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Juliette, Gil e Arthur: o BBB21 e a jornada do herói (e da heroína)

Assim como na teoria de Campbell, participantes saem em uma missão, enfrentam obstáculos, superam tentações e descobrem a si mesmos no reality show

Por Danilo Thomaz Atualizado em 4 Maio 2021, 19h27 - Publicado em 4 Maio 2021, 14h59

O Big Brother Brasil 21 termina na noite desta terça batendo recordes de audiência e repercussão – ao ponto de fazer sombra para a edição de 2020, que fez o programa renascer e ganhar certo ar cult.  

Várias são as tentativas de explicar o fenômeno que, ao longo de 100 dias, nos colocou na frente da TV – e na frente da telinha do Twitter. A mais corrente é a pandemia, que nos deixa em casa a maior parte do tempo, o que favorece a audiência da TV aberta, até então em declínio. 

Há outras hipóteses: a escalação do elenco, a criatividade da equipe do programa em criar mecanismos que mantêm o interesse do espectador, a edição de cada episódio. Afinal, o BBB não é apenas um fenômeno de audiência e faturamento, mas de repercussão, engajamento e fidelidade do público – quem não ficava ansioso às quintas, domingos e terças, dias em que o jogo da semana era definido? Quem não corria para o pay per view ou as câmeras ao vivo da casa tão logo o programa acabasse na TV Globo para ver a repercussão de um paredão, uma saída ou liderança? 

Não podemos, no entanto, esquecer que o BBB, como as séries e as telenovelas, oferece uma narrativa seriada, na qual acompanhamos não apenas uma sucessão de acontecimentos, mas também a forma como esses eventos modificam as personagens (guardem esta informação, voltaremos a ela!).

Em 2020, o que prendeu o público à TV e às redes sociais foram basicamente duas narrativas. A sororidade das participantes em confronto com os chamados chernoboys e a relação de Prior e Babu 

Excluídos do grupo das “fadas sensatas”, os participantes tiveram que ter estratégia e cumplicidade para sobreviver em minoria dentro da casa. Não chegaram à final, mas marcaram a edição – e seguem populares fora do programa.  

Quem venceu foi a médica anestesista Thelma Assis, a Thelminha. Firme e serena, era a única participante a transitar entre o grupo das fadas e dos rapazes, por sua amizade com Babu. E a única do grupo pipoca – ou seja, dos participantes com poucos seguidores – a chegar à final. Esses fatores e a pandemia, que trouxe à cena os profissionais da saúde, ajudaram a levá-la à merecida vitória – na opinião deste que vos escreve.  

A edição de 2021, no entanto, diferiu nesse aspecto. Embora a questão étnica e de orientação sexual e de gênero tenham estado presentes – causando discussões e bem-vindas ondas de indignação e solidariedade – o BBB 21 foi mais uma edição de personagens do que de temas. E nisso ela difere de 2020. 

Ao longo desses 100 dias, o que acompanhamos foi, na verdade, diferentes jornadas de heróis e heroínas.  

Heróis? Heroínas? Os participantes do BBB são heróis e heroínas? 

De certo modo sim. Esse conceito – a jornada do herói – foi desenvolvido na década de 1980 pelo antropólogo Joseph Campbell. Estudioso dos mitos de diversas culturas ao longo da história, o autor sintetizou as narrativas de diferentes povos nas “17 etapas do monomito” (que vem a ser a jornada do herói) – a circunferência das histórias, que tÊm início com a partida do herói, ao ser chamado para uma missão que, inicialmente, recusa, e seu regresso, transformado pela experiência. Os 17 passos descritos por Campbell você encontra aqui.  

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Esse conceito seria posteriormente atualizado por outros autores, como Christopher Vogle. Há, ainda, um sem número de estudiosos a dissecar estruturas narrativas e a jornada de personagens, fundamentais para a compreensão da forma das histórias – que jamais devem ser reduzidas a fórmulas. Afinal, não há receita para escrever, mas instrumentos que ajudam a criar e a analisar o texto.  

Mas o que, afinal, isso tem a ver com o BBB? 

Ora, foi isso que nós acompanhamos nesses meses – e vamos provar agora a partir da avaliação de três participantes. Mas antes precisamos entrar no acordo da “suspensão da descrença”, que nada mais é que um termo cunhado pelos ingleses (suspension of disbelief) para designar o pacto que existe entre uma história e seu leitor, ouvinte, espectador. A partir do momento em que ela começa a ser contada, devemos esquecer o mundo aqui fora e nos centrarmos naquele universo que nos é apresentado – e suas regras.  

