O genocídio que quase dizimou uma população e ainda é pouco reconhecido
Massacre que matou 1,5 milhão de armênios completa 110 anos, ainda sem amplo reconhecimento pela comunidade internacional

Anos antes de a palavra genocídio ter sido usada e de o mundo ter se estarrecido com o Holocausto, a população da Armênia, país localizado no sudeste da Europa, era silenciosamente dizimada. Em meio aos conflitos da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), ocorria, em 1915, o massacre de 1 milhão e meio de armênios pelo antigo Império Turco-Otomano, cuja herdeira é a moderna Turquia. Calcula-se que, nessa época, o território sob domínio do Império Otomano abrigava cerca de 2 milhões de armênios.
A data símbolo do início do genocídio é 24 de abril de 1915. Em meio às comemorações da Páscoa cristã, centenas de intelectuais, políticos e religiosos da comunidade armênia foram presos e executados em Constantinopla, hoje Istambul. O império turco, aliado dos alemães na 1ª Guerra Mundial, acusava os armênios de traição, por apoiarem as tropas inimigas, da Tríplice Entente, formada pela Inglaterra, França e Rússia.
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Além da morte dos principais líderes, o genocídio foi arquitetado em outras duas frentes. Em uma delas, homens armênios eram convocados a lutar na guerra, integrando o exército turco – na verdade, um pretexto para serem executados. Usados como mão de obra escrava para reconstruir estradas e pontes e cavar trincheiras, eram mortos muitas vezes pelos próprios soldados turco-otomanos.
A outra vertente do extermínio, que atingiu a maior parte das vítimas, aconteceu nas chamadas marchas da morte, incluindo mulheres, crianças e idosos. Os turcos alegavam que as pessoas precisavam deixar suas casas devido aos avanços das tropas da Entente. Organizavam, assim, caravanas em que as pessoas eram deportadas para o deserto de Deir ez Zor, na Síria. Como as condições da viagem eram terríveis, milhares de pessoas morriam de sede, fome e maus-tratos.
Mulheres eram violentadas, convertidas à força ao islã e tinham seus filhos raptados e levados para famílias turcas. As poucas pessoas que conseguiam sobreviver eram encaminhadas a campos de concentração. Vilas e povoados foram destruídos, saqueados e incendiados. Igrejas e escolas armênias acabaram transformadas em mesquitas e em órgãos oficiais do império.
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Antecedentes
O genocídio de 1915 não foi o primeiro massacre imposto pelos turcos ao povo armênio. Entre 1894 e 1896, foram executados cerca de 300 mil armênios.
No século 19, o Império Turco-Otomano, que havia sido um dos mais poderosos do mundo por seis séculos, encontrava-se em decadência, perdendo territórios e populações dominadas. A crise impulsionou o ímpeto separatista dos armênios, constituindo-se em mais uma ameaça de desagregação.
Para reprimir tais movimentos, o sultão Abdul-Hamid II ordenou o massacre dos armênios, sob a acusação de que colaboravam com os russos. No século 19, a Rússia entrou em guerra com os turcos e conquistou porções da Armênia Ocidental, até então sob domínio otomano.
No início do século 20, o Império Otomano se enfraquecia e sofria forte pressão por sua modernização. Em 1908, a coalizão Jovens Turcos derrubou o sultão e assumiu o poder, promovendo o panturquismo, ou seja, uma política de reconstrução do grande império turco. Mais uma vez, esbarrariam nos armênios, que ocupavam posição geográfica estratégica e papel importante no comércio do império.
Novas atrocidades
Com a derrota turca ao final da 1ª Guerra Mundial, a Armênia tornou-se independente por dois anos, e, em 1920, tornou-se uma das repúblicas soviéticas (e só viria a ser um país independente novamente em 1991). Enquanto isso ocorria, um novo genocídio teve início, liderado pelo nacionalista Mustafá Kemal Ataturk, considerado o pai da Turquia moderna. Desta vez, execuções, torturas, expulsões e maus-tratos foram dirigidos a armênios que haviam retornado às suas casas, na Anatólia Oriental, no leste da Turquia, após o final da guerra. Alguns anos depois, a população armênia na Turquia se resumia a uma comunidade existente em Constantinopla.
Sem reconhecimento
A Turquia jamais reconheceu o genocídio armênio. Essa atitude foi amparada pela maioria das nações europeias, devido ao papel estratégico do país, aliado para conter a influência soviética. Os Estados Unidos também não tiveram interesse em confrontar a Turquia, importante aliado no Oriente Médio.
Além de quase exterminar a população armênia, o primeiro genocídio do século 20 teve outra consequência: houve uma grande diáspora, e os armênios se espalharam pelo mundo. Os armênios que vivem hoje fora do país superam em número a população local. Há 3 milhões de pessoas na República da Armênia, e mais de 5 milhões de armênios pelo resto do mundo, principalmente na Rússia e na Geórgia. No Brasil, há cerca de 100 mil descendentes de armênios. A comunidade continua lutando pelo reconhecimento mundial do genocídio de 1915.
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