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“Sou contra a visão maniqueísta de história dividida em vilões e heróis”, diz Leandro Narloch

Autor do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" fala sobre história e os motivos que o levaram a escrever o livro

Por por GUILHERME DEARO Atualizado em 16 Maio 2017, 13h50 - Publicado em 10 mar 2011, 19h20

Leandro Narloch, quando pensa nas aulas de história que teve no colégio, se lembra de professores com muitas ideologias e que faziam questão de transferir isso para o conteúdo ensinado. Ao entrar em contato com estudos que traziam novas visões sobre temas considerados polêmicos na historiografia brasileira, ele decidiu escrever o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, que chega agora em sua segunda edição com conteúdo revisado e novos capítulos.

Santos Dumont inventou o avião? Zumbi dos Palmares lutava pela liberdade dos negros? Feijoada e samba são coisas tipicamente brasileiras? Todos esses pontos são postos em debate, mesmo que possam irritar algumas pessoas. Aliás, esse é um dos propósitos do livro. “Quis, digamos, irritar a ‘turma do bem’, acomodada nesses ícones politicamente corretos”, diz Narloch.

– “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” ganha versão ampliada

GUIA – Como surgiu a ideia de fazer o livro?
Trabalhando em algumas redações de revistas há cerca de seis anos, entrei em contato com muitos estudos novos e comecei a perceber que muito do conteúdo de história da faculdade era mais manifesto político do que história. Havia muitos estudos saindo das universidades em todo o Brasil que traziam novas visões desses assuntos consagrados, mas que demoravam a chegar ao grande público.

Como reuniu os temas que seriam revisitados?
Essa história dos anos 60 e 70 é uma história que fala toda hora em “grandes potências”, uma luta sempre entre mocinhos e bandidos. Resolvi reunir o que era de mais desagradável de se debater, temas considerados polêmicos: negros, índios, ditadura…

E como entender o “politicamente correto” do livro?
Politicamente correto é a defesa cega desses temas considerados tabus, que não se pode debater ou questionar sem que olhem com cara feia, como se você fosse antipatriota, antiético: Zumbi, Santos Dumont, índios, escravos, ditadura.

No livro você fala que ele é para provocar algumas pessoas. Quem?
Essas provocações são àquelas pessoas que querem usar a história como ferramenta política, que tentam colocar luta de classes em tudo. O livro vai contra a visão maniqueísta de história dividida em vilões e heróis.

Quis, digamos, irritar a “turma do bem”, acomodada nesses ícones politicamente corretos. O que se é ensinado nas escolas é muito simplista. Antes, por exemplo, a historiografia limitava o negro e o índio a apenas dois caracteres: ou era alguém revoltoso que lutava até o fim contra a dominação, ou era extremamente submisso, aceitava tudo de cabeça baixa.

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Como a história trata isso agora?
Ora, os novos estudos mostram que a questão era muito mais complexa, não eram simples personagens. Havia negros que voltavam para a África e viravam vendedor de escravos, se aproveitavam dos contatos que tinham no Brasil; havia índios que se aliavam aos europeus e matavam outros índios.

Quais foram os pontos mais fáceis e os mais difíceis de se abordar?
Alguns assuntos foram mais difíceis de abordar, analisar as novas visões, como os que envolvem a monarquia. Outros foram mais fáceis, já tinha uma vasta biografia sobre, como Santos Dumont e Aleijadinho.

Esses novos estudos são “novas versões” ou “novas versões mais corretas”?
Claro que esses estudos também não podem ser tomados como verdades absolutas, assim como os que os antecederam. Sempre na ciência há uma tentativa de consenso. A geração anterior foi uma geração de historiografia extremamente crítica e que analisava tudo com pontos de vista sociológicos, eles viveram a Guerra Fria e o comunismo. Anterior a eles, há uma história de coisas ilustres, de homenagens, cheias de pompa, acríticas.

Essa nova geração que apresento no livro busca um equilíbrio e sobriedade nas análises. Os bandeirantes não são nem heróis paulistas e grandes conquistadores, como via a primeira geração, nem monstros sanguinários como via a segunda geração. São, sim, seres complexos que viviam aquela realidade na qual estavam inseridos.

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Como foi o seu aprendizado de história no colégio?
A história que aprendi na escola era meio ranzinza e muito ideologizada. Quis fugir disso. Os professores têm que ficar atentos aos limites da posição ideológica em sala de aula, não se pode levar visões de partido para lá. Há inclusive movimentos interessantes sobre isso, como o Escola Sem Partido.

Recebeu muitas críticas daqueles que você “provocou”? E elogios?
Recebi muitas críticas, mas menos do que esperava (risos). Estava preparado para mais. E houve elogios. Pessoas afrodescendentes me escreveram agradecendo o livro porque não aguentavam mais “tanta vitimização”, finalmente a história mostrava que seus antepassados eram pessoas como quaisquer outras que decidiam, escolhiam, agiam, para o bem e para o mal.

E qual foi o ponto mais polêmico?
O ponto mais polêmico foi sobre Santos Dumont. Muitas pessoas não conseguem aceitar de jeito nenhum a ideia de que não foi um brasileiro a inventar o avião. Posso estar errado em alguns pontos, mas o que quero é justamente isso: promover um debate, mostrar para os alunos que essas coisas não são absolutas e podem ser contestadas. É com conversa que se faz um país melhor.

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