Por isso, vamos avaliar em linhas gerais a jornada desses três personagens do BBB baseando-se nesses estudos e a partir das informações dadas por eles e suas histórias DENTRO da casa, deixando de lado suas vidas externas – que, ademais, não nos dizem respeito. 

Arthur de Conduru, participante do BBB21, chora no reality
Divulgação/Reprodução

Arthur Picoli de Conduru

crossfiteiro passou metade do reality fazendo jus às características tão criticadas em homens brancos e héteros. Era frio com a namorada, a atriz Carla Diaz – ao ponto de não socorrê-la em uma prova. Na hora de imunizar um participante escolheu Projota, seu amigo, em detrimento da namorada – que chegou a pedir para ser indicada no lugar dele. Em sua estrada de provas, reagia de maneira agressiva. Sem Carla e Projota, viu-se sozinho e teve que encarar seu desafio: se reinventar dentro do jogo. Aproximou-se da cantora Pocah, vivendo seu encontro com a deusa, fundamental para sua reinvenção. Revelou um lado mais bem humorado e ganhou a simpatia de parte do público por suas posições políticas – e defesa ao respeito de medidas restritivas de combate à pandemia. Ofereceu o ombro a Gil, quando ele lhe contou da rejeição que sofria por parte do pai por ser gay, e criou uma amizade bem humorada com o participante. Aos poucos, o rapaz durão foi amolecendo – a ponto de até mesmo selar as pazes com seu principal rival, Fiuk. Como ele mesmo disse, terminou a jornada, ao ser eliminado, deixando o “Arthur do passado”, que precisava ser sempre duro, para trás. Após sair para cumprir sua missão, o herói sempre volta transformado, com mais sabedoria. 

Gil do Vigor com coroa em cena do BBB21
Divulgação/Reprodução

Gilberto Nogueira, o Gil do Vigor

O doutorando em economia, foi o primeiro participante a entrar na casa e fez as honras para boa parte dos participantes. A sua saída, no último domingo, foi também para muitos espectadores o fim do programa. Fã do BBB, Gil foi o primeiro a decifrar o jogo, junto de sua companheira Sarah: percebeu que o grupo que acabou conhecido como “Gabinete do Ódio” – formado por Karol KonkáLumena, Nego Di e Projota – não tinha fora da casa a mesma força que internamente, com a saída do ator Lucas Penteado. A partir daí, com Sarah e Juliette, Gil conseguiu ajudar a desmontar o grupo. No entanto, o sucesso subiu-lhe à cabeça – como também à cabeça de Sarah. Essa foi a tentação que quase tirou o herói Gil de sua missão. A dupla afastou-se de Juliette e aliou-se a participantes como Caio e Rodolffo, popularizados como a Bancada Ruralista. Um comentário considerado preconceituoso da parte de Rodolffo acerca do vestido do Fiuk, porém, trouxe a dupla de volta ao eixo. Mas já era tarde para Sarah. Sem sua principal parceira, Gil reaproximou-se de Juliette, fortaleceu a amizade com Fiuk e estabeleceu um vínculo com Arthur. Em paralelo ao jogo, Gil viveu também um processo de autoaceitação: de família evangélica, rejeitado pelo pai, Gil desabrochou sua identidade gay da casa. Foi o primeiro participante a beijar outro homem, teve uma festa de temática LGBT, discutiu suas dores, confrontou seus fantasmas – e deu um segundo beijo – em Fiuk. Na jornada em busca de R$ 1,5 milhão, encontrou a si mesmo e obteve a maior vitória que um herói pode ter ao fim de sua jornada: a liberdade para viver.

Juliette se emociona durante o BBB21
Divulgação/Reprodução

Juliette

A participante nascida em Campina Grande (PB) foi discriminada logo de início por seu sotaque e temperamento, separando-se de seu mundo original de maneira dolorosa. O mais grave é que seu jeito foi atribuído às suas origens geográficas, numa atitude xenofóbica. A exclusão e a discriminação foram os obstáculos na jornada da heroína que, então, aproximou-se de Gil e Sarah. Desentendeu-se com ambos e buscou novas alianças. Foi vítima de acusações e difamações – mas também distorceu histórias e afirmações. Fato é que Juliette enfrentou a discriminação da qual foi vítima, fortaleceu-se e restabeleceu os vínculos com Gil. Em paralelo, ao longo do BBB, viu sua paixão platônica por Fiuk tornar-se um entrevero de comédia romântica – com discussões sobre, por exemplo, o que é e o que não é cuscuz – com direito até a casamento simbólico. Juliette é, hoje, a preferida para ganhar o prêmio, cumprindo seu objetivo final. A participante mais rejeitada dentro da casa, depois de Lucas, termina como a favorita do público. Jornada mais completa não há.

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