Guia do Estudante

Quer tirar nota 1000 na redação do Enem? Entenda os 5 critérios de avaliação usados pela banca

Carolina Vellei | 25/06/2015

No Enem 2014, apenas 250 pessoas tiraram nota máxima na redação. Sabe qual a porcentagem que esse número representa do total de participantes? Apenas 0,004% (mais de 6,1 milhões de candidatos fizeram a prova). Para o Inep, instituto responsável pela aplicação do exame, esses foram os estudantes que cumpriram todas as competências exigidas pela prova. Por isso, é importante conhecer os critérios de avaliação usados pelos corretores para saber como produzir um texto digno de nota 1000. Conheça abaixo as 5 competências exigidas pela banca:

1. Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa

Esse é o requisito fundamental para tirar uma boa nota. Para atender a essa exigência, você precisa ter consciência da diferença entre a modalidade escrita e a oral, bem como entre registro formal e informal. Não é porque na oralidade falamos “pra” que devemos escrever assim no texto. Evite contrações (pra, pro, numa…) e prefira escrever a palavra toda (para, para o, em uma…), fuja das gírias e de repetições. Além disso, na redação do seu texto, você deve procurar ser claro, objetivo e direto, empregar um vocabulário mais variado e preciso, diferente do que utiliza quando fala, e seguir as regras estabelecidas pela modalidade escrita formal da Língua Portuguesa. O texto dissertativo-argumentativo escrito exige que alguns requisitos básicos sejam atendidos corretamente:

  • Concordância nominal e verbal;
  • Regência nominal e verbal;
  • Pontuação;
  • Flexão de nomes e verbos;
  • Colocação de pronomes oblíquos (átonos e tônicos);
  • ƒGrafia das palavras (inclusive acentuação gráfica e emprego de letras maiúsculas e minúsculas); e
  • Divisão silábica na mudança de linha (translineação)

DICA: Usar o rascunho é essencial para evitar esses erros. :)

- Quais são os erros de quem zerou a redação do Enem?

- Aprenda a fazer a redação do Enem passo a passo

- Tudo que você precisa saber sobre a redação do Enem

- Título na redação: cinco dicas que podem resolver suas dúvidas

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2. Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa

O Enem não quer que o texto do participante tenha caráter apenas expositivo, porque isso não é fazer uma dissertação-argumentativa. É preciso apresentar um texto que expõe um aspecto relacionado ao tema, defendendo uma posição, uma tese. Evite ficar preso às ideias desenvolvidas nos textos motivadores, porque foram apresentados apenas para despertar uma reflexão sobre o tema e não para limitar sua criatividade. É nessa competência que o Enem espera ver o seu conhecimento de mundo. Utilizar informações de várias fontes (livros, filmes, exposições) demonstra que você está atualizado em relação ao que acontece no mundo. Mas, atenção! Mantenha-se dentro dos limites do tema proposto, tomando cuidado para não se afastar do seu foco. Fuga do tema é um dos principais problemas identificados nas redações que levam nota zero.

3. Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista

O terceiro aspecto a ser avaliado no seu texto é a forma como você seleciona, relaciona, organiza e interpreta informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa do ponto de vista defendido como tese. O seu texto precisa apresentar, claramente, uma ideia a ser defendida e os argumentos que justifiquem a posição assumida por você em relação à temática exigida pela proposta de redação. Esta competência trata da inteligibilidade do texto, ou seja, da sua coerência. Coerência tem a ver com o encadeamento das ideias. Cada parágrafo precisa apresentar informações novas, mas coerentes com o que já foi apresentado anteriormente, sem repetições ou saltos temáticos. É um desafio e tanto!

4. Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a argumentação

Nessa competência são avaliadas a estruturação lógica e formal entre as partes da redação. A organização textual exige que as frases e os parágrafos estabeleçam entre si uma relação que garanta a sequenciação coerente do texto e a interdependência entre as ideias (está ligada à competência 3, também). Esse encadeamento pode ser expresso por conjunções, por determinadas palavras, ou pode ser inferido a partir da articulação dessas ideias. Preposições, conjunções, advérbios e locuções adverbiais são responsáveis pela coesão do texto, porque estabelecem uma inter-relação entre orações, frases e parágrafos. É importante frisar: cada parágrafo deve ser composto de um ou mais períodos também articulados e cada ideia nova precisa estabelecer relação com as anteriores.

5. Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos

O quinto e último aspecto a ser avaliado no seu texto é a apresentação de uma proposta de intervenção para o problema abordado. Por isso, a sua redação, além de apresentar uma tese sobre o tema, apoiada em argumentos consistentes, deve oferecer uma proposta de intervenção na vida social, ou seja, uma “solução” para o problema. Essa proposta deve considerar os pontos abordados na argumentação e deve se relacionar diretamente com a tese desenvolvida no texto e ter coerência com os argumentos utilizados, já que expressa a sua visão, como autor, das possíveis soluções para a questão discutida. A proposta de intervenção precisa ser detalhada para permitir que o leitor julgue a sua “exequibilidade” (a capacidade de ser posta em prática). Por isso, é bom detalhar quais meios são importantes para realizá-la. A proposta deve, ainda, refletir os conhecimentos de mundo de quem a redige, e a coerência da argumentação será um dos aspectos decisivos no processo de avaliação. É necessário que ela respeite os direitos humanos: que não rompa com valores como cidadania, liberdade, solidariedade e diversidade cultural.

