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De estudante da periferia a pesquisador do Câncer em Harvard

Marcio Henrique contou ao GUIA sua história inspiradora e falou sobre valorização da pesquisa e da educação

Por Juliana Morales Atualizado em 25 jun 2021, 13h33 - Publicado em 21 jun 2021, 16h04

“A educação pode nos levar para patamares impensáveis”. É assim que o estudante de Medicina Marcio Henrique de Jesus Oliveira, 22, nascido e criado na periferia da zona leste de São Paulo, fala sobre o momento em que está vivendo. Desde março deste ano, ele está em Boston, nos Estados Unidos. Ele faz parte de um grupo de pesquisa em um laboratório de Neurologia e Imunologia em Harvard, uma das universidades mais prestigiadas do mundo. 

Ele relembra o salto enorme que sua vida deu em cinco anos, desde que entrou no cursinho comunitário MedEnsina para conseguir uma vaga na faculdade. Na época, precisava conciliar os estudos com dois empregos, como jovem aprendiz em um hospital durante a semana, e em uma pizzaria aos fins de semana.

Foi no curso preparatório, ministrado pelos estudantes da Faculdade de Medicina da USP, que conheceu Marcus Agrela, um dos professores que teve papel importante em sua vida acadêmica. Além de ensinar os conteúdos, Agrela passou a custear alimentação e transporte para que o jovem conseguisse se dedicar integralmente aos estudos. A ajuda continuou mesmo depois que Marcio passou no curso de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2019.

Agrela também foi um dos responsáveis para que história de Marcio (e o desejo de estudar fora) chegasse nos ouvidos de Paulo Saldiva, criador do MedEnsina e docente da FMUSP. Desde 2006, Saldiva comanda um projeto que leva alunos da USP para Harvard todos os anos. “Ele me ligou na sétima semana de aula, era começo de 2019. E disse: fiquei sabendo da sua história e eu vou tentar levar você”, relembra Marcio da ligação feita quando ele ainda estava nos primeiros meses de graduação. 

O professor adiantou que seria difícil conseguir um laboratório de imediato, mas que eles iriam atrás de oportunidades. “Ficamos até o final do ano quebrando cabeça para achar um laboratório. Fiz algumas entrevistas, mas uns quatro laboratórios não me aceitaram pelo fato de eu não ter inglês”, conta o estudante.

Imagem do Fábio ao lado dos professores do cursinho Fábio, Agrela e Saldiva
“Os três que mais me ajudaram na época do cursinho”. Da esquerda para a direita, Fábio – professor do MedEnsina também -, Marcio, Agrela e Saldiva. Arquivo Pessoal/Reprodução

Outra preocupação em relação à viagem era o custo. A Harvard proporciona a bolsa, mas os gastos de estadia, alimentação e transporte são responsabilidade dos estudantes. Como saída, Marcio criou uma vaquinha online para arrecadar o dinheiro para conseguir ficar um ano hospedado em Boston. Deu muito certo. Em um pouco mais de um mês, as doações vindas de todo o Brasil resultaram em 86 mil reais.

Em 2020, a história de Marcio chegou então em Ana Anderson, uma das chefes do departamento de Neurologia de Harvard. “No dia da entrevista com ela travei muito no inglês, estava com medo. O que me ajudou foi o Saldiva traduzindo a nossa conversa”. Mesmo com a questão do idioma, a pesquisadora também decidiu apostar no brasileiro. 

Marcio lembra da conversa com Ana. “Ela falou: em 2001, eu cheguei na Harvard sem inglês e um professor me aceitou. Ele disse que me aceitaria por uma condição, se eu abrisse essa porta para outra pessoa que viesse para a faculdade um tempo depois. E você é essa pessoa. Seja bem-vindo”. 

+ Saiba mais como é a experiência de estudar em Harvard

A vida em Harvard

Meses depois, Marcio se despediu da namorada, dos pais e dos irmãos. Arrumou as malas em Itaquera, zona leste de São Paulo e embarcou para mais um sonho. Ele chegou em Boston no dia 6 de março.

O Inglês já melhorou muito. “Não tenho mais medo de errar”, conta. Além da prática diária, Marcio começou a fazer aulas do idioma aos sábados, durante o dia todo. “Assim que cheguei nos EUA, a Michele, uma brasileira, dona de uma escola de inglês aqui, soube da minha história e me deu um curso de inglês. Ela também começou a custear uma casa para mim mais próxima do meu estágio”.

