar por causa do derretimento de geleiras e o desaparecimento por completo de cidades litorâneas e nações insulares. Não é tão simples se manter calmo diante de um futuro no qual a sociedade como a conhecemos hoje talvez não tenha as condições necessárias para existir. 

Um levantamento recente feito por pesquisadores da Universidade de Bath, no Reino Unido, levou em conta a participação de dez mil voluntários de dez países e concluiu que, para quase metade dos participantes, preocupações quanto à mudança climática afetam suas vidas diárias. Além disso, 75% afirmaram que o futuro é assustador. O receio em relação ao que vem pela frente é somado a um sentimento de impotência, e assim é criado o gatilho perfeito para a ansiedade ecológica. 

Por todos os lados

De acordo com a Associação Americana de Psicologia, há mais de uma forma de manifestação dos sintomas causados pelo medo com relação à situação atual do meio ambiente. Entre eles, estão o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático, depressão, abuso de substâncias, comportamento agressivo, fatalismo, medo e a eco-ansiedade. Um dos fatores que influenciou o surgimento da ansiedade ecológica é a atual onipresença do assunto na internet e na televisão. Todos os dias, diversas reportagens são publicadas com fotografias e detalhes sobre como a ação humana está causando a morte de animais, incêndios florestais, enchentes, ondas súbitas de calor e frio, entre outros desastres em todas as regiões do mundo. Consumir essas informações constantemente pode gerar sentimentos de desespero, desamparo, angústia e culpa.

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Outra possível consequência da exposição às recentes catástrofes ambientais foi o despertar de pessoas que possuíam uma atitude passiva em relação ao aquecimento global. A conscientização sobre os efeitos das ações da sociedade no meio ambiente e no clima é fruto de um processo de construção. Para alguns, seja pelo contexto familiar ou por interesses pessoais, esse processo pode ser mais rápido. Para outros, a transformação é mais lenta. De toda forma, o mais importante é que cada vez mais gente esteja engajada na causa ambiental. Outro grupo é o dos negacionistas, aqueles que ainda acreditam que a humanidade não tem nada a ver com o aquecimento global. Contudo, eles ainda podem mudar de ideia conforme os eventos extremos se tornam mais frequentes e palpáveis no dia a dia. 

Eco-ansiedade é saúde mental

Mesmo nos dias atuais, a saúde mental ainda precisa lidar com estigmas. Pessoas que sofrem com doenças sérias, como depressão, enfrentam resistência de quem acredita que tudo não passa de frescura. O mesmo acontece com a eco-ansiedade, que é um termo relativamente novo. Além das emoções que podem ser causadas pela incerteza sobre a segurança do futuro, desastres ambientais geram efeitos concretos, como desemprego, falta de comida, falta de acesso à água potável, problemas de saúde, crises políticas, entre outros. O problema é real e palpável.

Assim como há pessoas com pré-disposição para determinadas condições de saúde, há aquelas que podem ser ainda mais vulneráveis à eco-ansiedade. Indivíduos refugiados, com algum tipo de transtorno mental preexistente ou de classes socioeconômicas mais baixas estão mais sujeitas a desenvolverem essa preocupação inquietante com o meio ambiente, já que podem ser mais afetadas pelos seus efeitos.

Segundo um artigo publicado no começo de outubro no periódico científico British Medical Journal, os autores Mala Rao e Richard Powell, do Imperial College London, argumentaram que, até agora, subestimou-se o crescimento dos níveis de eco-ansiedade, o que pode ter consequências negativas na saúde mental da população a longo prazo. De acordo com o estudo, a ansiedade ecológica pode destacar ainda mais desigualdades sociais e ter efeitos especialmente negativos entre indivíduos vulneráveis psicologicamente. Para combater essa tendência, explicam, é preciso que líderes de todas as partes do mundo reconheçam “a necessidade de agir agora” e se comprometam a criar condições para que criemos um futuro saudável para todos.

Sempre que precisar, peça ajuda

É importante ressaltar que, até certo ponto, sentir-se mal em relação ao que está acontecendo com o meio ambiente é considerado normal. Assim como em todas as esferas da vida, a tristeza, o medo e a raiva, entre outros sentimentos negativos, fazem parte das experiências. Ter medo de catástrofes ambientais faz parte de estar conectado com a realidade e com o meio em que vivemos. Contudo, quando esse sentimento se transforma em uma condição mais profunda e negativa, o recomendável é procurar a ajuda de um especialista. 

Embora possa parecer que não há nada que uma única pessoa possa fazer para contribuir com a preservação do meio ambiente, toda ação individual é importante. Repensar o uso de meios de transporte movidos a combustíveis fósseis, trocar produtos feitos com plásticos de uso único por opções reutilizáveis e se engajar em ações comunitárias são medidas que beneficiam o planeta.

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