As informações desse texto foram retiradas do Guia do Participante do Enem, elaborado pelo Ministério da Educação (MEC). Vale a pena dar uma conferida para ler todas as dicas e os exemplos de avaliação feitos pelos corretores oficiais do exame. ;)

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Categoria: Dica, Enem

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Análise de redação para a proposta: “Redução da maioridade penal”

Carolina Vellei | 11/06/2015

O vestibular  da segunda etapa do Processo Seletivo de Avaliação Seriada (PAS) de 2013 da Universidade Federal de Lavras (UFLA) pediu para os candidatos dissertarem sobre “redução da maioridade penal”. Leia a proposta na íntegra aqui.

Leia a seguir o texto escolhido:

Diminuir a maior idade penal é retroceder

A solução imposta pela sociedade brasileira ao aumento dos crimes cometidos por jovens menores de 18 anos é a redução da maior idade penal. Contudo, sujeitar “crianças” a um sistema carcerário superlotado e onde não existe preocupação com a ressocialização do detento não é a melhor saída.

Diminuir a maior idade penal é retroceder, pois deixamos de pensar na causa e passamos a condenar o efeito, que é causado, principalmente, pela falta de investimentos na educação, esporte, lazer e cultura para os jovens, direitos básicos que deveriam ser assegurados pelo Estado, nas zonas de baixa renda, de onde saem à maioria dos menores infratores.

Cabe ressaltar, que nos presídios, lugar para onde os jovens iram se aprovado o novo projeto de lei, além de a maioria estarem operando com o dobro de suas capacidades, segundo dados da DPN (Departamento Penitenciário Nacional), cerca de 70% dos detentos são reincidentes, ou seja, por não haver a preocupação com a ressocialização desses, os mesmos acabam voltando para a vida criminal.

No entanto, contrariar a diminuição da maior idade penal, não é favorecer a impunidade, e sim, exigir soluções como o investimento, em maior escala, nas entidades de detenção socioeducativas, nas escolas técnicas de tempo integral e aumentar a punição para os crimes hediondos cometidos por estes. Assim mantém o adolescente mais tempo na escola, e puni o que insistir em cometer crimes.

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Comentários da professora de redação do Colégio e Curso Oficina do Estudante, Ednir Barbosa:

Análise da proposta:

A proposta pede um artigo de opinião dirigido a estudantes universitários sobre o tema:redução da maioridade penal. O texto será publicado num blog.
O artigo de opinião é um texto que alguém opta por escrever porque quer manifestar seu ponto de vista a respeito de um assunto que o interessa ou que lhe é afim. Por isso é um texto opinativo em que o autor procura convencer o leitor a pensar como ele.

Como nesta proposta há um interlocutor marcado – que são os universitários – e tem um local por meio do qual será divulgado, esses 2 itens devem aparecer em algum ponto do texto. O blog pode ser do próprio autor ou então ele se manifesta, discutindo sua ideia em algum blog que esteja divulgando e discutindo a maioridade penal.

Poderia ser algo como: “Como este blog é bastante visitado por universitários, é a eles que me dirijo para discutir um tema da maior relevância: a redução da maioridade penal.” Poderia, ainda, particularizar dirigindo-se a universitários do curso de direito, uma vez que se trata de um assunto também concernente às leis.

É importante, ainda, observar que a aluno tem três tarefas bem específicas a realizar, para atender a proposta, ou seja: contextualizar o tema, discutir posições e manifestar explicitamente seu posicionamento.

Análise da redação do aluno:

O texto, como um todo é bom, e discute o tema, embora alguns deslizes tenham sido cometidos. É bom o texto, na medida em que expõe o ponto de vista do articulista apoiado na argumentação. Entretanto, não há nenhuma marca de que é um blog e não há referência ao interlocutor. Também, não se consegue depreender quem é o autor do texto e o motivo por que ele expressa sua opinião publicamente. Isso tudo pode comprometer a nota do aluno ou até, em correções mais rigorosas, zerar a redação.

No mais, vejamos:

A tese do autor diz que reduzir simplesmente a idade para punição dos menores não é a saída para a solução do problema do aumento a criminalidade entre os adolescentes. A defesa da tese se fixa em dois argumentos: que as prisões são locais inadequados para ressocialização de qualquer detento, muito mais do jovem adolescente; e que se deve atacar as causas do problema e não somente as consequências.

No último parágrafo, ele apresenta um contra argumento, defendendo que não reduzir a maioridade penal não significa não punir: é necessário aparelhar melhor as casas de educação destinadas a infratores menores de idade e instituir escolas profissionalizantes com tempo integral. Entretanto, há uma incoerência na última frase: deve-se aumentar a punição aos praticantes de crimes hediondos. Esses praticantes não são os mesmos jovens a quem faltam escolas, esporte, lazer, cultura e a quem foram negados os direitos básicos? Para ser coerente, deveria ter estendido mais essa parte da argumentação final.

