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Tema de redação: como funciona a cultura do cancelamento

Já discutiu uma centena de vezes a cultura do cancelamento no Twitter mas não saberia como abordá-la em uma redação? Esse texto é para você!

Por Taís Ilhéu Atualizado em 6 ago 2020, 19h43 - Publicado em 5 ago 2020, 14h55

Resumo:

  • Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo: o boicote a personalidades (famosas ou não) que cometeram alguma violência dentro e fora do espaço virtual.
  • Popularizado e difundido a partir de movimentos de denúncia como o #MeToo, que expunha casos e nomes de agressores sexuais, o movimento começou com o decorrer do tempo a mudar de cara: não é mais necessário ter cometido um crime para ser cancelado. O uso de um termo equivocado, uma expressão que reproduz preconceitos ou até mesmo o silêncio sobre um outro caso de injustiça já virou motivo de cancelamento.
  • Há, é claro, quem defenda a cultura do cancelamento como meio de romper com a estrutura de poder que blinda pessoas privilegiadas na sociedade. Afinal, foi por meio dela que grupos minoritários conseguiram expor violações a direitos humanos e fazer sérias denúncias.
  • Mas será que, a longo prazo, “cancelar” resolve problemas estruturais de desigualdade? Ou apenas reproduz uma lógica punitivista ao linchar quem muitas vezes fez um comentário por ignorância? Conversamos com uma pesquisadora que estuda o papel das mídias sociais em discussões do tipo e explicamos como nasceu, como se modificou e como opera a cultura do cancelamento.

 

J. K. Rowling, Anitta, Taylor Swift, Steven Pinker e até o finado Raul Seixas. O que esses nomes, que vão de estrelas do pop até um renomado linguista professor de Harvard, têm em comum? Eles integram uma extensa lista de pessoas “canceladas” nas redes sociais nos últimos tempos. O cancelamento envolve, entre outras ações, o boicote a essas pessoas, incentivando o não-consumo de seus produtos e até pressionando para que marcas e instituições vinculadas a eles rompam contratos.

Os motivos que os fizeram ser “cancelados” são vastos: desde publicações e comportamentos considerados racistas, homofóbicos ou machistas até supostas conivência com governos extremistas e autoritários. Raul, por exemplo, foi cancelado depois que uma biografia publicada 30 anos após sua morte afirmou que ele teria entregado o amigo Paulo Coelho aos militares durante a Ditadura Militar. Quase um ano depois do cancelamento, a Folha de S. Paulo revelou documentos que apontam que, na verdade, tudo pode não ter passado de um mal-entendido. 

Embora os nomes de grandes personalidades ganhem mais repercussão, não é preciso ser famoso para entrar para o time dos cancelados: nas últimas semanas, o americano de 47 anos Emmanuel Cafferty, que sequer tinha uma conta no Twitter, se viu engolido pela onda do cancelamento quando um vídeo seu fazendo um sinal de OK com as mãos para fora da janela do carro foi parar na internet. 

Isso porque, nos Estados Unidos, o gesto passou a ser usado com uma conotação racista por alguns fóruns online de supremacistas brancos em 2017. Bastou para a Liga Anti-Difamação, organização que combate há décadas discursos de ódio, incluir o gesto na lista de símbolos de ódio. Mas, como a própria liga alerta, seu uso no sentido cotidiano indicando “ok” e aprovação ainda é o mais comum, e por isso é preciso estar atento antes de classificar qualquer um que o faça como racista. Aparentemente, esse não era o caso de Cafferty, mas ele não teve a chance de se explicar antes de ser cancelado dentro e fora do espaço virtual: o episódio o fez perder o emprego. 

Vale lembrar, no entanto, que nem só de erros de interpretação se fazem os cancelamentos. Na verdade, eles são momentos isolados que mostram que às vezes as coisas fogem do controle.

Foram as denúncias do Movimento #MeToo, hashtag utilizada nas redes sociais para expor relatos de assédio sexual, especialmente na indústria do entretenimento, que levaram à responsabilização e prisão de diversos abusadores antes blindados por suas posições sociais. Por isso, para tratar e se posicionar sobre um movimento tão complexo que ganhou até a alcunha de “cultura”, é necessário refletir sobre suas origens, mecanismo de funcionamento e a relação com outros acontecimentos da atualidade. Especialmente se ele for tema de uma redação, como aposta a professora Yasmine Diniz, produtora de conteúdo da plataforma Imaginie, parceira do GUIA DO ESTUDANTE. Ela acredita que o tema é um forte candidato à redação do Enem por fugir da obviedade de assuntos em pauta, como saúde e coronavírus, mas ainda estar no radar da mídia. “Foi o que aconteceu, por exemplo, com o tema relacionado à cultura e cinema no ano passado”, relembra. 

Se de fato você se deparar com esse tema ao abrir o caderno de questões do Enem 2020 (ou de qualquer outro vestibular), a dica de Yasmine é que sua tese não se baseie em achismos e generalizações. “Se o estudante é a favor ou contra a cultura do cancelamento procure por dados, exemplos e fatos (retirados de fontes confiáveis) que corroborem o que ele apresenta”, aconselha. E, mais do que tudo, em temas complexos como esse é preciso manter os ânimos sobre controle para não sair esbravejando com termos pejorativos o outro lado da moeda! “Apenas apresentar argumentos que embasem o seu ponto de vista já é suficiente”, explica. 

Se você está cansado de discutir o cancelamento no Twitter mas não sabe muito bem como reunir esses tais argumentos a seu favor, reunimos os pontos principais da cultura do cancelamento por quem estuda o movimento!

