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USP promove cursos e palestras sobre pílula do dia seguinte

A Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em uma iniciativa coordenada pelo professor Fernando Lefevre, e que envolve uma grande equipe, está empreendendo um programa que deve colaborar nas políticas que lidam com a problemática da gravidez na adolescência. Trata-se de uma ampla pesquisa, iniciada em 2008, para verificar o que pensam adolescentes e […]

Por Redação Atualizado em 16 Maio 2017, 13h34 - Publicado em 30 abr 2009, 19h56

A Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em uma iniciativa coordenada pelo professor Fernando Lefevre, e que envolve uma grande equipe, está empreendendo um programa que deve colaborar nas políticas que lidam com a problemática da gravidez na adolescência. Trata-se de uma ampla pesquisa, iniciada em 2008, para verificar o que pensam adolescentes e os profissionais de saúde encarregados de orientá-los sobre a chamada pílula do dia seguinte. “Um dos nossos objetivos é entender os padrões de uso da pílula, e representações associadas a estes padrões entre os adolescentes, bem como conhecimentos, dúvidas e resistências entre os profissionais que atuam junto a eles”, explica a professora Ana Maria Cavalcanti Lefevre, também responsável pelo projeto.

Os resultados de Gravidez Adolescente e Pílula do Dia Seguinte: Desvelando seus sentidos entre os adolescentes, que tem financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de apresentados e discutidos em seminários temáticos como o que teve lugar nesta quarta-feira (29) na FSP, vão gerar mais do que relatórios a serem utilizados pelos órgãos de saúde pública. Servirão para guiar a segunda etapa do programa: a produção de um material multimídia, o "Di@ Seguinte", incluindo vídeos e histórias em quadrinhos que permitirão aos adolescentes interagirem com os questionamentos e respostas obtidas na pesquisa, recebendo orientação adequada em torno das verdades e mentiras sobre a pílula. “Quero que a pesquisa impacte na realidade. Estamos aqui na universidade para isso, para servir à população”, afirma o professor Lefevre, destacando ainda o plano de publicação em 2010, ao final do projeto, de um livro sem o formato acadêmico sobre a pesquisa.

Primeiras conclusões

A parte de entrevistas com adolescentes e profissionais já foi concluída. Foram questionados 232 meninas, 70 meninos e 60 profissionais de saúde da região sul de São Paulo, escolhida por ser o local do mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e com maior ocorrência de gravidez precoce na cidade. A desproporção entre meninas e meninos se deve à frequência muito menor dos garotos nos centros de saúde, onde eram abordados.

O método aplicado foi o discurso do sujeito coletivo, criado há cerca de 10 anos pelos professores que coordenam o estudo, e que permite, segundo o professor “a produção de um depoimento coletivo com uma representação bastante fiel, tanto quantitativa quanto qualitativamente, do pensamento do grupo entrevistado.”

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Foram contados seis casos ficcionais aos participantes, que deveriam expressar sua opinião sobre a atitude tomada pelos personagens adolescentes envolvidos em relação ao uso ou não da pílula do dia seguinte diante de situações como estupro, descuido no uso da camisinha ou do anticoncepcional, e religiosidade de quem utilizaria a pílula.

Os resultados foram surpreendentes. “Os adolescentes estão mais ‘por dentro’ do que imaginávamos, mesmo considerando a maior dificuldade de acesso à informação nas comunidades onde vivem”, conta Fernando. Por exemplo: apenas cerca de 10% deles acha, equivocadamente, que a pílula do dia seguinte é um método abortivo. E a maioria não tem uma visão conservadora sobre seu uso, separando-o da esfera da religiosidade.

Ainda assim, existem desinformação e preconceitos que precisam ser contornados. Como conta o professor, “foi chocante saber que os meninos, ao contrário da maioria das meninas, acham natural a manutenção de uma gravidez na adolescência originada por violência sexual, e que o uso da pílula do dia seguinte pode ser descartado.”

Em relação aos profissionais de saúde, a situação é preocupante. Cerca de 20% são contra o uso da pílula. Grande parte acha que ela é uma forma de aborto, e seu uso algo “pecaminoso”. A maioria estaria disposta a administrá-la para as adolescentes, mas como demonstrou a pesquisa, existe muita confusão acerca de como isso deve ser feito. “Muitos pensam que só o médico pode fazê-lo, não sabem que enfermeiros também podem fornecer o medicamento. Trata-se de uma situação emergencial, onde não se pode aguardar uma consulta médica; após 72 horas da relação sexual, o uso da pílula praticamente não produz efeito”, relata o professor.

Além disso, estes profissionais demonstraram medo de prescrever a pílula do dia seguinte e serem questionados pela família da adolescente. Com isso, o que tem acontecido é que as jovens estão comprando o medicamento na farmácia e o tomando por conta própria. Assim, além de terem o acesso dificultado, submetem-se ao risco de fazer uso incorreto da pílula.

“A administração da pílula do dia seguinte deve ser uma política pública nos casos emergenciais, e a pesquisa pode ajudar a efetivá-la. Ainda é difícil, pois a população resiste, os profissionais se fecham e falta imaginação nas campanhas”, comenta Fernando Lefevre, ressaltando que é preciso primeiro escutar o que os alvos das ações educativas pensam e sentem para que elas funcionem.

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