É um texto bem escrito, vocabulário adequado, estruturas gramaticais corretas. Pena não ter sido feita nenhuma referência ao blog e aos destinatários. Na verdade é um texto para um público genérico e a proposta pedia um encaminhamento mais específico.

Sugestão ao aluno: ler atentamente a proposta e atender as exigências ali colocadas.

Nota: 8,0 (numa escala de 0 a 10)

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Nova proposta de redação: Experiências estéticas e práticas éticas nas relações sociais

Ana Prado | 12/05/2015

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(Imagem: Thinkstock)

O tema da redação desta semana foi tirado do processo seletivo 2014/2 da Universidade Federal de Goiás (UFG). Leia a coletânea a seguir.

Tema

Experiências estéticas e práticas éticas nas relações sociais

Coletânea

1. A ética, questão de vida ou morte

A preocupação ética cresceu muito nos últimos anos no Brasil e no estrangeiro, mas sobretudo aqui. Penso que tem a ver com o crescimento da sociedade brasileira, ou melhor, com o crescimento do que chamamos “a sociedade”. Infelizmente, em países marcados como o nosso pela desigualdade, “a sociedade” não se refere a toda a população. Sempre foram muitos os excluídos. Mas a novidade é que diminuiu o número deles.

Vejamos o trânsito. Funcionou bem, enquanto tinham carro apenas três ou cinco por cento dos brasileiros. O tráfego fluía. Era fácil guiar e estacionar. Mas, hoje, metade das viagens realizadas na cidade de São Paulo é por carro.

Não dá. E é claro que toda pessoa que já pensou no trânsito sabe que o transporte individual tem de ser a exceção, não a regra. Mas o que fazer, quando na maior parte de nossas cidades o ônibus é a vala comum na qual as classes abonadas não querem se meter e da qual os mais pobres querem escapar? Ter um carro, ainda que caindo aos pedaços, passa a ser um sinal mínimo e necessário de dignidade. Porque dignidade e cidadania não são palavras abstratas, de teor apenas cívico: têm a ver com conforto. É errado pensar que o civismo se mede só pelos símbolos nacionais ou pela dedicação ao bem comum. Ele está no respeito ao outro. É por isso que, quando o conforto é negado a quem se vale do ônibus, ter um carro se torna distintivo do cidadão. É um distintivo errado e destrutivo a médio prazo, pela poluição e engarrafamentos que causa, mas é um distintivo.

O que tem isso a ver com a ética? Duas coisas. A primeira é que a educação e as boas maneiras têm forte sentido ético. Aliás, alguns até derivam a palavra “etiqueta”, no sentido das regras de comportamento, do termo “ética”, como se a etiqueta fosse a pequena ética, a “small morals”, que lida não com os princípios mas com as regras. Essa etimologia é errada (etiqueta vem do rótulo que se colocava nos processos e, por extensão, significa rotu lar as pessoas pela sua classe social), mas rica: mostra que tratar bem o outro é sinal de respeito. E o respeito é um dever ético, é um valor que atribuímos aos nossos semelhantes, justamente para assinalar que  são nossos iguais, que não nos consideramos melhores que eles.

Chego assim ao segundo ponto. O Brasil funcionou, enquanto a desigualdade era aceita socialmente. Não se via maior problema em uma pessoa furar a fila, se ela tivesse certas características que a faziam superior – a beleza, o charme, a “boa aparência” (expressão cujo significado, como se vê nas novelas, era “não ser negro”), a riqueza. Isso era detestável, mas a sociedade aceitava razoavelmente a desigualdade. Nossa sociedade não deixou de ser desigual, nem acabou a exclusão, mas aumentou incrivelmente o desejo de inclusão. É o que leva os mais pobres, já sem esperança num transporte coletivo decente, a comprar carros.

Esse é o nosso equivalente das “invasões bárbaras”, de que fala o filme canadense. Como se negou e se nega aos mais pobres a cidadania, eles a tomam por si próprios – e isso se dá de maneira altamente conflituosa. Nosso trânsito é uma guerra social. [...]

Ora, isso quer dizer que aqueles que podiam furar a fila – falei no banco, mas pode ser o restaurante chique, a loja de bom atendimento, qualquer lugar – também aumentaram em proporção. Passar na frente dos outros, com a aceitação resignada ou mesmo prazerosa deles, é uma coisa quando são raros os que o fazem. Mas, quando muitos começam a querer isso, se torna intolerável.

Em nossa sociedade, adotamos então recursos indiretos para manter a desigualdade. Quem pode, manda um boy para o banco. Ou usa a Internet para o acesso. Ou se torna um cliente, não apenas especial, porque muitos já o são, porém vip, com guichê escondido para você. Ou dá um jeito de passar na frente discretamente, quase envergonhado: porque, antigamente, furar na fila era já um sinal de distinção.

