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Descobrimento ou invasão do Brasil: o que é preciso saber para as provas

Professores de História comentam como ensinam o tema em sala de aula e se o debate "revisionista" pode aparecer nos vestibulares

Por Juliana Morales Atualizado em 25 abr 2022, 17h03 - Publicado em 22 abr 2022, 16h59

No dia 22 de abril de 1500, a esquadra comandada pelo fidalgo português Pedro Álvares Cabral ancorou em frente a um monte, batizado de Pascoal, no litoral Sul do atual estado de Bahia. Apesar da terra já ser habitada por povos indígenas há milhares de anos, a data foi tida na História, por muito tempo, como o dia do descobrimento desse território que hoje é o Brasil. Mais tarde, o termo passou a ser questionado por historiadores e movimentos sociais, em uma discussão que repercute até hoje.

Raphael Tim, professor de história do Curso Anglo, conta que a utilização do termo “descobrimento” para falar da chegada dos portugueses nas terras sempre foi um tema controverso. A discussão ganhou força em 2000, ano marcado por celebrações oficiais dos 500 do Brasil.

Descobrimento?

Tim defende que, como qualquer conceito histórico, “descobrimento” carrega uma parcela de verdade e outra passível de questionamentos. “Se você considerar a mentalidade dos europeus nos séculos 15 e 16, eles estavam efetivamente descobrindo um novo lugar [a América]”, esclarece o professor. A adesão ao termo por tanto tempo, segundo Tim, explica-se pela produção historiográfica e a identidade nacional brasileira terem sempre seguido parâmetros eurocêntricos.

Por outro lado, o professor diz que é um erro histórico sustentar a versão de descobrimento nos dias atuais. No contexto da época era aceitável, mas a definição não cabe mais em pleno século 21. “O que houve foi uma invasão, já que havia cerca de 60 e 70 milhões de povos indígenas habitando a América antes da chegada dos europeus”, afirma.

Mirtes Timpanaro, coordenadora de História do Colégio Rio Branco, reitera o uso equivocado da ideia de que foi Cabral e sua tripulação que descobriram o território brasileiro. Além dos indígenas que viviam ali, historiadores apontam documentos da época que indicam que outros navegadores já conheciam as terras brasileiras.

“Na verdade, a chegada dos portugueses foi um momento de descobertas entre dois grupos: estrangeiros e nativos. Esse encontro modificou ambos os lados, mas os indígenas sofreram perdas irreparáveis”, diz Mirtes. O processo de colonização consistiu no extermínio das populações indígenas, tanto pelos conflitos violentos, quanto pelas doenças trazidas pelos europeus.

“Invasão” e outras revisões

Tim alerta que existe uma ideia negativa e, muitas vezes, equivocada, em relação ao revisionismo histórico. O professor explica que a História, por essência, passa por revisões permanentemente. Como ciência, ela vai mudando seus parâmetros de critérios e incorporando novas pesquisas e novos documentos.

Essa revisão é muito favorável para a produção historiográfica, defende o professor. Um exemplo é a própria questão do descobrimento. “Esse conceito não dá conta de responder perguntas importantes como: quem eram os povos que estavam aqui antes? Quais eram as diversidades entre eles? O que eles faziam antes da chegada do colonizador?”, explica Tim, que trata o acontecimento com os seus alunos usando a palavra “invasão”.

Mirtes dá o exemplo de dois outros termos que foram revistos ao longo da história. O primeiro é a troca da palavra “escravos” por “escravizados”. Em um texto para o Jornal da USP, Eunice Prudente, professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo explica a diferença: “Não há, nunca houve e nem haverá escravos. O ser humano, sob violência física ou simbólica, tem sido escravizado, mas não escravo. O escravo é um ser inerte convencido de sua inferioridade face ao opressor, subordinado em todas as esferas da vida. Isso, nenhum ser humano o é”.

