Guia do Estudante

“Cala a boca, você fuma!” – Conheça a falácia ad hominem

Ana Prado | 19/05/2016

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Um retrato do Brasil hoje. Vale avisar: os prints deste post têm caráter meramente ilustrativo

Uma prática muito comum em discussões (especialmente aquelas que despertam grandes paixões) é a de fugir do assunto em questão e atacar a pessoa que está falando. Essa é a chamada falácia ad hominem (do latim, “contra a pessoa”).

>> Leia também: Conheça – e evite – a falácia do falso dilema

O vídeo abaixo é exagerado de propósito, mas ilustra muito bem uma das formas como isso pode acontecer:

A falácia do argumento ad hominem pode assumir a forma de um ataque direto a características pessoais do seu oponente, sejam elas reais ou imaginadas (gênero, nacionalidade, partido político, orientação sexual, aparência, religião, hábitos, temperamento etc.).

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Mas esse ataque também pode ser mais sutil para colocar em dúvida o caráter do enunciador, sua motivação ou até mesmo a sua capacidade intelectual de propor uma ideia ou argumento válido.

O objetivo é sempre o mesmo: desviar a atenção para o enunciador a fim de que não seja preciso rebater seu argumento ou ideia.

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Além de conter um ataque direto, o comentário acima chama a atenção para supostos erros de pontuação no que seu oponente escreveu, o que talvez vise deslegitimar o que a pessoa teria dito. Não há qualquer menção à ideia que está sendo discutida.

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Em um comentário muito comum em portais, a pessoa, em vez de apontar aquilo que julga incorreto em uma matéria, ataca o veículo que a publicou: foge do tema que está sendo discutido (neste caso, a publicação era sobre a ditadura militar no Brasil, mas o comentário fala sobre outra coisa), ofende o autor da matéria e sugere a existência de interesses escondidos, visando comprometer a integridade do veículo.

Como evitar?

É muito fácil cair nessa falácia, mas procure sempre isolar o argumento em uma discussão e tratar exclusivamente dele. Lembre-se de que, embora possam influenciar suas posições, o caráter ou circunstâncias da pessoa geralmente nada têm a ver com a verdade ou falsidade dos argumentos em si.

 

 

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Conheça – e evite – a falácia do falso dilema

Ana Prado | 13/05/2016

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A imagem ilustra o que significa um falso dilema: é como se você só tivesse dois caminhos possíveis, geralmente um certo e outro errado, quando na verdade tem outras opções (Foto: iStock)

Saber argumentar é necessário para mandar bem nas provas de redação que pedem dissertações, como a do Enem e a da Fuvest. Mas não só: essa habilidade é também fundamental para que você possa construir e defender suas opiniões em qualquer outro contexto.

Uma argumentação, quando utiliza o raciocínio, pode ser bem construída ou falaciosa. Quando bem construída, sua tese é apoiada por evidências organizadas de forma lógica. Quando falaciosa, contém uma falácia, ou seja, um erro de raciocínio que leva a uma conclusão incorreta (embora possa ser, muitas vezes, bem convincente).

Falácias podem ser usadas de propósito, visando manipular opiniões, mas é muito mais comum que ocorram por acidente, sem que se tenha essa má-fé: nenhum de nós está livre de cometer esse tipo de erro, seja por falta de atenção, por falta de conhecimento ou por não termos tido tempo de pensar melhor no que estamos dizendo.

É preciso ficar atento ao fato de que encontrar um argumento falacioso não quer dizer que a tese defendida está necessariamente incorreta – significa apenas que aquele determinado argumento não é válido. (Se todos os argumentos que apoiam a tese são falaciosos, no entanto, é necessário repensá-la!).

Em uma série de posts que começa agora, vamos apresentar algumas das falácias mais comuns e apresentar exemplos de cada uma. Saber reconhecê-las é útil não apenas para defender suas opiniões, mas também para refutar argumentos que parecem confiáveis, mas são falsos. Nossa primeira falácia é a do falso dilema.

Falso dilema

Envolve apresentar um número limitado de alternativas – na maioria das vezes, fala-se como se houvesse apenas duas – quando, na verdade, há mais. Essa falácia está ligada a uma visão limitada e simplista, que não leva em conta as múltiplas variáveis e contextos envolvidos em uma situação.

