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A origem da rivalidade dos ingleses com o resto da Europa

O Reino Unido alterna momentos de proximidade e fases de distanciamento com o continente. Entenda as raízes que levaram ao Brexit

Há 8 mil anos, aconteceu um fenômeno que ajuda a entender a dificuldade dos ingleses em lidar com a Europa. Foi por volta do ano 6.000 a.C. que as últimas faixas de terra que ligavam as terras inglesas ao continente foram cobertas pelo Mar do Norte. As águas vinham subindo fazia quatro milênios, resultado do fim da Era do Gelo. A última ponte seca, que ainda fazia da ilha uma península, ligava o atual condado de Lincolnshire até o território que atualmente corresponde à Holanda. Por vários séculos a partir de então, do ponto de vista de quem vivia na Europa, no Norte da África e no Oriente Médio, o mundo acabava na Grã-Bretanha.

Desde que esse último caminho por terra acabou, os britânicos se viram afastados por algumas dezenas de quilômetros em relação ao continente – no ponto mais próximo, conhecido como o Canal da Mancha por um erro de tradução dos portugueses (o nome original em francês é “Canal da Manga”), são apenas 52 quilômetros de distância por mar, em linha reta. Foi o suficiente para que, ainda hoje, tanto os europeus quanto os britânicos discutam: o Reino Unido é parte da Europa? Ou é apenas um vizinho muito próximo, mas com características próprias?

Invasão romana

Entre 4.500 a.C. e 3.500 a.C., os moradores das Ilha Britânicas transformaram seu estilo de vida. Deixaram de ser nômades e aderiram à rotina sedentária, com cidades, agricultura e pecuária. Enquanto desenvolviam ferramentas de pedra sofisticadas para os padrões da época e avançavam nas técnicas de carpintaria e metalurgia, erguiam casas de pedra bastante sólidas – e também os primeiros templos. O hábito de construir estruturas circulares de pedra para cerimônias religiosas, como Stonehenge, data de 3.000 a.C. e sugere que os ingleses se desenvolveram de forma diferente dos vizinhos: essas construções são muito comuns na Inglaterra, mas bastante raras no continente europeu.

Por volta de 1.800 a.C., os moradores da ilha já mantinham minas de cobre com produção em larga escala. A partir de 1.200 a.C., as cidades, lideradas por uma aristocracia que dominava as finanças e os exércitos, começaram a formar federações. Ao longo de todo esse tempo, o contato com o continente, via Canal da Mancha, era apenas esporádico. Um dos primeiros relatos de intercâmbio data do século 4 a.C., quando o explorador grego Píteas, que vivia na região onde hoje fica a cidade francesa de Marselha, navegou até a Inglaterra. Seu relato sobre a viagem, que se perdeu com o passar do tempo, fez muito sucesso na época.

A partir do ano 43 da era cristã, o contato dos ingleses com o continente se intensificou, e de forma negativa: os soldados de Roma passaram a atacar a região. Conseguiram controlar parte da ilha até o século 5. Para demarcar a fronteira norte do Império Romano, o ponto onde não foi possível mais conquistar os locais, no ano 122 o imperador Adriano mandou construir uma muralha de pedra, de 117,5 quilômetros. A divisa ficou poucos quilômetros ao sul da atual fronteira entre Inglaterra e Escócia. (Essa muralha é uma das inspirações para a muralha de gelo de Game of Thrones.)

Invasão normanda

O intercâmbio forçado com Roma facilitou a entrada de missionários cristãos – no século 16, a Inglaterra romperia com o Vaticano e fundaria a Igreja Anglicana, com estrutura hierárquica própria. Mas o fim do controle romano seria ainda mais marcante, na medida em que permitiu a chegada dos anglo-saxões, povos germânicos que atravessaram o mar, se instalaram na ilha com grande sucesso e se mostraram decisivos no desenvolvimento e na difusão do idioma que hoje se conhece como o inglês.

Em geral, os chefes tribais anglo-saxões foram bem-sucedidos em barrar as tentativas de invasões dos vikings. Até que, no século 10, os moradores da ilha foram derrotados pelos normandos. Descendente de vikings, o norueguês Guilherme, o Conquistador, uniu as tribos inglesas e criou um primeiro reino unificado na Inglaterra. Seus sucessores governaram até o ano de 1154. O fim dessa dinastia levou a um período conturbado, em que a Inglaterra chegou a dominar terras no continente, na região onde hoje fica a França.