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Como nasceu a cultura do cancelamento 

Enquanto alguns afirmam com veemência que a cultura do cancelamento nasceu com o #MeToo, em 2017, a pesquisadora Anna Vitória Rocha, mestranda em Ciências da Comunicação na USP que usa o #MeToo e o #primeiroassedio para debater o papel das mídias sociais nas discussões de assédio sexual nas esferas públicas, pensa diferente. Para ela, o termo pode até ter se consolidado aí, mas o ideal seria considerar a junção de uma série de fatores anteriores e esses movimentos que permitiram criar uma atmosfera favorável aos cancelamentos virtuais. 

Um deles é o fortalecimentos das pautas sociais na mídia de uma maneira geral: por volta de 2013, os movimentos negros, feministas, LGBT+ começaram a ganhar mais e mais força nas redes sociais. Esses grupos passaram a encontrar, especialmente no Twitter, um espaço para colocar o ponto de vista e experiências deles em pauta. Por outro lado, aqueles que eram blindados pelas estruturas de poder se tornam mais expostos e vulneráveis. “O cancelamento surge, então, como um movimento de romper com uma estrutura de poder para fazer uma denúncia justa que de outra forma não seria ouvida”, explica Anna Vitória. Esse foi durante um tempo, segundo ela, o lado positivo do movimento. 

O que a cultura do cancelamento se tornou

O que acontece, segundo a pesquisadora, é que a cultura do cancelamento foi perdendo o senso de proporção. Se antes cancelavam-se figurões de Hollywood acusados de abuso sexual, hoje se cancela alguém que usa um termo deturpado para se referir a algum tema do universo LGBT+, por exemplo. “As pessoas confundem o que é você estar agindo por ignorância ou estar reproduzindo um preconceito por ser parte de um grupo privilegiado”, afirma Anna. 

Não que seja errado responsabilizar alguém por reproduzir falas machistas, racistas e por aí vai. A questão é que o cancelamento não deveria ser o objetivo final, mas sim a mudança nas estruturas que geram esse tipo de comportamento. Pelo menos foi o que defendeu a feminista negra Loretta Ross em um artigo de opinião para o New York Times. Ela, que faz uma defesa do antipunitivismo e milita a favor de medidas educativas, chegou a trabalhar com um grupo de presos por estupro na década de 1970 e os ajudou a criar o “Prisioneiros Contra o Estupro”, o primeiro programa contra agressão sexual dos Estados Unidos liderado por homens. 

Ross defende que as exposições públicas deveriam servir para atingir aqueles que deliberadamente agridem um grupo minoritário e para pessoas públicas que não poderiam ser atingidas de outras maneira, mas que a maioria dos linchamentos acabam sendo “horizontais” (ou seja, dirigida aos pares) e feitos por quem se acredita mais íntegro que o restante. Essas pessoas se tornam “guardiões autonomeados da pureza política”. E essa necessidade de “sinalização de virtude” tem tudo a ver com a internet. 

  • Como a cultura do cancelamento funciona 

    Quem usa o termo “sinalização de virtude” é a escritora e editora americana Jia Tolentino, que publicou o livro recentemente traduzido para o português Falso Espelho, em que explora as relações que estabelecemos com nós mesmos na era da internet. No artigo “O eu na internet” ela afirma que os mecanismos de recompensa online estão substituindo a busca por aprovação na vida real e que, por isso, fazer uma declaração política justa no Twitter para muitas pessoas tornou-se “um bem político em si mesmo”. Ela usa para exemplificar essas sinalizações de virtude o fato de muitas pessoas postarem números de telefone de centros de valorização da vida depois do suicídio de uma celebridade. 

    O problema é quando sentimos a necessidade de apontar as falhas alheias para nos mostrarmos moralmente superiores, como explica Anna Vitória. Uma vez que as pessoas passam a ser julgadas não mais pelo o que elas são, mas pelo que fizeram ou postaram, é preciso zelar pelo que você é por meio de posicionamentos. “Então para eu demonstrar que eu não sou uma pessoa ruim, machista, homofóbica, eu vou apontar o dedo para quem é”. 

    No artigo Por uma genealogia do ódio online: contágio, viralização e ressentimento, publicado na revista Matrizes, os pesquisadores Eric Saint Clair, da UFF, e Maria Cristina Franco Ferraz, da UFRJ, resgatam uma parábola de Nietzsche em que um cordeiro diz a outros “essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, ou antes, o seu oposto, cordeiro – este não deveria ser bom?”. Ou seja, para se firmar como bom, o cordeiro sente a necessidade antes de apontar o mau em outros diferentes dele. Pois é, mesmo fora da lógica virtual Nietzsche já apontava essa tendência que hoje observamos –  muitas vezes intensificada –  nas redes. E mais: muitas vezes manter-se neutro pode não ser uma boa saída também. Quem não cancela também corre o risco de ser cancelado. Não existe espaço para o ambíguo e nem para o contraditório. 

    Por fim, soma-se a isso o fato de que todos esses cancelamentos ocorrem de maneira extremamente rápida e viral. Assim, questões complexas, como racismo estrutural e violências de gênero ficam restritas ao cancelamento de um artista x ou y. Dias depois, com o surgimento de um novo cancelado, o anterior pode acabar até esquecido, como aconteceu com a cantora Ludmilla e até o médico Drauzio Varella. Afinal, é o tempo da internet. 

     

    Para aprender mais

    Ficou interessado no tema e gostaria de entender outros aspectos da cultura do cancelamento? A má notícia é que ainda não tem tanta pesquisa, estudos acadêmicos e dados específicos sobre o tema –  afinal ele é bastante recente. A boa é que você pode aprender muito no próprio meio que deu origem a ele: a internet. Reunimos alguns links de reportagens, artigos de opinião e vídeos para você se aprofundar no assunto!

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