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A origem do forró, ritmo que é símbolo das festas juninas

O forró concorre ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco

Por Victória Martins 22 jun 2026, 10h56 | Atualizado em 23 jun 2026, 11h03
Multidão de homens em festa noturna, a maioria vestindo camisas amarelas e chapéus, tocando sanfonas pretas e vermelhas. Um homem sorri no centro, com bigode e sanfona preta. Outros músicos e pessoas se aglomeram ao fundo, sob luzes de rua
 (Andrea Rego Barros/PCR/Reprodução)
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Fogueira, bandeirolas, quentão e aquela sanfona que embala as noites e coloca todo mundo para dançar coladinho. Está aberta a temporada de um dos nossos festejos mais populares, a Festa Junina! E para um arraiá ser animado de verdade, não pode faltar um ritmo dos mais brasileiros: o forró

O forró é tão nosso que foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2021. Na ocasião, foi classificado como um “supergênero”, por reunir diversas vertentes, como o xote, o xaxado, o baião e o arrastapé. 

Não à toa, o forró também está concorrendo ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Entregue ao órgão em março deste ano, o pedido faz parte de uma campanha nacional para afirmar a identidade cultural brasileira no cenário internacional, sem deixar de lado as raízes nordestinas do ritmo. 

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Do forrobodó ao forró

A origem do forró remonta ao século 19, quando pessoas simples, principalmente em regiões rurais ou interioranas do Nordeste, se encontravam para cantar e dançar ao som de ritmos populares, especialmente em períodos de boas colheitas. 

Eram os forrobodós ou forrobodanças, bailes frequentados por gente “de baixa esfera social” e marcados pelo “violão, sanfona, reco-reco e aguardente”, segundo conta uma nota de 1913, no jornal A Lanceta. Mas o termo é bem mais antigo: aparece na imprensa pelo menos desde 1833 e entra no dicionário em 1889, com o significado de “baile, sarau chinfrim”, conforme registra o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro. 

Forró surge, então, como uma abreviação de forrobodó: as duas palavras aparecem como sinônimos já em 1913, na segunda edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio Cândido de Figueiredo. Com o tempo, o termo forró foi popularizado, adquirindo o significado de “arrasta-pé” e “festa animada” e passando a representar tanto um gênero musical de raízes nordestinas elaborado principalmente a partir da sanfona, da zabumba e do triângulo quanto um estilo de dança em pares com base no ritmo. 

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Uma outra versão seria a de que a palavra vem do inglês “for all” (para todos) e faz referência a festas dadas por funcionários de uma companhia britânica de trens em Pernambuco. Esta ideia, porém, costuma ser vista como uma lenda urbana por grande parte dos etimólogos e historiadores do gênero. 

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Evolução do gênero

Carregado de influências indígenas, africanas e também europeias, o ritmo se espalha pelo Brasil durante o século 20, muito por conta do sanfoneiro Luiz Gonzaga. Conhecido como “rei do baião”, Gonzagão foi o grande responsável por reunir, codificar e recriar as referências da sua infância e suas memórias do sertão nordestino dentro dessa linguagem artística e cultural mais ou menos coesa que hoje conhecemos como forró. Até hoje, títulos que ele compôs, como Asa Branca e Xote das Meninas, estão entre os mais reconhecidos do gênero e são clássicos das festas juninas em todo o país.  

Esta primeira fase, atualmente chamada de forró tradicional ou forró pé-de-serra, ganhou fôlego entre os anos 1940 e 1960, traduzindo em música elementos como a cultura campesina, as festas populares, a força da fé e a saudade da terra natal. Além de Luiz Gonzaga, nomes como Jackson do Pandeiro, o Trio Nordestino e Dominguinhos também ajudaram a popularizar o ritmo e promover um sentimento de pertencimento a uma identidade sertaneja nordestina em um crescente público de migrantes nordestinos no Sudeste.

