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“Bagagem” – Análise do livro de Adélia Prado

Entenda os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 18h12 - Publicado em 23 ago 2012, 01h03

“Bagagem” é o livro de estreia da escritora cearense Adélia Prado e foi publicado em 1976 sob recomendação do grande poeta Carlos Drummond de Andrade. A obra é dividia em quatro grandes seções: a primeira e maior delas é “O modo poético”, que, como o próprio nome diz, tem diversos poemas onde a principal preocupação é a definição da linguagem, do fazer poético e também de buscar e definir o papel da autora como mulher e poetisa; em seguida tem-se “Um jeito e amor”, com grandes poemas amorosos; a terceira e quarta seções são chamadas “A sarça ardente” e divididas em parte 1 e 2, e trazem poemas cuja temática básica é a memória. Por fim, há uma quinta parte, “Alfândega”, que é composta por somente um poema homônimo.

A poesia de Adélia Prado nasce de um movimento dos poetas mineiros que pretendia resgatar o lirismo na literatura brasileira. Suas principais temáticas são referentes ao papel da mulher em uma sociedade extremamente machista e que, por conseguinte, não dá espaço para as mulheres. Em seus poemas, há uma grande identificação do eu-lírico feminino com as mulheres comuns do dia-a-dia: a filha, a mãe, a esposa. Assim, na medida em que a poeta se aproxima das mulheres comuns e dá voz à elas, a poética de Adélia apresenta um forte caráter feminista e de luta, uma vez que através da poesia ela reclama um lugar igualitário para a mulher na sociedade.

Outra característica muito marcante na poesia de Adélia Prado é a questão da religiosidade. Em “Bagagem” pode-se essa presença religiosa na obra nas epígrafes de cada parte do livro, que são trechos retirados da Bíblia, e também nos inúmeros poemas com menções a Deus. Além dessas referências explícitas, nota-se nos poemas que tratam do fazer poético que para Adélia o dom da poesia é de inspiração divina e é uma “sina” (“Com licença poética”) que deve ser carregada. Em outros poemas, Adélia Prado brinca com a relação sagrado versus profano para refletir sobre os dogmas pregados pelo misticismo católico e seu lugar na sociedade contemporânea.

Poemas representativos
“Com licença poética”
Entende-se pelo termo “licença poética” uma certa liberdade da qual o autor do poema ou texto dispõe para escrever, não atendo-se tanto às questões estético-formais. Além disso, pode-se interpretar o “licença” como o ato de pedir licença para iniciar sua trajetória poética – seja ao leitor ou seja aos grandes mestres da literatura, uma vez que não há destinatário explícito no poema. Assim, “Com licença poética” funciona como uma abertura e encabeça a temática presente em Bagagem.

Este poema parafraseia o famoso “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade. Porém, ao contrário do eu-lírico masculino do poema de Drummond, que nasceu para ser “gauche” (ou “coxo” como aparece no penúltimo verso do poema de Adélia), o eu-lírico feminino em “Com licença poética” vem anunciado por um “anjo esbelto” e se define “desdobrável”, ou seja, flexível e pronto para se adaptar e reinventar, não aceitando o destino marginal que lhe foi dado.

Embora ela aceite os “subterfúgios” que lhe cabem, tais como casar-se, ter filhos, ser dona de casa, o eu-lírico do poema declara cumprir sua sina de poeta, escrevendo aquilo que sente. Porém, confessa que não é fácil ser uma escritora, uma vez que a mulher é ainda uma “espécie envergonhada” e ela declara não possuir as habilidades poéticas de Manuel Bandeira (poeta aludido através do verso “vai carregar bandeira”).

Ao contrário da imagem pessimista do eu-lírico masculino do poema de Drummond, o eu-lírico feminino de Adélia é positivo e não encara a dor como amargura. Ela pode aceitar o seu papel de reprodutora, mas o parto não lhe causa dor. Assim, ao contrário de Drummond que vê o poeta como um ser torto e desajustado do mundo, Adélia cria a imagem de uma “mulher-poeta” forte e pronta para obter uma posição de destaque e “carregar bandeira”.

“Grande desejo”
Há nesse poema uma grande aproximação do eu-lírico com a figura da mulher comum, a mulher do dia-a-dia, a mãe. Esta aproximação não se dá somente no fato de ela se declarar assim, mas também pela enumeração de atos corriqueiros e comuns a muitas mães pelo país afora, e também pela exposição de sentimentos e sensações, tais como doer, gritar, chorar. Porém, mesmo quando chora copiosamente, apresenta-se requintada como uma dama. Assim, em “Grande desejo” tem-se uma das temáticas mais importantes na obra de Adélia Prado que é a significação da mulher. Outra característica muito presente na obra da autora e que também aparece nesse poema é a religiosidade.