Voltemos então à ética. Nas colunas anteriores, sustentei que a ética não é abstrata, um conjunto de princípios genéricos sem relação com a vida social, que devemos impor a todo custo. O fato é que, se o Brasil hoje fala tanto em ética, é porque chegamos à conclusão de que um mínimo de respeito ao outro é necessário para sermos, nós mesmos, respeitados.

Aumentou a classe média, e portanto até os abonados percebem que, se continuar a regra (ou a des-regra) de furar a fila, eles mesmos serão prejudicados. Ou seja, também quem está bem na vida sabe que precisa seguir a regra comum. Também a elite começa a ver que passou a depender de princípios éticos para sobreviver.

Por outro lado, os pobres não acham mais “bonito não ter o que comer”, para citar fora de contexto um verso de “Amélia”, uma das mais belas canções de Mário Lago. Ver o outro passar na sua frente não é mais aceitável. Daí que falemos tanto em ética: a sociedade brasileira foi tomando consciência de que, na guerra de todos contra todos, valores como o do respeito, o da igualdade e o da liberdade são fundamentais. Ou eles, ou o caos. [...]

RIBEIRO, Renato Janine. Disponível em: <http://www.renatojanine.pro.br/Etica/colunaaol.html>. Acesso em: 31 mar. 2014.

2. “O empregado tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?”

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião de condomínio e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de “paredão” organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção o chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”. [...] O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso, comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio. Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gusto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata frita e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso, o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso, as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos. Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião). Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.

PICHONELLI, Matheus. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-empregada-ja-tem-carro-e-eu-estudei-pra-que-5156.html>. Acesso em: 31 mar. 2014.

3. 

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Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=%C3%A9tica+e+est%C3%A9tica>. Acesso em: 24 abr. 2014.

4. (Clique para ampliar).

Captura de Tela 2015-05-12 às 1.14.32 PM

Disponível em: <http://www.filosofia.com.br/charge.php?pg=1>. Acesso em: 24 abr. 2014.

5. “Rolezinho”, capitalismo e gente bonita

No capitalismo moderno distinções logicamente infundadas de classe, étnicas, religiosas, de gênero etc. são abolidas no direito posto e na ética das relações entre particulares e o Estado e mesmo entre particulares quando esteja envolvida nessa última relação o uso de ambiente de caráter público, mesmo que privado. Posso exigir que em minha lanchonete as pessoas em geral venham vestidas de um modo socialmente aceitável (regra geral) mas não posso impedir que pobres, mulheres ou afrodescendentes a frequentem (regra discriminatória que teria seu critério de discriminação não amparado em razão de ordem lógica). [...] O que os jovens da periferia pretendiam com seus “rolezinhos” era um footing num dos poucos espaços públicos que têm segurança para tanto e que desde minha pré-adolescência são os espaços substitutivos das praças e da Rua Augusta, já que celebração, sedução e paquera juvenil, felizmente, ainda não se conseguiu acabar.

Combinar socialmente um dia para que tal footing se realize é um pouco da essência do negócio. Nos tempos de meus pais era o domingo; no meu, os sábados ou os horários de hora de aula cabulada; nos dias de hoje, o que se combina pela internet. Em vez do baile naquele dia, o “rolezinho” num espaço habitualmente frequentado por pessoas de elite. Nada de mais normal do sentido estrito da expressão (dentro da norma), afinal estamos em uma sociedade capitalista de classes, não em uma aristocracia estamental. Se resolve ficar sem carne na mesa um mês para pagar a entrada o pobre pode entrar no cinema frequentado pelo rico, é a regra do jogo. Do mesmo modo o rico paga para desfilar na escola de samba. É a regra do jogo.

Classe social, hábitos de vestimenta fashion ou forma corporal não são critérios logicamente fundados, ou seja, legítimos, para impedir alguém de frequentar um ambiente comercial público. Não se pode explorar economicamente tal tipo de espaço comercial ou de serviços condicionando o acesso apenas para “gente bonita”. Pelo simples fato de haver o “rolezinho” nada disso se punha em questão. Comportamentos e ambientes tradutores das distinções sociais existem por todo canto da existência e o evento em questão não pretendeu ir além de seu caráter lúdico. Não era um protesto contra os males do mundo, era uma forma de procurer espantá-los por algumas horas de forma segura, alegre e num ambiente valorizado pelos desejos de consumo que todos temos em alguma medida.

A reação desmedida de donos de shoppings, polícia e Judiciário é que trouxe à tona o debate público sobre as distinções sociais inconstitucionais e inaceitáveis existentes no cotidiano de práticas comerciais desprovidas de qualquer pudor humano ou democrático, feudais mais que capitalistas. Descabido totalmente na sociedade moderna presumir violência ou criminalidade na pobreza, seja na revista policial ou no acesso ao shopping. Gente bonita e descolada do comum e do público tem de saber acatar as leis e regras do jogo capitalista. Inconstitucional e eticamente inaceitável um centro comercial não permitir um encontro coletivo pacífico de pessoas por conta de sua condição social, étnica, de gênero, orientação sexual, padrão de consumo etc. [...]