Exemplo:

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No comentário acima, o autor admite apenas duas alternativas: um governo comandado por militares ou um governo semelhante ao de Fidel Castro, que levaria tanto o Brasil quanto o Chile a uma história igual à de Cuba (que ele diz ter ficado “presa ao passado” devido a esse governo).

Esse argumento ignora outras possibilidades de formas de governo (que não fossem nem a de uma ditadura militar nem a de uma ditadura comunista) e de desdobramentos da forma de governo escolhida (sem os militares, os países necessariamente teriam o mesmo destino que Cuba, mesmo com características históricas, sociais, naturais e econômicas distintas).

Veja outros exemplos:

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Aqui, são aceitas apenas duas situações possíveis: ter votado na Dilma e não poder reclamar posteriormente de preços altos, ou não ter votado e aí, sim, ter o direito de reclamar. Acontece que uma pessoa tem o direito de reclamar sobre o que bem entender e esse direito não está vinculado ao seu voto em um ou outro candidato. Logo, uma pessoa pode ter votado na Dilma e reclamar, bem como não ter votado e não querer reclamar.

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O tuíte acima comete um erro comum em discussões sobre temas polêmicos: reduzir uma situação complexa a apenas dois lados possíveis. Ignora-se que é possível não concordar com nenhuma das duas partes apresentadas, ou concordar apenas parcialmente com uma delas ou até mesmo com as duas.

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Embora condene a generalização, o post acima começa com uma – o que também é uma falácia, mas trataremos dela em outro post. O que nos interessa aqui é novamente aquele papo de preto-ou-branco: se você tem medo da polícia, tem que ser “vagabundo, bandido, desordeiro”, pois gente de bem não tem por que temê-la. Acontece que há muitos “vagabundos e bandidos” que não têm medo algum da polícia, bem como inúmeras pessoas “de bem” que a temem: há motivos variados para a presença ou a falta desse medo, que não se resumem ao fato de a pessoa ter cometido ou não um crime.

Fica a sugestão para um exercício: dê uma olhada nos posts que aparecem no seu feed do Facebook e veja quantos falsos dilemas você consegue encontrar. Nestes tempos de crise política, o número provavelmente será bem elevado.

 

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Não é só pelo Enem: 40 universidades públicas ainda têm vestibular com redação

Paulo Montoia | 04/05/2016

Cropped shot of a handsome young student working diligently in his classroom

iStock

 

Onze universidades federais e 29 universidades estaduais ainda mantêm vestibulares próprios, com prova de redação. Ou seja, você pode não depender só da redação da prova do Enem para garantir uma vaga em uma universidade pública. Surpreso?

Explicamos. Muitas universidades optaram por manter vestibular próprio (ou parte dele) por terem, de qualquer forma, que realizar as provas de habilidades específicas, como aquelas para os cursos de música e arquitetura.

Algumas, como a Universidade de Brasília (UnB), só aderiram à prova do Enem e ao Sistema de Seleção Unificado (Sisu) para o ingresso no início do ano, e mantém vestibular próprio no meio do ano. Outras, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, utilizam a nota do Enem apenas parcialmente para o ingresso. A grande maioria é formada pelas estaduais. Vale a pena ficar ligado. Veja quais são elas em 2016:

Veja um passo a passo para a redação nota 10

Federais

UFGD-MS Universidade Federal da Grande Dourados
UFPE Universidade Federal de Pernambuco
UFPR Universidade Federal do Paraná
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFRR Universidade Federal de Roraima
UFS Universidade Federal de Sergipe
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina
UFTM-MG Universidade Federal do Triângulo Mineiro
UFU-MG Universidade Federal de Uberlândia
UnB-DF Universidade de Brasília
Unifesp Universidade Federal de São Paulo

