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Como fazer Astronomia sem saber física e matemática?

Veja a resposta de um estudante da área

 (urbancow/iStock)

Tenho 15 anos, sou estudante de escola pública de Recife e amo Astronomia desde a quinta série. Mas, infelizmente, sou péssima em física e química. Mesmo assim, não desisti de meus sonhos e tenho um conhecimento básico para intermediário do assunto. Meu sonho, além de ser uma astrônoma, é conhecer o maior telescópio do mundo. Minha pergunta é: tenho como fazer Astronomia sem saber exatas?

Gisele

Olá Gisele! É sempre bom perceber que as pessoas continuam se encantando com a Astronomia. Continuam olhando para o céu e se perguntando sobre os fenômenos que lá ocorrem. A Astronomia, provavelmente, é a mais antiga das Ciências, já que desde o alvorecer do raciocínio humano, a percepção da passagem dos dias e das noites e do movimento dos corpos celestes no céu ficou bastante evidente.

Hoje, a Astronomia estuda diversos fenômenos do Universo, indo da determinação de órbitas de satélites ao redor da Terra à busca por uma explicação de como o Universo surgiu e como se dará sua evolução. Por ter tamanha amplitude, divide-se a Astronomia em algumas áreas, de acordo com o objeto de estudo de cada uma:

Mecânica Celeste – Área da Astronomia que estuda, com o auxílio da Mecânica Analítica, a interação dinâmica dos Corpos Celestes. É grandemente beneficiada com a utilização dos computadores, por exemplo para a determinação das órbitas dos Corpos Celestes, levando a conclusões relativas tanto aos seus formatos, quanto à sua estabilidade.

Astrofísica – Ramo da Astronomia que estuda, entre outras coisas, a natureza física e a evolução das estrelas e de outros corpos celestes, através da aplicação da Física na interpretação de observações dos corpos estudados. Na Astrofísica, as observações dos corpos celestes não se resumem àquelas feitas no comprimento de onda da luz visível, obtendo-se dados em outras faixas do espectro eletromagnético, buscando por “assinaturas” dos processos que se deseja estudar.

Astroquímica – Área da Astronomia que estuda a composição química dos corpos celestes. Grande parte deste estudo é feito através de espectroscopia, já que o contato com amostras de “pedaços” dos corpos celestes são extremamente difíceis de serem obtidos e mesmo assim só para os corpos que estão mais próximos da Terra.

Astrobiologia – O principal foco de estudo da Astrobiologia é tentar entender quais devem ser os parâmetros obedecidos por determinado ambiente extraterreno para que possa abrigar vida. É um dos ramos da Astronomia que se encontra em franca expansão, assim como a Mecânica Celeste, graças ao desenvolvimento de telescópios espaciais e também aos baseados no solo, que têm permitido a descoberta acelerada de exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar);

Cosmologia – A cosmologia se preocupa com o estudo do espaço em si, seu formato, suas dimensões, origem e evolução do universo, buracos negros, big bang, dentre outros conteúdos;

O profissional (cientista) responsável pela condução de tais estudos é o astrônomo. O primeiro passo para se tornar um astrônomo profissional é fazer um curso superior na área. No Brasil existem cursos de bacharelado em Astronomia nas seguintes instituições:

*Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG – USP), com forma de ingresso pelo vestibular da Fuvest (90% das Vagas), pelo Sisu (10% das vagas) ou por transferência. O curso tem duração média de 4 anos, onde o aluno terá contato com as disciplinas diretamente ligadas à Astronomia, tais como “Planetas e Sistemas Planetários”, “Astrofísica Estelar” e “Análise de Dados em Astronomia” além das disciplinas tradicionais aos cursos de Ciências Exatas, tais como os Cálculos Integral e Diferencial e as disciplinas da área da Física.

*Observatório do Valongo, desde 2001, faz parte do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN) da UFRJ, com ingresso pelo Sisu ou por transferência. São oferecidas 30 vagas anualmente. A grade curricular do curso de Astronomia é composta por disciplinas de Astronomia, Física, Matemática e de outras áreas afins e é formada por um núcleo básico, um núcleo avançado e um requisito curricular suplementar

*Universidade Federal de Sergipe, com forma de ingresso pelo Sisu. Neste caso o curso é de bacharelado em Física com habilitação em Astronomia. O curso tem duração média de 4 anos. Como nos demais, é necessário ao aluno cursar as disciplinas tanto da Física quanto da Matemática, além das próprias da Astronomia.

É interessante dar ênfase no fato de que os discentes, em qualquer das instituições aqui citadas, estarão a todo instante sendo incentivados a realizar pesquisa, já que o astrônomo é, acima de tudo, um cientista. Isto posto, torna-se interessante ao aluno não “parar” na graduação prosseguindo seus estudos na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Ótimas oportunidades aparecem quando o estudante consegue bolsas para passar temporadas em instituições de ensino e/ou pesquisa no exterior, daí a necessidade de se buscar estudar uma língua estrangeira desde os primeiros semestres de curso.

A internet facilitou enormemente a utilização de telescópios situados nos mais diversos lugares do mundo, por pesquisadores e alunos localizados que não necessariamente estão nas “proximidades” de tais instrumentos científicos. Com alguns cliques, os cientistas podem agora ter acesso a dados de maneira quase instantânea.

Atualmente, grande parte dos astrônomos, está empregada em institutos de pesquisa, universidades, museus e observatórios,  desenvolvendo atividades técnicas e\ou de ensino, pesquisa e extensão. As instituições oferecem salários na faixa de R$ 10.000 para aqueles profissionais com o título de doutor.

Como pudemos ver, o aluno de um curso de bacharelado em Astronomia, terá, durante sua graduação, uma formação bastante sólida nas disciplinas de Física, Matemática e Química. Você disse que tem dificuldade nestas disciplinas, mas isso não deve ser um impeditivo, já que você tem o principal para tornar-se uma grande astrônoma: paixão.  Esforce-se nestas disciplinas que, por agora, você não domina, e continue buscando este aprendizado, porque a recompensa virá uma ou outra hora. Não entenda esse trio como entraves, mas como ferramentas excepcionais para suas futuras pesquisas na Astronomia!

Respondido por Irapuan, mestrando em Astronomia

*O Projeto Salvaguarda, fundado por um aluno de Economia da USP, tem o objetivo de mostrar aos estudantes da rede pública que os bancos das universidades também devem ser ocupados por eles. Os mais de 200 voluntários, geralmente alunos ou professores da universidade, realizam um trabalho com os estudantes para falar sobre carreiras e a seleção para o ensino superior e aproximá-los do cotidiano do ensino superior.