A vida contemporânea, no Brasil e fora daqui, é cada vez mais tolerante com discriminações sociais e estéticas infundadas logicamente. Interessante notar que essa e outras liberdades públicas, valores e conceitos originais do pensamento liberal vêm, cada vez mais na contemporaneidade, sendo defendidas por forças tidas como de esquerda no quadro político. Nossos liberais estão cada vez menos liberais, cedendo à força conservadora das teses de uma direita reativa aos valores das revoluções francesa e americana. Por outro lado, também, é um equívoco das forças de esquerda querer enxergar no “rolezinho” qualquer conduta anticapitalista. O “rolezinho” é, ou era para ser, antes de tudo um momento lúdico de afirmação do consumo e dos valores estéticos do mercado capitalista. Um desejo de inclusão nele e não de sua extinção.

SERRANO, Pedro Estevam. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/rolezinho-capitalismo-e-gente-bonita-6318.htm>. Acesso em: 31 mar. 2014.

Propostas

A – Editorial

O editorial é um gênero do discurso argumentativo que tem a finalidade de manifestar a opinião de um jornal, de uma revista, ou de qualquer outro órgão de imprensa, a respeito de acontecimentos importantes no cenário local, nacional ou internacional. Não é assinado porque não deve ser associado a um ponto de vista individual. Deve ser enfático, equilibrado e informativo. Além de apresentar opiniões assumidas pelo veículo de imprensa, costuma também resumir opiniões  contrárias, para refutá-las.

Imagine que você seja o editor-chefe de uma revista de grande circulação nacional. Discuta fatos recentes do país que acenam para conflitos nas relações sociais, dadas as contradições historicamente construídas em torno da relação entre as experiências estéticas e o comportamento ético. Mobilize argumentos que sustentem o ponto de vista da revista, refutando argumentos contrários ao posicionamento assumido.

B – Carta aberta

De natureza persuasivo-argumentativa, o gênero carta aberta manifesta publicamente a opinião de uma pessoa ou de um grupo de pessoas a respeito de um problema. Tem a finalidade de persuadir um interlocutor específico a tomar consciência do problema e se mobilizar para solucioná-lo. O texto denuncia os fatos, analisa-os, sugere e reivindica ações resolutivas. Além disso, mobiliza a opinião pública para a adesão ao ponto de vista do locutor. Para isso, o locutor deve construir a imagem do interlocutor e as estratégias adequadas para convencê-lo.

Imagine que você seja um dos moradores do condomínio onde o carro da lavadeira se tornou polêmica entre os condôminos, que, por isso, exigiram uma assembleia. Diante da revolta de uns e da indignação de outros com a polêmica sobre o status da empregada, você resolve escrever uma carta aberta aos moradores do condomínio, expressando sua indignação com a repercussão do fato e com os argumentos apresentados por aqueles que se diziam revoltados.

Como locutor da carta, você deve utilizar estratégias argumentativas e persuasivas para convencer os condôminos a adotar ações que garantam uma convivência social ética no condomínio. Para persuadir o leitor, utilize outras situações semelhantes como argumentos e discuta suas implicações de forma a mobilizar a opinião pública a acatar o seu ponto de vista em relação às formas estéticas da existência humana para a construção de um mundo mais justo e ético.

NÃO IDENTIFIQUE O REMETENTE DA CARTA.

Instruções

- Desenvolva seu texto em apenas um dos gêneros apresentados.

- O texto deve ser redigido em prosa.

- A fuga do tema ou a cópia da coletânea anula a redação. Você não deve copiar trechos ou frases. Quando for necessária, a transcrição deve estar a serviço do seu texto.

- Use a variedade padrão culta da língua portuguesa.

- Sua redação deve ter entre 180 e 300 palavras.

Você pode enviar seu texto até quinta-feira, dia 21 de maio, para o e-mail: redacaoguia@gmail.com, em um anexo ou no corpo na mensagem. Coloque seu nome completo, idade e cidade. Ele poderá ser avaliado e publicado aqui no blog. Faremos a correção de um texto para cada gênero. 

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Categoria: Proposta

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Análise de redação para a proposta: “EaD e democratização do ensino superior”

Ana Lourenço | 04/05/2015

O vestibular de ensino a distância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) pediu para os candidatos dissertarem sobre “EaD e a democratização do ensino superior”. Leia a proposta na íntegra aqui.

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Leia a seguir o texto escolhido:

O mundo num todo, passa por uma fase de novas tecnologias que facilitam a vida coletiva cada vez mais. Coisas que há um tempo era-se necessário sair de casa, hoje são possíveis fazer em um pequeno aparelho em qualquer lugar. Com toda essa revolução nas tecnologias as pessoas estão cada vez mais acomodadas e pedem por tecnologia para estudar.

O EaD, é um meio alternativo para se conseguir um diploma. Uma ideia não completamente aceita, mas interessa muitos que na maioria das vezes, querem conciliar trabalho, afazeres domésticos, filhos e estudo. Com o aumento da tecnologia também na área da educação, as pessoas estão escolhendo  estudar no conforto de sua própria casa.