Estaduais

Udesc Universidade do Estado de Santa Catarina
UEA Universidade do Estado do Amazonas
Uece Universidade Estadual do Ceará
Uefs Universidade Estadual de Feira de Santana
UEG Universidade Estadual de Goiás
UEL Universidade Estadual de Londrina
UEM Universidade Estadual de Maringá
Uema Universidade Estadual do Maranhão
Uemg Universidade do Estado de Minas Gerais
Uenp Universidade Estadual do Norte do Paraná
UEPG Universidade Estadual de Ponta Grossa
Uerj Universidade do Estado do Rio de Janeiro
UERR Universidade Estadual de Roraima
Uesb Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
Uncisal Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas
Uneb-BA Universidade do Estado da Bahia
Unemat Universidade do Estado de Mato Grosso
Unesp Universidade Estadual Paulista
Unespar Universidade Estadual do Paraná
Unicamp Universidade Estadual de Campinas
Unicentro-PR Universidade Estadual do Centro-Oeste
Unimontes MG Universidade Estadual de Montes Claros
Unioeste Universidade Estadual do Oeste do Paraná
Unitins Fundação Universidade do Tocantins
Univesp Universidade Virtual do Estado de São Paulo
UPE Universidade de Pernambuco
Urca-CE Universidade Regional do Cariri
USP Universidade de São Paulo
UVA-CE Universidade Estadual Vale do Acaraú

Veja todos os temas de redação que já caíram no Enem 

Vídeodica: como escrever uma boa dissertação

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Especial Dia do Amigo: veja como três vestibulares abordaram a amizade em sua prova de redação

Paulo Montoia | 18/04/2016

Fonte: GWBTACO.TUMBLR.COM

Fonte: GWBTACO.TUMBLR.COM

A amizade geralmente é vista como um tema leve e divertido, mas não se engane: as provas de redação de alguns vestibulares estão aí para provar que são possíveis abordagens profundas e até bem complicadas.

Em 2007, os vestibulandos da Fuvest tiveram de dissertar sobre o tema. Textos de Cícero (Antiguidade Clássica) e Montaigne (Século 16) somaram-se a músicas de Milton Nascimento e Caetano Veloso, celebrando a amizade como um valor superior. “Você considera adequadas as ideias neles expressas?”, provocava a banca. Arremessado aos leões, o vestibulando deveria se atrever a discordar de filósofos clássicos?

Em 2015, foi a vez dos candidatos que prestavam o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) encararem a singela pergunta: “Na sua opinião, o que é a amizade nos dias de hoje?”. A coletânea de textos lembravam a intensidade das relações nas redes sociais, atualmente dividida na guerra entre “coxinhas e mortadelas”.

E não é que no mesmo ano o tema também caiu na prova de redação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)? A banca ajudou o candidato com uma coletânea de autores tratando do tema, de Guimarães Rosa e Casemiro de Abreu a Eduardo Galeano e psicólogos. Daí a prova pedia para “discorrer sobre a amizade”, fazendo citações para corroborar uma ideia. Como diz a canção de Milton Nascimento também citada aqui, “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”. Junto com a caneta, acrescentamos.

Baixe as provas nos links abaixo e já comece a treinar:

Fuvest 2007

UFRGS 2015

PUC-Rio 2015

 

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Categoria: Fuvest, PUC

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A gente aprende lendo: mais exemplos de elemento fora de lugar

Paulo Montoia | 04/04/2016

 

girl is reading book on the grass

iStock

Um componente da oração fora de lugar no início da frase precisa ser sinalizado ao leitor. Se forem duas ou mais palavras, coloque vírgula; se for apenas uma palavra a vírgula não é obrigatória. Por exemplo em “Hoje eu vou ao cinema” ou “Atualmente usa-se muito o telefone celular”, “hoje” e “atualmente” não exigem vírgula. É comum usar no início dos períodos citações de tempo (ano, mês, dia, hora, estação), de lugar, de situação. Em todos os casos, o texto ganha ritmo, e o leitor agradece, principalmente os professores que lêem sua redação e respostas das questões discursivas das provas. Acompanhe cinco bons exemplos da literatura.

Veja exemplos de Machado de Assis (1839-1908), trechos de O Alienista (1881-1882).

1 – A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

A ordem direta seria Ele disse a sua majestade: a ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

 2 – Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.

A citação de tempo está deslocada, e poderia estar também apostada no meio da frase. Uma ordem direta seria: O alienista desvendou o mistério do seu coração numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, três dias depois.

Veja como os verbos podem enriquecer o seu texto

Exemplos de José Lins do Rêgo (1901-1957), em Menino de Engenho (1932).

3 – Três dias depois da tragédia, levaram-me para o engenho do meu avô materno.