“Antes do nome”
Neste poema a autora expõe sua concepção acerca da linguagem, da palavra e, por conseguinte, do próprio fazer poético. Para ela, o que importa não são as palavras, mas sim a emoção das coisas sentidas e aquilo que vem “antes do nome”, conforme o próprio título do poema revela. Ou seja, antes das palavras, a arte literária deve depender dos sentimentos, da emoção etc. Porém, “entender a linguagem” parece ser algo impossível, uma vez que quem o conseguir, “morre”. Assim, apesar de a linguagem ser a única forma que temos para expressar aquilo o que sentimos ou vivenciamos, ela revela-se um modo muitas vezes falho, pois não consegue dar vazão a tudo aquilo o que se sente.

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Aparece também nesse poema a face religiosa da autora, que será uma de suas características mais marcantes. A palavra aparece impregnada de um aspecto divino, pois “quem entender a linguagem entende Deus”. O fazer poético aparece como um dom divino, fazendo eco ao poema “Com licença poética” onde o poeta “cumpre a sina” de escrever. Isso é expresso através do verso “em momentos de graça”, onde por “graça” entende-se aquilo o que é dado por Deus, ou seja, não depende da vontade humana.

“Enredo para um tema”
Este poema encerra, basicamente, o papel da mulher em uma sociedade patriarcal e machista, onde ela deve calar-se e respeitar os mandos e desmandos dos homens. Há a figura do homem apaixonado que deseja casar-se com o eu-lírico, mas ele não possui dote, ou seja, dinheiro e condição social elevada. Em contraposição, tem-se D. Cristóvão, que possui até título hierárquico e condições para pagar o dote, e que portanto casa-se com o Eu do poema. A fala do pai, extremamente irônica, revela a pouca importância que o amor tem perante a força do dinheiro nessa sociedade.

Comentário do professor
O prof. Gilberto Alves da Rocha (Giba), do Curso Apogeu de Curitiba (PR), comenta que é importante ter em mente que “Bagagem” é a obra de estreia de Adélia Prado, afilhada artística de Carlos Drummond de Andrade. Neste sentido, este livro é uma espécie de “autodefinição” da mulher-poeta. Além disso, a linguagem de Adélia chama a atenção por brincar com os opostos: seja no sentido de explorar as contradições do universo feminino, seja no sentido de emprestar certa sensualidade à religiosidade, por exemplo.

Para o vestibular, o prof. Giba acredita que o poema “Com licença poética” tenha grandes chances de ser exigido pela banca examinadora, uma vez que ele é o poema mais famoso de Adélia e está presente nesse seu livro de estreia. O poema é uma paráfrase de “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, explica o prof. Giba. Pensando sobre os temas tratados na poesia de Adélia, é importante saber que as cenas comuns e cotidianas são associadas à “sina adeliana”: a mulher-mãe, a mulher-poeta, a mulher comum que cuida da casa, mas também faz poesia. Por fim, o prof. Giba salienta que a poética de Adélia Prado é apontada como uma espécie de equilíbrio entre o feminino e o feminismo.

Sobre Adélia Prado
Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Com o falecimento de sua mãe em 1950, Adélia começa a escrever seus primeiros versos. Após concluir o ginásio, entra para o curso de Magistério e forma-se em 1953, vindo a começar a lecionar em 1955 no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho. Em 1958, casa-se com José Assunção de Freitas, com quem tem cinco filhos. Antes do nascimento de sua última filha em 1966, o casal inicia o curso de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, onde irão se formar em 1973.

Nesta mesma época, envia cartas com originais de seus poemas para o crítico literário Affonso de Sant’Anna, que os mostra a Carlos Drummond de Andrade. Convencido da qualidade dos poemas, Drummond indica Adélia Prado para a Editora Imago, e assim nasce “Bagagem” (1975), primeiro livro da escritora. O lançamento dessa obra no Rio de Janeiro em 1976 conta com a presença de diversos nomes importantes, tais como Antônio Houaiss, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e outros.

Em 1978, Adélia lança seu segundo livro, “O coração disparado”, que recebe o Prêmio Jabuti. No ano seguinte, a escritora publica “Soltem os cachorros”, sua primeira obra em prosa. Com o sucesso de sua carreira como escritora, Adélia Prado abandona o magistério após 24 anos lecionando.

Em 1980, inicia sua carreira no teatro, dirigindo uma adaptação de “O auto da compadecida”, de Ariano Suassuna. Durante a década de 1980, dirige outras peças e publica diversos livros, participando de encontros e eventos de literatura em diversos países do mundo.

Em 1987, Adélia é acometida por uma forte crise de depressão, o que causou um longo bloqueio literário na escritora. Após conseguir superar a doença, assume um cargo na equipe de orientação pedagógica na Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis em 1993, e volta para a literatura com o livro “O homem da mão seca” (1994), que havia começado a escrever antes da depressão. A partir de então, Adélia Prado publica diversos outros livros de poesia e prosa, além de ter obras suas adaptadas para o teatro. Seu último livro lançado é “Carmela vai à escola” (2011), obra de literatura infantil que é continuação de “Quando eu era pequena” (2006).

Suas principais obras são: “Bagagem” (1976), “O coração disparado” (1978), “Soltem os cachorros” (1979), “A faca no peito” (1988) e “O homem da mão seca” (1994).

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