A disputa de terras dos dois lados do Canal da Mancha ficou mais acirrada entre 1337 e 1453, quando uma série de conflitos militares entre ingleses e franceses ganhou, posteriormente, o nome de Guerra dos Cem Anos. Para aumentar ainda mais a instabilidade política e militar da ilha, a essas batalhas se seguiu a Guerra das Rosas, um conflito interno pelo controle do trono inglês. Os Tudor, vitoriosos, iniciaram sua dinastia em 1485.

Depois de repelir os franceses e formar um reino unificado, os ingleses se fortaleceram militarmente. Sua marinha se tornou uma das mais poderosas do mundo. Depois de superar em batalha os espanhóis, em 1604, e os holandeses, em 1784, a Inglaterra resistiu às tentativas de invasão do francês Napoleão Bonaparte. Enquanto mantinha os vizinhos afastados, formava o primeiro grande império global da história, que chegaria, no início do século 20, a controlar 24% do território e 23% da população do planeta.

Império colonial

“Por mais de 300 anos, a estratégia dos britânicos consistiu em fazer comércio globalmente, ao mesmo tempo em que bloqueava o surgimento de qualquer poder dominante no continente”, afirma Ian Morris, arqueólogo e professor da Universidade Stanford, em artigo publicado pela revista Harvard Business Review. “No século 17, isso significou entrar em guerra naval contra a Holanda. No 18, a guerra naval contra a França se somou a diversas batalhas nas colônias. No século 19, significou policiar os mares de todo o mundo, lutando pequenas guerras contra países não europeus, e tentando conduzir o equilíbrio de forças entre os europeus”.

No século 20, diz o professor, o cenário mudou e foi necessário mudar a atitude. “Entre 1914 e 1915, [manter a estratégia] significou a guerra total, por ar, mar e terra, contra a Alemanha. Desde 1945, o país se viu em dependência cada vez maior dos Estados Unidos, combinada com uma dança diplomática delicada com a União Europeia”.

De fato, desde o século 17, os ingleses pareciam muito mais interessados na na Ásia, na Oceania e nas Américas do que na Europa. Em 1914, quando se viu envolvido pela Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido tinha acumulado um século inteiro sem entrar em conflito no continente europeu. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o país se mantinha muito mais próximo dos Estados Unidos do que dos europeus.

Prova disso é que, em 1951, quando foi lançada a primeira iniciativa diplomática que daria origem à União Europeia, seis países participaram do Tratado da Comunidade Europeia de Defesa: Bélgica, França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Holanda. Convidados, os ingleses se recusaram a participar do bloco. Quando da assinatura do Tratado de Roma, que deu origem à Comunidade Econômica Europeia, em 1957, eles também se mantiveram de fora, para consternação dos líderes do movimento de integração do continente.

Relação distante

Poucos anos depois, os ingleses tentaram entrar para o bloco. Desta vez, foram repelidos. Em 1961 e em 1963, sua candidatura foi recusada, nas duas ocasiões por pressão do presidente francês Charles De Gaulle. Na época, De Gaulle explicou os motivos para não aceitar a presença inglesa no grupo: “A Inglaterra é insular, é marítima, é ligada por suas interações”, ele afirmou, em 1963. “Seus mercados e suas linhas de suprimentos ligam aos países mais distantes e mais diversos. Tem, em todas as suas atitudes, hábitos e tradições muito específicos”.

O Reino Unido entrou para o bloco, finalmente, em 1973. Em 1975, a população aprovou a iniciativa em referendo. Na época, 67,2% das pessoas se disseram favoráveis à participação do país no bloco. Mas os britânicos foram punidos pela demora para entrar: muitos dos acordos de cooperação, especialmente na área da agricultura, eram desvantajosos para eles. Em compensação, nunca aderiram ao euro, que hoje é a moeda oficial de 19 dos 28 países que fazem parte da União Europeia.

Em 2016, um novo referendo para reavaliar a participação dos ingleses na União Europeia acabou com a aprovação do chamado Brexit, um neologismo formado pela combinação de “Britain” e “exit”, expressão em inglês para “sair”. Foi uma vitória apertada: 51,89% dos cidadãos optaram pelo rompimento. Sinal de que, até mesmo para os ingleses, ainda não está claro o quanto o país é parte da Europa.

Em maio de 2019, a primeira-ministra Thereza May anunciou que deixará o cargo, após as frustradas tentativas de negociar uma saída do bloco que agradasse o Parlamento do país. Três anos antes, ela substituiu David Cameron, premiê que fez muita campanha contra o Brexit, mas acabou derrotado no referendo.