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Por que o erro de português do outro incomoda tanto?

A irritação com uma crase mal empregada é puro amor pela língua ou esconde algo mais?

Por Carol Jesper 25 fev 2026, 19h00 • Atualizado em 26 fev 2026, 18h17
samira e tia milena bbb
 (Rede Globo/Reprodução)
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  • Dor de ouvido, arrepio, coceira, vontade incontrolável de corrigir: muita gente relata sintomas físicos quando se depara com algum deslize das normas da língua portuguesa. Mas por que será que o erro dos outros nos incomoda tanto? 

    Quando alguém fala, conseguimos identificar uma série de pistas sobre essa pessoa. Gírias podem sugerir faixa etária ou pertencimento a grupos; jargões indicam profissão ou área de atuação; desvios gramaticais costumam ser associados a pouca escolarização ou baixa renda; rebuscamento excessivo pode soar como insegurança disfarçada de erudição; regionalismos e sotaque apontam origens geográficas e trajetórias de vida. Há termos mais comuns na boca de certos gêneros, de certas gerações, de certos ambientes. Ou seja: enquanto alguém fala, somos capazes de ler essa pessoa para além das palavras. 

    Muitas vezes, essa leitura sobre as características de alguém que conseguimos identificar a partir da fala acaba resultando em formas de discriminação. Se passou pela sua cabeça a expressão “preconceito linguístico“, acertou em cheio! Esse tema, aliás, é muito presente no Enem. Para você que é estudante e busca se preparar para o vestibular, ter uma visão crítica sobre esse assunto pode ser tão útil quanto saber empregar a crase. Mas o que exatamente está em jogo quando lidamos com esse tipo de discriminação?

    Falamos em “preconceito linguístico” (expressão que dá nome ao excelente livro do linguista Marcos Bagno) porque as reações comumente se dirigem às formas de falar, mas os pesquisadores apontam há décadas que se trata, no fundo, de um preconceito social. Não seria socialmente aceitável criticar alguém mencionando seus recursos financeiros, origem, status social etc. Então fazemos a mesma crítica por meio de como esses traços se manifestam via linguagem. Atacamos a fala para fingir poupar o falante. Alguém realmente acredita que o incômodo é lexical, sintático, morfológico? Que acordamos irritados porque uma preposição foi mal-empregada? 

    Nosso incômodo não fica restrito à fala: ele também se manifesta quando percebemos que alguém não sabe algo que, pelo nosso julgamento, deveria saber. Não precisa ir muito longe para encontrar um exemplo. Nesta edição do Big Brother Brasil, uma participante perdeu uma prova porque escreveu “ir á festa” com acento agudo em vez do acento grave (aquele inclinado à esquerda, usado para indicar a crase). O público brasileiro se revoltou: como pode um adulto desconhecer algo supostamente “tão banal”? Esse episódio expõe uma expectativa irreal sobre o aprendizado. 

    A acentuação pode parecer um tema simples se considerarmos que começa a ser ensinado nos anos iniciais do Ensino Fundamental. No entanto, é um tema complexo, com nuances e necessidade de compreensão de sentidos e da estrutura da língua. Além disso, nem sempre o ensino garante a progressão esperada: mesmo alunos mais maduros às vezes conhecem o assunto de modo infantilizado, com estratégias como a menção ao “chapéu do ‘vovô’” (em vez de “acento circunflexo”) e ao “grampo da ‘vovó’” (em vez de “acento agudo). Como apontar o dedo? 

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    O aprendizado não é linear. Podemos dominar estruturas complexas e, por alguma razão, desconhecer um tema que parece simples para a maioria. No nosso imaginário, parece haver desvios linguísticos considerados inaceitáveis, ao passo que outros passam despercebidos (como o uso inadequado de “desapercebido” nesse contexto).

    Trocar “mas” por “mais” ou usar “seje” em lugar de “seja” são desvios estigmatizantes, mesmo que não gerem ambiguidade. Usar “beneficiente” no lugar de “beneficente” parece uma falta média; um “erro” comum. Já construções como “tratam-se de” ou “esse filme trata-se de”, igualmente condenadas pela norma-padrão, passam ilesas e não causam otite, sobretudo porque não saem de qualquer boca. Você vai se irritar comigo se eu pedir, mais uma vez, que pense sobre quais são os grupos que falam assim? 

    A língua não se divide em certo ou errado. Línguas são conjuntos de possibilidades. Mesmo dentro do campo das normas, há zonas cinzentas. Quando falamos nas recomendações que as gramáticas normativas apresentam, aquelas cobradas em vestibulares e concursos, estamos lidando com a norma-padrão: um modelo idealizado, relativamente estável, útil para certos contextos. 

    “Conhecer a gramática” não significa não cometer desvios gramaticais (veja bem esse verbo “cometer” e o peso de crime e pecados que ele carrega). Significa seguir certas normas em certos contextos, em geral se desviando das formas estigmatizadas. A meta do falante não deveria ser a de se policiar continuamente para não cair em erros, mas a de ter repertório suficiente para saber navegar entre registros, escolher formas socialmente valorizadas em determinados contextos e ficar à vontade para se expressar em situações familiares ou informais. 

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    + Variantes linguísticas: o que são e como aparecem nos vestibulares

    Uma hipótese para nosso desconforto em relação à fala dos outros tem relação com a visão equivocada que temos a respeito da língua. Em vez de apreciarmos a variedade, a criatividade e a vitalidade das formas linguísticas, entendendo que a língua extrapola as regras, ficamos vigilantes, querendo resguardar um conjunto de recomendações como se fossem cláusulas da Constituição.

    Além disso, temos uma tradição escolar que reforçou, por décadas, a ideia de que a única manifestação legítima da língua seria aquela bem controlada, artificial, excessivamente polida e, para a maioria de nós, inalcançável. Uma língua de porcelana, bonita de ver, mas distante da vida e dos usos reais. 

    Talvez valha perguntar: por que me incomodo tanto com alguns erros e desconhecimentos? O que exatamente está me ferindo: certos usos da língua portuguesa ou a imagem que faço de quem fala? Estou defendendo o idioma ou defendendo meu lugar simbólico no mundo, que reforço ao ter conhecimentos que ajudam a me diferenciar? Corrijo para ajudar, para constranger ou para me afirmar? Por que “os menino vai” provoca mais aflição do que o fato de que os meninos estão indo descalços, ou não estão indo em segurança? Quanto mais pensamos sobre os usos linguísticos, mais fica claro que é na vida e não nas gramáticas que encontramos algumas respostas.

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    carol jesper
    (Arquivo pessoal/Reprodução)

    Carol Jesper é mestre em Linguagem e Educação pela USP, autora do livro “Não foi isso que eu quis dizer” (Maquinaria Editorial) e fundadora da página “Português é legal”.

     

     

     

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