Mais do que o contato maior com um novo idioma, a experiência tem sido um mergulho cultural. Tanto no prédio que mora, como em Harvard, Marcio tem tido contato com pessoas das mais diversas nacionalidades: vietnamitas, chineses, franceses, holandeses, coreanos, gregos, italianos. “Boston é uma cidade muito cosmopolita. É muita gente diferente, e eles me respeitaram muito, isso me dá um pouco mais de paz”, diz o estudante.

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Ele tem registrado toda a experiência e nova rotina com fotos e vídeos. Em suas redes sociais, mostra como são as coisas nos Estados Unidos e também a importância de acreditar nos sonhos. “Até meus pais chegaram duvidar que seria possível. E, racionalmente, era muito difícil acontecer mesmo. Por isso, acho importante compartilhar para quem me ajudou ver onde cheguei e, principalmente, para motivar pessoas sonhadoras como eu”.

Durante a semana, antes de ir para o hospital, ele acorda cedinho para fazer natação. Chega em Harvard às 9h e fica até às 16h. Nesse período participa de experimentos e também tem a oportunidade de fazer parte de reuniões com outros pesquisadores. Até mesmo os intervalos no estágio são momentos de aprendizado e interação. “Você tem um oportunidade de conhecer gente muito boa aqui, de graça. Você está no almoço e esbarra com alguém que ganhou um prêmio Nobel. É muito louco”, conta.

No laboratório, chefiado por Ana Anderson, Marcio participa de pesquisas sobre imunoterapia, com alternativas para o tratamento do câncer, esclerose múltipla e doenças neurológicas com um todo. Com bom humor, ele conta que no começo passava mais tempo estudando sobre imunoterapia, algo que ainda não tinha estudado na faculdade no Brasil, do que propriamente no laboratório: “Eu ajudo aprendendo as coisas”, afirma.

Com o tempo, conseguiu mais funções. “Agora já rodo PCR, que é fazer biópsia nas células que estudamos. Também faço as lâminas para analisar os tumores que estamos acompanhando o crescimento”.

  • A vida de pesquisador

    Em meio ao  negacionismo da ciência durante a pandemia que o Brasil não consegue controlar, a valorização da pesquisa em território estrangeiro fica ainda mais evidente para Marcio. Ele compara fazer pesquisa nos EUA como “um monte de gente estudando para o vestibular, para tirar a melhor nota”, algo muito sério.

    Bem diferente do que acontece em seu país de origem. “Todos os brasileiros que estão aqui falam a mesma coisa: no nosso país tem gente excelente, comprometida, mas falta muito recurso e o tamanho da burocracia é sacerdócio”, analisa o estudante.

    Em 2021, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) terá o menor orçamento dos últimos anos. As despesas discricionárias da pasta, ou seja, os recursos que não são obrigatórios, incluindo verbas que vão para a área de pesquisa, chegam em um pouco mais de $ 2,7 bilhões.

    Comparando com 2015, por exemplo, as despesas discricionárias do MCTI chegaram a R$ 6,5 bilhões. O valor foi caindo nos anos seguintes até chegar nesse cenário preocupante, com valores essenciais para a Ciência contingenciados pelo governo federal, sem previsão de data para que sejam liberados. 

    Nesse cenário de desvalorização, talentos brasileiros vão ao exterior em busca de melhores oportunidades. Enquanto aqui, fica cada vez mais difícil ter investimentos suficientes para transformar a produção científica em produto tecnológico, refletindo na melhoria da condição de vida das pessoas.

    + Mais trabalho, pouco recurso: desafios da ciência brasileira na pandemia

    Em novembro, o jovem de 22 anos deve estar de volta ao Brasil. Vai retomar a faculdade de Medicina na UFU e já garante que tem muita coisa a ser feita. “Estar aqui, onde não faltam recursos e a ciência é valorizada, abre a minha mente para muita coisa que pode ser desenvolvida no Brasil para melhorar a saúde e a vida dos brasileiros”, afirma. 

    Vai voltar com a certeza reforçada que a educação é revolucionária, mas sem recursos não dá para ir tão longe. “A maior lição que eu levo até aqui da minha trajetória é que não dá para fazer nada sozinho. Por isso, invistam em histórias alheias para que elas floresçam”.

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