Quando se  estuda  em casa,  ao ter uma dúvida, não há real necessidade do professor, quando se tem um computador e pode-se pesquisar o que for preciso.  Isso é fundamental, pois em uma sala de aula, muitas das vezes o professor está também atendendo a outros alunos, resultando em falta de tempo para explicar a dúvida de cada um.

Com o ensino a distância, o aluno pode montar o seu próprio horário, decidindo que horas  o mesmo vai estar disponível  para pegar seu notebook e estudar, diferentemente de uma faculdade na qual é preciso a presença todos os dias, precisando sair do conforto de casa, muitas vezes, pegando ônibus e chegando cansado em casa, após um longo  dia.

O que podemos dizer é que o mundo hoje é rápido, prático e exige cada vez mais comodidade. Entre estudar em casa, ou em uma escola, em alguns anos a ideia de estudar na sua própria casa será muito mais aceita, e a taxa de matricula de muitas faculdades e colégios vai despencar.  Apesar de tudo isso,  não importa onde o aluno estude, seja em casa, ou em uma faculdade, ou por conta própria, quem tem interesse, sempre vai conseguir o que quer.

Comentários da professora de redação do Colégio e Curso Oficina do Estudante, Ednir Barbosa: 

ANÁLISE DA PROPOSTA

A proposta de redação sugere que o aluno escreva um artigo de opinião a respeito da validade da educação a distância. Para isso, supõe-se que o aluno tenha conhecimento ou familiaridade com esse sistema de ensino. Como o artigo de opinião é um gênero argumentativo é de se esperar que ele tenha uma opinião formada e que vá discutir, debater ou concordar com as indagações da Profa. Marta Pernambuco. A estrutura do texto é a mesma da dissertação argumentativa. Uma introdução sobre a educação a distância e, em seguida, a exposição do ponto de vista sobre a sua validade ou não. Os parágrafos seguintes devem dar conta de justificar com ideias, dados e exemplos a tese enunciada no início do texto. A conclusão deve retomar a opinião exposta e arrematar sucintamente o que se tinha proposto defender.

Por ser um artigo de opinião, o aluno poderia simular ser um professor (por isso, familiarizado com o tema); um estudante (que vive essa experiência EaD); ou algum profissional da área educacional.

ANÁLISE DO TEXTO DO ALUNO 

O autor da redação perdeu-se, um pouco, na exposição de suas ideias. Primeiramente, pareceu não entender muito bem as características de um curso EaD. Também não apresentou claramente seu ponto de vista a respeito e, consequentemente, a argumentação se tornou frágil, sem sustentação. Há problemas,  ainda,  na estrutura do texto. Os parágrafos não se completam e há períodos confusos, sem finalização da ideia iniciada.

Façamos uma análise parágrafo por parágrafo:

1º parágrafo:

Há várias ideias incompletas nesse parágrafo:

1) o mundo num todo -  o que significa?;

2) novas tecnologias facilitam a vida coletiva - explicar quais tecnologias e o que é vida coletiva;

3) Coisas que há um tempo era-se necessário sair de casa, - que coisas? Além disso, a frase está incompleta.

4) Com toda essa revolução nas tecnologias - qual revolução? Esclarecer; pedem tecnologia para estudar - qual o significado da expressão?

Portanto: o primeiro parágrafo não esclarece que assunto se vai discutir nem expressa o ponto de vista (tese) do articulista, elemento fundamental nesse tipo de texto.

2º parágrafo:

Este segundo parágrafo se refere ao tema proposto e deveria ser o parágrafo inicial, desde que o aluno explicasse o que é EaD. É preciso entender que nem todos os leitores estão familiarizados com a abreviatura. Depois de explicitada, poder-se-ia usar a sigla EaD. Além disso, ainda nesse parágrafo, deveria aparecer o ponto de vista do autor, a respeito do tema: ele considera ou não o EaD uma alternativa viável para o estudo universitário no Brasil?

3º parágrafo:

O terceiro parágrafo deveria iniciar a argumentação a favor do estudo à distância, pois infere-se que essa é a postura do autor do artigo. Entretanto, não é isso que acontece. As explicações dadas não justificam a alternativa EaD como válida, uma vez que se percebe que o aluno não entendeu muito bem como funciona um curso à distância. Este não prescinde a atuação do professor. Pelo contrário, por trás da máquina, há um professor  que preparou as aulas e as transmite à distância para os alunos. O curso não exige a presença do aluno, mas requer estudo, dedicação e realização de exercícios por parte dele, que , em casos de dúvida, tem, sim a quem recorrer. Não é o computador que lhe resolverá as dúvidas, mas uma equipe que preparou a matéria e tem condições de auxiliar o aluno em seus estudos, à distância,  inclusive para monitorar o tempo que ele dispende estudando, diante de um computador.

4º parágrafo:

Este parágrafo apresenta justificativas para o estudo à distância: autonomia na escolha do horário; conforto de estudar sem precisar sair de casa, sem  enfrentar trânsito. Mas não aborda um problema que, com certeza, vai surgir: é preciso muita disciplina para estudar sozinho, sem a presença física do professor e da escola. E o cansaço, certamente, é um ingrediente presente na vida de um estudante à distância, pois ele deve trabalhar ou exercer outras atividades para ter escolhido este tipo de ensino.

