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Conheça 5 mitos sobre a Idade Média

Idade Média foi um longo período da história que se estendeu do século V ao século XV

Sujeira, bruxas, pessoas morrendo em fogueiras, atraso intelectual, alta religiosidade e pouco valor às artes… Normalmente, é esse o retrato da Idade Média pintado na cabeça dos alunos que vão conhecê-la através dos textos clássicos de História, tanto é que ela ainda é chamada Idade das Trevas. Mas não é preciso de muita pesquisa para descobrir que a realidade é outra, e por dois motivos.

O primeiro é que os mil anos entre os séculos V e XV foram tidos como inferiores justamente pelos pensadores que os sucederam, os renascentistas e iluministas. Eles acreditavam que estavam resgatando o esplendor da Antiguidade, e a Idade Média seria apenas o período “intermediário” entre duas épocas de calorosa produção de conhecimento, arte e beleza. O segundo motivo é que essa denominação universal de “Idade das Trevas” generaliza um período a partir da experiência histórica da Europa, desconsiderando outros povos que, pelo contrário, viveram seus anos mais magníficos justamente nestes anos sombrios.

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Iluminura representando o clero, os camponeses e um cavaleiro da nobreza medieval. Fonte: Wikimedia Commons

De um jeito ou de outro, é certo que a Idade Média é muito injustiçada pela historiografia clássica. E, devido a este resquício de preconceito inserido nos estudos, pouco se reconhece do valor, das invenções e das bases que ela lançou para tudo o que nos rodeia hoje. Para acabar com a confusão, selecionamos alguns fatos não tão conhecidos que desmitificam várias ideias que temos dessa época.

Os hábitos de higiene eram estimulados

Abandone a visão do fedor e da pouca higiene sobre as pessoas da Idade Média. Por incrível que pareça, os banhos eram estimulados, usados como terapêuticos e recomendados para tratamento de doenças. A água era vista como curativa e o corpo limpo estava mais próximo da pureza do que o sujo. Havia, inclusive, métodos rudimentares de escovação dos dentes.

Até meados do século XIII, inúmeros banhos públicos estavam espalhados pelas cidades europeias, uma tradição mantida desde a Antiguidade. Pelo preço, nem todos podiam ir com frequência, mas o costume era estimulado, até porque não havia água corrente nas casas da população. No século seguinte, a Igreja enrijeceu as regras e condenou com mais força os hábitos relativos ao corpo, o que fez com que pouco a pouco os banhos públicos fossem desaparecendo

Ninguém achava que a Terra era plana

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Ilustração da terra em forma esférica, retirada de um manuscrito medieval. Imagem: Wikimedia Commons

Mais uma das supostas ignorâncias do intelectual medieval que não tem embasamento: não há qualquer evidência que aponte que as pessoas pensavam que a Terra era plana – pelo contrário, porque os estudos da época baseavam-se no pensamento greco-romano, que há séculos sabiam que a Terra era esférica. Daí, você já pode concluir que é pura balela aquela história de que Cristóvão Colombo foi rechaçado pelos sábios da Universidade de Salamanca, que afirmaram que era impossível chegar ao Oriente pelo Ocidente porque a Terra é plana. O mais provável é que seu projeto audacioso tenha sido recusado porque consideraram que os cálculos feitos pelo genovês estivessem incorretos – e realmente estavam.

Foi a era das invenções

Como dito no começo deste post, muito da ideia de que a Idade Média foi uma época morta para as ciências e artes foi propagado pelos pensadores renascentistas e iluministas, que proclamavam a si mesmos como resgatadores da riqueza cultural dos Antigos, e se diferenciavam dos medievais como um contraste entre a luz e a escuridão. Mas é claro que tudo isso não é verdade – se não fossem várias invenções medievais, de pequeno a grande porte, nossa vida hoje seria um bocado diferente. Essas criações vão desde peças do vestuário, como calças compridas, botões e cintos, até itens como janela de vidro, óculos, talheres para refeições e moinhos.