Citação temporal, que o autor colocou na abertura. Pela ordem direta, deveria estar ao final da sentença. Com isso, Lins do Rêgo evitou (e você evitaria também), começar a frase utilizando o verbo com o  pronome “me”. A norma culta proíbe iniciar a frase em próclise, ou seja, com o pronome: Me dá isso, Me faz um favor, e similares, são da linguagem oral apenas. Iniciar com ênclise (Levaram-me)  não é proibitivo, mas melhor seria “Fui levado para o engenho de meu avô materno, três dias depois”.

Exemplos de Gabriel García Márquez (1927-2014), em Notícia de um sequestro (1996).

4 – No dia 19 de setembro, quando ficou sabendo dos sequestros de Marina Montoya e Francisco Santos, Diana compreendeu – sem os elementos de informação existentes lá fora – que seu caso não era um ato isolado (…).

5 – No final de outubro, Diana Turbay observou que Azucena estava preocupada e triste.

Note que as duas citações temporais abrem os períodos em razão da sucessão dos fatos e o encadeamento da história narrada por García Márquez, um mês após outro.

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A gente aprende lendo: sinalize elemento fora de lugar

Paulo Montoia | 21/03/2016

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Imagem iStock

Um componente da oração fora de lugar precisa sempre ser sinalizado ao leitor. No início da frase, então, é fundamental. Se forem duas ou mais palavras, coloque vírgula, é obrigatória; se for apenas uma palavra a vírgula não é obrigatória. É comum em citações de tempo (ano, mês, dia, hora, estação, lugar, situação). Em todos os casos, o texto ganha ritmo, e o leitor agradece, principalmente a pessoa que lê as redações e as respostas das questões cursivas das provas. Veja exemplos de autores consagrados.

1 – Às seis da manhã, quando o telefone deu o despertar, eu estava sentando na ponta da cama.
Chico Buarque, em Budapeste, 2004, Prêmio Jabuti melhor livro do ano de ficção.
Note que a ordem direta seria: Eu estava sentando na ponta da cama quando o telefone deu o despertar, às seis da manhã.

 2 – Meio desconfiados, abrimos caminho naquele mundo de gente ao longo do bar e fomos nos refugiar no restaurante aos fundos.
Fernando Sabino, em Neve pela primeira vez, in O Gato sou eu (1983).
Veja que bastaria colocar “Meio desconfiados”, com vírgula, ao final para termos ordem direta.

A gente aprende lendo: formas de usar o aposto

3 – Nesse diário, quase toda página é digna de menção.
Frase de Elias Canetti, prêmio Nobel de literatura, em Sobre a morte (1942-1993).
O início destacado deveria estar no fim da frase para termos ordem direta: Quase toda página é digna de menção nesse diário.

4 – Nunca, desde que me dei por gente, já disse “Senhor” para alguém.
Frase também de Elias Canetti, na mesma obra.
Tanto a palavra nunca (citação temporal), como a frase seguinte, estão fora de lugar, por isso, estão separadas por vírgula nos dois casos. Na ordem direta, a frase começaria com o pronome ausente (eu, o sujeito) e seu verbo: (Eu) nunca já disse “Senhor” para alguém, desde que me dei por gente.

5 – No dia 15 de novembro pela manhã, o ministério estava reunido no quartel-general do exército, que era no Campo de Santana, hoje Praça da República, sob a guarda de uns dois mil homens comandados pelo brigadeiro Almeida Barreto.
Graciliano Ramos, em Pequena história da república, no livro Alexandre e outros heróis (1938).
Note que a ordem direta começa em “O ministério estava reunido…” O autor deslocou a citação de tempo do final do período para melhor situar o leitor para a manhã do dia da Proclamação da República.

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3 fatos sobre a vírgula que você precisa saber

 

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A gente aprende lendo: formas de usar o aposto

Paulo Montoia | 18/03/2016

Ok, você provavelmente sabe como apostar em loterias. Mas, no nosso caso, queremos dar um toque sobre apostos, aquele trecho ou período intercalado na frase. Você já perdeu uns pontinhos de nota por ter separado o sujeito de seu verbo por uma vírgula? Então o aposto é a sua dupla vingança contra essa norma traiçoeira da gramática: você poderá separar até o sujeito de seu verbo com duas vírgulas.

>> 5 exemplos de recursos de linguagem

Veja 9 exemplos engraçados do Prêmio Nobel de Literatura, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, todos de Tia Júlia e o escrevinhador, um romance sobre novelas de rádio, em que o criador das novelas é um boliviano que odeia os argentinos. Detalhe: Llosa não usa o aposto somente com vírgulas, mas também com parênteses e travessões, o que se deve evitar na dissertação.