Nos anos 1970 e 1980, o forró passa a flertar com a MPB e com o pop rock, agregando instrumentos como a guitarra, o baixo e a bateria. Nesta época, destacam-se nomes como Alceu Valença, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo e Gilberto Gil. Já nas décadas de 1990 e 2000, surge no Sudeste o forró universitário, que bebe destas referências anteriores, mas adiciona narrativas mais urbanas, românticas e de apelo jovem. É o caso dos grupos Falamansa, Rastapé e Bicho de Pé. 

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Na mesma época, no Nordeste, o ritmo se distancia da musicalidade tradicional e passa a se modernizar, incluindo elementos do sertanejo romântico, do axé e da lambada. Este movimento dá origem ao forró eletrônico, representado por grupos como Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Aviões do Forró, que costumam incluir mais integrantes e vir acompanhados de um corpo de balé.

Mais recentemente, o forró eletrônico tem se desdobrado em um novo subgênero, a pisadinha ou piseiro, caracterizado por batidas aceleradas, uso do teclado eletrônico e influência do tecnobrega e do xote. Muito associado às vaquejadas, o piseiro tem se espalhado pelo Brasil através de artistas como João Gomes, Zé Vaqueiro e os Barões da Pisadinha. 

Ao mesmo tempo, o forró pé-de-serra vem sendo recuperado através de um movimento roots, que busca valorizar a musicalidade e um jeito de dança específicos, mais próximos das referências tradicionais, e reinventar o forró não só em torno da sazonalidade das festas juninas, mas como um estilo de vida. Atualmente, o movimento roots inspira bailes e festivais de grande porte no Brasil e também em países europeus.

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Baião, xote ou xaxado?

O forró compreende uma grande variedade de subritmos, normalmente diferenciados pela cadência dos instrumentos e pelo toque da zabumba. O próprio Mestre Dominguinhos, um dos principais representantes do forró pé-de-serra, demonstra as diferenças no vídeo abaixo:

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Assim como o forró pé-de-serra, o baião é caracterizado pelo uso de três instrumentos clássicos (a sanfona, a zabumba e o triângulo), mas é mais acelerado e traz uma marcação mais forte da zambumba e da sanfona. É influenciado por ritmos como o lundu, trazido para o Brasil pelos escravizados bantos, sobretudo da Angola e do Congo, e o coco, dança de roda de origem afro-indígena. 

Para conhecer: Baião – Luiz Gonzaga

O xote, mais lento, romântico e cadenciado, é o ritmo melhor representado pelo popular dois pra lá, dois pra cá. Nasce na Alemanha, originalmente intitulada de schottisch, mas se espalha pelo Rio Grande do Sul e depois, pelo Nordeste, ganhando um tempero próprio, muito influenciado pelos movimentos africanos.

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Para conhecer:  Numa Sala de Reboco – Dominguinhos

Já o xaxado é caracterizado por passos rápidos, arrastados e marcados por batidas fortes dos pés no chão. Dançado em círculo, em fileira indiana, foi adotado por cangaceiros e, possivelmente, difundida pelo sertão nordestino pelo bando de Lampião. 

Para conhecer: Pisa na Fulô – Marinês e sua Gente

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O arrastapé, por fim, é dos subritmos mais acelerados e animados e, como o nome já sugere, dança-se arrastando os pés pelo salão. É a trilha tradicional das quadrilhas de festa junina país afora. 

Para conhecer: Forró do Xenhenhem – Forróçacana

Referências

ALVES, S.M.S. Forró e a construção de uma identidade sertaneja nordestina: por Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e Zé Dantas (1947 a 1966). XIX Colóquio de História e IX Colóquio do PPGH: Cultura Popular e Educação Patrimonial, v. 19, 2026. Disponível em: https://www1.unicap.br/ojs/index.php/coloquiodehistoria/article/view/3528 

DA SILVA, C. C. Aspectos históricos das festas e festividades de forró no Brasil. Em Tempo de Histórias, Brasília, n. 40, pp. 181-194, jan./jun. 2022. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/emtempos/article/view/42122 

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