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Ilustração representando reunião de intelectuais na Universidade de Paris. Fonte: Wikimedia Commons

Dentre as grandes invenções, podemos citar a prensa de Gutenberg. A primeira impressão de livro, a Bíblia, foi concluída em 1455, e por volta de 1500 cerca de 15 milhões de livros já haviam sido impressos em todo o mundo. Além disso, pasmem: as universidades surgiram também na Idade Média – sim, essas mesmas, as responsáveis por pesquisar e criar conhecimento em todo o mundo (e não era a Idade Média atrasada?). A que é considerada a primeira é a Universidade de Al-Karaouine, localizada no Marrocos e fundada no ano de 859. Na Europa, a primeira é a de Bolonha, na Itália, fundada em 1088, seguida pela Universidade de Paris e a de Oxford, na Inglaterra.

Além disso, foi a Idade Média que lançou as bases para o que se chamaria de Era dos Descobrimentos e as Grandes Navegações, ocorridas poucas décadas depois de seu fim. No campo das artes, a bela arquitetura das igrejas e dos castelos não deixa dúvida de que este período foi tudo menos empobrecido culturalmente. Além disso, como veremos adiante, os anos da Idade Média foram de uma riqueza artística incomparável para os povos orientais.


A Catedral de Notre-Dame de Reims, na França, inaugurada em 1275. Foto: Thinkstock

A pena de morte e as torturas cruéis não eram tão banais

Aquela imagem que temos da cruel Inquisição caçando os infiéis e as supostas bruxas é real, mas costuma vir acompanhada de um grande erro na contagem dos anos. O período incontestavelmente mais cruel da Inquisição católica ocorreu dos séculos XV ao XIX, ou seja, a partir da Idade Moderna. É verdade que a Inquisição surgiu na Idade Média, como um órgão da Igreja incumbido de investigar heresias, mas, naquela época, as penas eram mais relacionadas às excomunhão do que à tortura cruel.

Além disso, é comum pensarmos que, na Idade Média, os espetáculos de execução pública e as penas de mortes dadas a qualquer um eram corriqueiras. Outra ideia falsa: a grande maioria das pessoas vivia incólume por toda a vida, sem maiores preocupações, e as penas de morte eram dadas somente em último caso. As maiores violências da história aconteceram muito mais nos últimos séculos, como genocídios e assassinatos em massa em épocas de guerra.

A idade de ouro islâmica

Como dito no início deste post, uma boa parte da visão negativa acumulada ao longo dos anos sobre a Idade Média é atribuída somente aos povos europeus (o que evidencia o caráter eurocêntrico do ensino de história na nossa sociedade). No entanto, o que muitos não sabem é que os mil anos desse período foram os anos mais gloriosos e repletos de avanços para outros povos. Especificamente, falo dos islâmicos, que viveram o que é conhecido como “Idade de ouro islâmica” durante os séculos VIII e XIV.


Estudantes em biblioteca islâmica no século XIII. Imagem: Wikimedia Commons

Após a expansão islâmica da época de Maomé, no século VII, surgiu o maior império visto até aquele momento na história, que dominava o norte da África, a península ibérica e o que hoje é o Oriente Médio. Seguindo os preceitos do Alcorão, foi priorizada em absoluto a produção de conhecimento, visto que, naquele período, o mundo muçulmano se tornou o centro cultural do mundo, reunindo intelectuais e culturas de vários povos diferentes. Os islâmicos são os responsáveis por terem resgatado e traduzido os escritos gregos antigos (que, de outra forma, teriam sido perdidos); por resgatarem e aprimorarem muito a antiga técnica chinesa de produção de papel; e por introduzirem na cultura ocidental os números indo-arábicos, maior sistema de representação numérica do mundo.

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Página do livro do matemático persa Al-Khwarizmi, o fundador da álgebra. Imagem: Wikimedia Commons

Além disso, a filosofia islâmica e a produção de conhecimento nos campos da medicina, geografia, matemática, navegação, agricultura e economia produziram inovações nunca vistas pelos ocidentais. A criação de hospitais públicos e bibliotecas públicas também foram obra dos muçulmanos, também como a primeira universidade (como vimos nos tópicos acima). Assim, o povo islâmico foi dos que mais preservou, aprimorou e inovou em termos de cultura, criando uma confluência de conhecimentos pouco vista na história mundial.