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Entenda a Revolta da Chibata com “O Mestre-Sala dos Mares”, de Aldir Blanc

Aldir Blanc faleceu na última segunda-feira (4), vítima da covid-19. Confira o contexto de uma das suas grandes composições

Por Juliana Morales - 6 Maio 2020, 11h14

O compositor e escritor Aldir Blanc faleceu na última segunda-feira (4), vítima da covid-19. Autor de vasta obra musical e literária, ele deixa, além da saudade, composições que marcaram a vida e a história dos brasileiros. Entre elas, a música Mestre-Sala dos Mares (1974), escrita com o parceiro João Bosco e gravada pela primeira vez pela cantora Elis Regina.

Revolta da Chibata

A canção fala da figura de João Cândido, o líder da Revolta da Chibata (1910), no Rio de Janeiro. O “Almirante Negro”, como foi apelidado pela mídia na época, foi o porta-voz na ação dos marinheiros contra o racismo, os castigos físicos (chibatadas que deram nome à revolta) e as péssimas condições de trabalho na marinha brasileira. O motim, que aconteceu entre 22 e 27 de novembro de 1910, teve como estopim a punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes com 250 chibatadas e sem direito a tratamento médico. 

Pressionado tanto pelas ameaças dos marujos quanto de políticos, o então governo de Hermes da Fonseca aceitou os termos propostos e pôs fim aos castigos físicos na Marinha e prometeu anistia a todos os envolvidos. Mas a promessa não foi cumprida: no dia seguinte, um decreto dispensou cerca de mil marinheiros por indisciplina.

Além disso, uma semana depois, uma segunda revolta na Marinha iniciou-se no Batalhão Naval estacionado na Ilha das Cobras. Os envolvidos foram aprisionados e torturados nessa ilha, apenas João Cândido e o soldado conhecido como Pau de Lira sobreviveram. Outras centenas de marinheiros foram enviados para trabalhar em seringais na Amazônia e muitos foram fuzilados durante o trajeto.

Ao ser solto, João Cândido tentou voltar para a Marinha, mas foi expulso. Tempos depois, em abril de 1911, foi detido no Hospital dos Alienados como louco. Solto e absolvido em 1912, tornou-se estivador e vendedor de peixes no mercado da Praça XV, em frente ao porto. João Cândido morreu em 1969, aos 89 anos, esquecido, mesmo após mostrar sua coragem em lutar por uma sociedade mais justa.

Letra

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo feiticeiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como navegante negro

Tinha dignidade de um mestre sala

E ao acenar pelo mar na alegria das regatas

Foi saudado no porto, pelas meninas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

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Rubras cascatas jorravam das costas

Dos santos entre cantos e chibatas

Inundando o coração do pessoal do porão

E a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o navegante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Censura

Em 1970, quando O Mestre-Sala dos Mares foi composta, o Brasil ainda enfrentava o regime militar (1964-1985). A letra da canção que lembrava a Revolta da Chibata e homenageava o líder João Cândido foi censurada, com a alteração de vários termos. A menção a seu apelido Almirante Negro foi substituída, por exemplo, por “navegante negro”. 

Em julho de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu anistia post mortem ao marinheiro negro. No dia 20 de novembro do mesmo, durante comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra, uma estátua em homenagem a João Cândido foi inaugurada, na Praça XV, centro do Rio. 

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