A outra mudança de nomenclatura é de “índio” para “indígena”. O termo “índio”, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), deriva de uma confusão cometida por Cristóvão Colombo, tido como “descobridor” das Américas. Ao chegar no continente ele acreditava estar, na verdade, nas Índias, e por isso os povos que aqui habitavam foram genericamente nomeados “índios”. O termo, de acordo com lideranças importantes destes povos, também é responsável por perpetuar estereótipos e até mesmo violências contra essa parcela da população, como explica esta outra reportagem do GUIA DO ESTUDANTE

Revisionismo ideológico

Tim esclarece que o problema é quando essa revisão da história é distorcida e traz, meramente, um viés ideológico – sem fundamentação científica. É o que ficou conhecido por estudiosos como revisionismo ideológico.

“Nesse caso, ele não está revendo determinados eventos ou conceitos históricos sob a luz de novas pesquisas. Mas, sim, deturpando alguma passagem da história sem fundamentação documental”, explica o professor do Anglo, que diz que o maior exemplo dessa questão são os grupos que negam o Holocausto. Eles negam todos os documentos, pesquisas e relatos orais sobre a tentativa da Alemanha nazista de exterminar judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Outro exemplo, que vem ganhado destaque na mídia nos últimos anos e que chegou a ser tema de redação, é a discussão sobre monumentos que homenageiam personagens históricos reconhecidamente escravagistas e colonialistas. Essas estátuas tornaram-se alvo frequente de protestos.

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Muitos apontam que a derrubada ou a simples remoção destes monumentos dos lugares onde estão deveria ser lida como uma tentativa de revisionismo histórico, ou uma negação e silenciamento do passado. A tese é rebatida por Raphael Tim, que acredita que os monumentos em si promovem um revisionismo da história: “você está pegando uma passagem do passado, de assassinato, de opressão, escravidão e falando que ela é algo bonito”. 

O professor defende que a realocação dessas estátuas de vias públicas para outros locais, como museus e centros de conservação. Assim, ainda poderiam ser objeto de estudo e poderiam servir como exemplo e lição para que esses eventos históricos não voltem a se repetir.

+ Tema de redação: a destruição de monumentos como forma de protesto

Como o debate aparece no vestibular

Tim afirma que o debate sobre o descobrimento ou invasão do Brasil é um aspecto já bem consolidado nos vestibulares. O professor avisa que o termo “descobrimento” ainda pode aparecer nos enunciados, e caso seja usado pelo estudante na redação ou em uma resposta dissertativa, não será, necessariamente, considerado um erro. O importante é que o estudante entenda o contexto histórico e esteja a par da discussão.

Em relação ao conteúdo cobrado nas provas, é necessário que o candidato reconheça a diversidade dos povos indígenas, tópico que aparece muito nas questões, além de compreender o que significou a chegada do colonizador no Brasil e o choque cultural que ocorreu. Ainda nesse contexto, é preciso conhecer as características e a força da expansão marítima portuguesa. 

Mais do que estar preparado para as questões sobre o assunto, entrar em contato com discussões sobre revisões históricas é um exercício para entender o Brasil, observa Mirtes. “Trata-se de se apropriar da história do país, não só da narrativa “supostamente heróica”, mas a história mais real, cheia de erros e desencontros”, diz a professora. “Só assim vamos entender que Brasil é esse, ainda tão preconceituoso, e responder algumas perguntas, como: por que essa pobreza está nas periferias de São Paulo e nos morros do Rio de Janeiro? Por que os presídios contam com o número alto de negros? O que aconteceu com os escravizados e o que eles receberam em troca?”, completa.

Para saber mais

A pedido do GUIA DO ESTUDANTE, o professor Tim indicou quatro livros para quem quiser se aprofundar no tema e ampliar o debate. Confira!

1. Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

2. Índios no Brasil, de Manuela Carneiro da Cunha

Índios no Brasil, de Manuela Carneiro da Cunha

3. Os índios antes do Brasil, de Carlos Fausto

Os índios antes do Brasil, de Carlos Fausto

4. Conquistadores, de Roger Crowley

Conquistadores, de Roger Crowley

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