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USP promove cursos e palestras sobre pílula do dia seguinte

A Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em uma iniciativa coordenada pelo professor Fernando Lefevre, e que envolve uma grande equipe, está empreendendo um programa que deve colaborar nas políticas que lidam com a problemática da gravidez na adolescência. Trata-se de uma ampla pesquisa, iniciada em 2008, para verificar o que pensam adolescentes e os profissionais de saúde encarregados de orientá-los sobre a chamada pílula do dia seguinte. “Um dos nossos objetivos é entender os padrões de uso da pílula, e representações associadas a estes padrões entre os adolescentes, bem como conhecimentos, dúvidas e resistências entre os profissionais que atuam junto a eles”, explica a professora Ana Maria Cavalcanti Lefevre, também responsável pelo projeto.

Os resultados de Gravidez Adolescente e Pílula do Dia Seguinte: Desvelando seus sentidos entre os adolescentes, que tem financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de apresentados e discutidos em seminários temáticos como o que teve lugar nesta quarta-feira (29) na FSP, vão gerar mais do que relatórios a serem utilizados pelos órgãos de saúde pública. Servirão para guiar a segunda etapa do programa: a produção de um material multimídia, o "Di@ Seguinte", incluindo vídeos e histórias em quadrinhos que permitirão aos adolescentes interagirem com os questionamentos e respostas obtidas na pesquisa, recebendo orientação adequada em torno das verdades e mentiras sobre a pílula. “Quero que a pesquisa impacte na realidade. Estamos aqui na universidade para isso, para servir à população”, afirma o professor Lefevre, destacando ainda o plano de publicação em 2010, ao final do projeto, de um livro sem o formato acadêmico sobre a pesquisa.

Primeiras conclusões

A parte de entrevistas com adolescentes e profissionais já foi concluída. Foram questionados 232 meninas, 70 meninos e 60 profissionais de saúde da região sul de São Paulo, escolhida por ser o local do mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e com maior ocorrência de gravidez precoce na cidade. A desproporção entre meninas e meninos se deve à frequência muito menor dos garotos nos centros de saúde, onde eram abordados.

O método aplicado foi o discurso do sujeito coletivo, criado há cerca de 10 anos pelos professores que coordenam o estudo, e que permite, segundo o professor “a produção de um depoimento coletivo com uma representação bastante fiel, tanto quantitativa quanto qualitativamente, do pensamento do grupo entrevistado.”

Foram contados seis casos ficcionais aos participantes, que deveriam expressar sua opinião sobre a atitude tomada pelos personagens adolescentes envolvidos em relação ao uso ou não da pílula do dia seguinte diante de situações como estupro, descuido no uso da camisinha ou do anticoncepcional, e religiosidade de quem utilizaria a pílula.

Os resultados foram surpreendentes. “Os adolescentes estão mais ‘por dentro’ do que imaginávamos, mesmo considerando a maior dificuldade de acesso à informação nas comunidades onde vivem”, conta Fernando. Por exemplo: apenas cerca de 10% deles acha, equivocadamente, que a pílula do dia seguinte é um método abortivo. E a maioria não tem uma visão conservadora sobre seu uso, separando-o da esfera da religiosidade.

Ainda assim, existem desinformação e preconceitos que precisam ser contornados. Como conta o professor, “foi chocante saber que os meninos, ao contrário da maioria das meninas, acham natural a manutenção de uma gravidez na adolescência originada por violência sexual, e que o uso da pílula do dia seguinte pode ser descartado.”

Em relação aos profissionais de saúde, a situação é preocupante. Cerca de 20% são contra o uso da pílula. Grande parte acha que ela é uma forma de aborto, e seu uso algo “pecaminoso”. A maioria estaria disposta a administrá-la para as adolescentes, mas como demonstrou a pesquisa, existe muita confusão acerca de como isso deve ser feito. “Muitos pensam que só o médico pode fazê-lo, não sabem que enfermeiros também podem fornecer o medicamento. Trata-se de uma situação emergencial, onde não se pode aguardar uma consulta médica; após 72 horas da relação sexual, o uso da pílula praticamente não produz efeito”, relata o professor.

Além disso, estes profissionais demonstraram medo de prescrever a pílula do dia seguinte e serem questionados pela família da adolescente. Com isso, o que tem acontecido é que as jovens estão comprando o medicamento na farmácia e o tomando por conta própria. Assim, além de terem o acesso dificultado, submetem-se ao risco de fazer uso incorreto da pílula.

“A administração da pílula do dia seguinte deve ser uma política pública nos casos emergenciais, e a pesquisa pode ajudar a efetivá-la. Ainda é difícil, pois a população resiste, os profissionais se fecham e falta imaginação nas campanhas”, comenta Fernando Lefevre, ressaltando que é preciso primeiro escutar o que os alvos das ações educativas pensam e sentem para que elas funcionem.