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Imagem: divulgação

1. “Pela mente do Dr. Barreda y Zaldívar flutuou, nuvenzinha negra e prenhe de chuva, uma hipótese: e se tudo não passasse de um ardil (…)?”

2. “E, satisfeito apesar de tudo, lobo do mar que até dos ciclones tira lições otimistas, acrescentou: pelo menos, alegremo-nos de saber (…)”

3. “Foi o Dr. Schwalb quem aconselhou Lucho Abril Marroquín a visitar a doutora e ele mesmo que, helvética* precisão que tem produzido pontualíssimos relógios, marcou a consulta.”

(*helvética – referente à Suíça).

4. O propagandista  farmacêutico, serpente de vigor redobrado com a mudança de pele, recuperou prontamente o lugar preeminente que tinha no laboratório.

>> Os 10 maiores nomes da literatura brasileira e suas obras
>> Saiba como contornar verbos defectivos

5. Então sim freou, tão bruscamente que o volante golpeou seu peito (…) desceu rapidamente do volkswagen, e correndo, tropeçando – pensando “sou argentino, mato crianças” – chegou até a criança e levantou-a nos braços.

6. Será que essas mulheres, como aquelas de certo país que até no nome de sua capital faz pose pedante (bons ventos, bons tempos, ares saudáveis?), tinham o costume de preferir os homens disformes devido a esse estúpido preconceito segundo o qual são melhores, matrimonialmente falando, do que os normais?

7. Pouco depois, houve um jogo em que a Seleção Nacional enfrentou uma quadrilha de homicidas de um país de escasso renome  – Argentina ou algo assim? – que se apresentaram para jogar com botinas encouraçadas de pregos e joelheiras e cotoveleiras que na verdade eram instrumentos para ferir o adversário.

8. Agora mesmo, enquanto entrava no estacionamento, verificava com um olhar de condor que o Dodge tinha sido lavado, dava a partida e esperava dois minutos (marcados no relógio) enquanto o motor esquentava, seus pensamentos, mais uma vez – mariposas revoluteando em torno de chamas onde arderão suas asas – remontava ao tempo, ao espaço, ao povoado selvático de sua infância e ao espanto que forjou seu destino.

9. Logo não pensou mais em nada, pois o esforço físico o absorveu inteiramente e, enquanto baixava e subia as pernas (Leg rises, cinquenta vezes!), flexionava o tronco (Trunk twist com barra, três séries, até botar os bofes para fora!), trabalhava as costas, o tronco, os antebraços, o pescoço, obedecendo às ordens de Coco (Força, tataravô! Mais rápido, cadáver!), ele era apenas um pulmão que recebia e expelia ar, uma pele que cuspia suor e uns músculos que se esforçavam, se cansavam e sofriam. Quando Coco gritou: Três séries de 15 pull-overs com a barra, tinha chegado ao seu limite. Mas mesmo assim tentou, por amor-próprio, fazer pelo menos uma série com 12 quilos, mas não foi capaz. Estava exausto. O peso escapou de suas mãos na terceira tentativa e ele teve que aguentar a gozação dos halterofilistas (Múmias de volta para a tumba e cegonhas no jardim zoológico! Chamem a funerária! Requiescat in pace, Amen!), e ver, com muda inveja, como Richard — sempre empenhado, sempre furioso — completava sua rotina sem dificuldade.

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A gente aprende lendo: 5 exemplos de recursos de linguagem

Paulo Montoia | 03/03/2016

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Foto: iStock

Veja em trechos de celebrados escritores o uso de recursos às vezes inesperados, como a ironia, o sarcasmo, o neologismo ou uma simples metáfora.

  • Ode ao Burguês

“Eu insulto o burguês! O burguês-níquel (…)  O homem-curva! O homem-nádegas! Eu insulto as aristocracias cautelosas.

Mário de Andrade cria neologismos que fazem sarcasmo (homem-curva, homem-nádegas) para enriquecer seu poema-manifesto, em Pauliceia Desvairada.

>> Veja os principais movimentos literários do Brasil

  • Dom Casmurro

“Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos”.

Machado de Assis utiliza eufemismo e ironia para citar os amigos mortos.