5º parágrafo:

Antes do parágrafo final, deveria ter ficado claro por que o EaD seria uma alternativa para o ensino universitário no Brasil. O autor preocupou-se apenas com a comodidade e conforto do aluno, mas não abordou a possível eficácia desse tipo de ensino.

O último parágrafo deve apresentar a conclusão a que se chegou depois de analisar e discutir o tema. Mas não é isso que aparece aqui. Embora o autor tenha esboçado sua conclusão: o mundo moderno exige comodidade e estudar em casa pode ser uma boa alternativa, como o trabalho em casa (home office) que muitas empresas estão adotando, o texto está bastante confuso, impedindo uma boa interpretação da opinião do articulista. Há, inclusive, deslizes gramaticais que comprometem a compreensão do texto. É preciso reestruturar o período, reafirmando sua posição de como o EaD poderia ser  uma boa alternativa para o ensino universitário no Brasil.

NOTA: 5,0 ( escala de zero a dez)

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Categoria: Correção, Redação

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3 fatos sobre a vírgula que você precisa saber

Carolina Vellei | 13/04/2015

A vírgula é, de longe, o sinal de pontuação que mais confunde a cabeça das pessoas. Dependendo de como ela é usada, pode mudar completamente o sentido de uma frase. Um exemplo famoso:

- Não, espere.

- Não espere.

Com vírgula, é um pedido para esperar. Sem vírgula, para que vá embora. Olha só! Uma vírgula pode até salvar um relacionamento ou destruí-lo. Perigoso, hein? ;)

virgula

Depois de ler o resumo do GUIA DO ESTUDANTE com algumas regrinhas do bom uso da vírgula, vale a pena conferir 3 fatos sobre o sinal de pontuação que você talvez não conheça! Vamos lá:

 

- A vírgula não existe para marcar pausas

No livro Guia Prático do Português Correto, o professor Cláudio Moreno explica que a pontuação baseada nas pausas tem origem na Idade Média. Naquela época, o hábito da leitura silenciosa ainda não era uma prática muito comum. O normal mesmo era ler em voz alta, e os sinais de pontuação serviam, por isso, para marcar as pausas e as entonações. Essa norma durou por muitos séculos e vigorou, ao menos no Brasil, até a década de 1960. Se você está no ensino médio agora, a chance de seus pais e avós terem aprendido ainda nesse modelo é grande.

Até por isso, muitas pessoas acabam separando o sujeito do predicado com a vírgula porque entendem que ali está uma pausa. Leia as frases a seguir em voz alta e tente identificar o local em que elas farão uma pausa mais marcada:

- Os quatro jogadores da Seleção Brasileira# chegaram ontem aos Estados Unidos.

- A janela, a porta e a geladeira# foram compradas na loja do meu tio.

A chance de o “respiro” cair onde estão marcados os # é grande (exatamente na divisão entre sujeito e predicado). Como vocês vão ler no próximo ponto, a função da vírgula hoje é bem diferente. Assim como as outras pontuações, ela é usada para orientador o leitor na interpretação do que está escrito.

 

- Colocar vírgula entre sujeito e predicado é proibido? Não é bem assim…

Ao contrário da acentuação e da ortografia, em vez de regras, a pontuação tem um princípio fundamental: ajudar o leitor a processar de forma rápida e correta o que está escrito. Desse princípio surgiram diversos procedimentos que a prática (e não a regra acadêmica) veio refinando ao longo do tempo. A recomendação é que os sinais sejam usados apenas nos locais em que o leitor precise ser avisado de que algo diferente está acontecendo. Isso faz com que ele não perca o fio da meada e tenha uma leitura fluída do texto. Não se recomenda colocar vírgula entre sujeito e predicado ou entre o verbo e seus complementos porque isso só serviria para atrapalhar a leitura.

No entanto, existem algumas exceções que permitem o uso da vírgula quando a intenção é facilitar o entendimento da frase (lembre-se do princípio fundamental!). Por exemplo, quando o sujeito é oracional (representado por uma oração subordinada substantiva). Muitos escritores usam uma vírgula para marcar com mais clareza o fim do bloco do sujeito. O professor Moreno relembra alguns exemplos presentes nas narrativas de Machado de Assis. O escritor realista usa tanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”), como sem (“Quem não viu aquilo não viu nada”).

Outro motivo para usar uma vírgula entre o suj/pred é evitar interpretações incorretas. Veja o exemplo abaixo:

- A pessoa que não lê mal ouve, mal fala, mal vê. (sem a vírgula depois do sujeito – marcado em negrito – existirão leitores que poderão interpretar como “a pessoa que não lê mal”. Colocando a vírgula esse problema desaparece).