  • Macunaíma

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente.“

Na primeira frase de seu romance, Mário de Andrade faz paródia do romantismo indigenista, para introduzir um herói nacional “sem nenhum caráter”.

>> Os 10 maiores nomes da literatura brasileira e suas obras

  • A Hora da Estrela

“Macabéa, esqueci de dizer, tinha uma infelicidade: era sensual. Como é que num corpo cariado como o dela cabia tanta lascívia, sem que ela soubesse que tinha? Mistério.”

Veja como Clarice Lispector se vale de sarcasmo para referenciar o leitor no machismo do namorado-narrador da personagem.

  • O Cortiço

“O Miranda, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade”.

Aluísio Azevedo escolhe a palavra orçava para dimensionar a idade do personagem Miranda, e insinua, sugere o quanto ele é ganancioso.

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A gente aprende lendo: 4 exemplos de figuras de linguagem na literatura

Paulo Montoia | 19/02/2016

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Hora de lembrar das aulas de português! As figuras de linguagem são recursos que tornam mais expressivas as mensagens. Subdividem-se em figuras de som, figuras de construção, figuras de pensamento e figuras de palavras. Veja como alguns autores da literatura brasileira as usaram na composição de suas obras:

1. Abelhas

Gotas de luz e perfume,
leves, tênues, delicadas,
Acesas no doce lume
de purpúreas alvoradas.

  •  O poeta simbolista Cruz e Souza usa sinestesia, associa palavras de uma sensação humana para descrever outra.

>> Veja os usos do dia a dia das figuras de linguagem

2. Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

  •  Cecília Meireles constrói uma metáfora (colocar o sonho em um navio) e usa sinestesias (azul que molha, cor que escorre) para reforçar a ideia de infinita perda, no livro Viagem.

>> Resumo de português: figuras de linguagem

3. A hora da estrela

“Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida?”

  •  Clarice Lispector utiliza uma metáfora que sugere a crueza, o machismo e o universo pobre do namorado-narrador e da personagem.

4. Gente humilde

(…) São casas simples, com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias (*)
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza… (…)

  •  Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Holanda inserem uma sutil prosopopeia  – personificando as flores – na letra para a canção do compositor Garoto.

(*) Baldias = inútil, sem uso.

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A gente aprende lendo: como contornar verbos defectivos

Paulo Montoia | 11/02/2016

Você já sabe que ler com frequência nos faz descobrir um novo universo de palavras e verbos – e também nos ajuda a começar a desconfiar de erros de gramática e ortografia! Um desses erros que percebemos é a conjugação de verbos defectivos. Lembra das aulas de português? Vamos lá.

>> 4 passos para iniciar sua preparação para as provas de redação
>> 3 fatos sobre a vírgula que você precisa saber

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Foto: iStock

Recordando: são defectivos os verbos que não possuem todas as variantes de conjugação, em uma das pessoas (eu, tu, ele etc), modos (indicativo, subjuntivo, imperativo…) e tempos (presente, pretérito…).

O fato de nunca ter lido determinada flexão nos faz duvidar se ele está mesmo escrito da forma certa e, nesse caso, substituir o verbo ou utilizá-lo de outra forma. A maior quantidade de verbos defectivos é da terceira conjugação (ir). Veja alguns exemplos:

Colorir – Não existe na primeira pessoa do indicativo, “eu coloro”. Como contornar: “Quando estou colorindo…”, “Gosto de colorir, e quando faço isso eu me distraio”, “No meu ofício de colorir, gosto….”
Abolir – Idem, não existe “eu abolo”. Como contornar: “Quando decido abolir algo da minha rotina…”
Carpir – Idem, não existe “eu carpo”. Como contornar: “Quando carpe, o sertanejo…” “Quem carpe sabe o quanto é cansativo…”
Falir – Não existe no presente do indicativo para eu, tu, ele/ela, eles/elas. Como contornar: “A falência dela…”, Mesmo quando faliu, ele…”, “Eu, já falido, decidi me mobilizar…”
Reaver – Idem para eu, tu, ele/ela, eles/elas. Não existe “eu reavo” ou “ele reave”, por exemplo. Como contornar: “Eu busco reaver…”, “Para reaver, ela decide…”, “Quando eu quero reaver…”.

Leia também:

– Entenda a estrutura da dissertação (e veja como planejar a sua)
– O passo a passo para uma redação nota 10

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