 

- Existem 3 situações em que a vírgula antes do “e” é permitida

1 – Quando o “e” liga duas orações cujos sujeitos são diferentes

Ex:

Eu comi o bolo, e Dona Maria foi rezar na igreja. (“Eu” é o sujeito da primeira oração e “Dona Maria” o sujeito da segunda oração)

2 – Quando o “e” introduz a sequência de várias orações ou termos

Ex:

O rapaz se oferece, e pede, e argumenta; a moça vacila, e pensa…

Preciso comprar farinha, e arroz, e feijão, e mandioca.

3 – Quando o “e” integra a expressão “e sim” (com o sentido de “mas”)

Ex: 

Ele não era propriamente um amigo, e sim um falso colega. (Ele não era propriamente um amigo, mas um falso colega)

 

Consultoria:

Guia Prático do Português Correto – Vol. 4 , Pontuação
Cláudio Moreno
Ed. L&PM Pocket

Escreva Certo
Édison de Oliveira e Maria Elyse Bernd
Ed. L&PM Pocket

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Categoria: Dica

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Nova proposta de redação: redução da maioridade penal

Ana Prado | 02/04/2015

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Acompanhando um tema muito discutido nos últimos dias, a proposta desta semana foi tirada da segunda etapa do Processo Seletivo de Avaliação Seriada (PAS) de 2013 da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Leia os fragmentos abaixo:

FRAGMENTO 1

CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
Altamiro Borges

Dados da ONU apontam que uma minoria de países define o adulto como pessoa menor de 18 anos. De acordo com a Unicef, de 53 países, sem contar o Brasil, 42 adotam a maioridade penal aos 18 anos ou mais, o que corresponde às recomendações internacionais de existência de um sistema de justiça específico para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos. Ou seja, a legislação brasileira é avançada por ser especializada para essa faixa etária. Não existe uma solução mágica para os problemas na área de segurança pública que nosso País vivencia. A redução da maioridade penal ou o prolongamento do tempo de internação não passam de uma cortina de fumaça para encobrir os reais problemas da nossa sociedade. A universalização da educação de qualidade em todos os níveis e o combate à violenta desigualdade social, somados a programas estruturantes de cidadania, devem ser utilizados como instrumentos principais de ação em um País que se quer mais seguro e justo. Os dados do sistema carcerário nacional – em que 70% dos presos reincidem na prática de crimes – demonstram que essas mesmas “soluções mágicas” só fizeram aumentar os problemas. O encarceramento das mulheres cresce assustadoramente e, com relação às crianças e aos adolescentes, o que se vê são os mesmos problemas dos estabelecimentos direcionados aos adultos: superlotação, práticas de tortura e violações da dignidade da pessoa humana. Reduzir a maioridade penal é inconstitucional e representa um decreto de falência do Estado brasileiro, por deixar claro à sociedade que a Constituição é letra-morta e que as instituições não têm capacidade de realizar os direitos civis e sociais previstos na legislação. Às crianças, aos adolescentes e aos jovens brasileiros, defendemos o cuidado, pois são eles que construirão a Nação brasileira das próximas décadas. Cuidar significa investimento em educação, políticas sociais estruturantes e, sobretudo, respeito à dignidade humana.

Disponível em: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/05/contra-reducao-da-maioridade-penal.html (Adaptado) Acesso em: 10/5/2013.

 

FRAGMENTO 2

[...] Hoje, uma pessoa com 16 ou 17 anos já é capaz de ter sua personalidade formada, tendo ciência acurada do certo e do errado. Logo, colocar esses marginais na prisão com penas equivalentes aos crimes por eles cometidos não pode ser configurado como um ato de maldade para com um inocente. Além disso, todos sabemos que as instituições que acolhem menores infratores não conseguem ressocializar seus detentos, que muitas vezes saem de lá e são promovidos para as cadeias comuns depois de adultos. O adolescente, em conflito com a lei, ao saber que não receberá as mesmas penas de um adulto, não se inibe ao cometer mais atos infracionais. Isso alimenta a sensação de impunidade e gera crimes que jamais poderiam acontecer. Graças a essa impunidade, muitos criminosos recrutam menores de idade (buchas) para executar suas atividades criminosas. A maioria das pessoas já está cansada de saber que os delinquentes juvenis são os maiores causadores de roubos e pequenos furtos no nosso país, sendo eles presos e logo soltos para voltar para o crime. Como resultado desse sistema, pessoas passam a ter medo de andar na rua. Muitas são as pessoas que sofrem doenças psicológicas em função do pânico que já passaram na mão desses fascínoras, sendo obrigadas a gastar fortunas em tratamentos médicos e psiquiátricos. Logo, toda a nossa sociedade paga caro com a tolerância a esses delinquentes. Enquanto o brasileiro sofre, os bandidos ganham a famigerada bolsa bandido para alimentar a família deles. No Brasil, ser bandido é um bom negócio. Enquanto que o pobre luta para se alimentar, os bandidos nada produzem para se alimentar com o nosso dinheiro. Todo o conforto que eles têm é um luxo se compararmos com o que os pobres miseráveis do Brasil precisam fazer para alimentar suas famílias. Assim, a redução da maioridade penal é apenas o primeiro passo para que possamos criar um país menos acostumado com a imoralidade dos crimes. Não se trata de vingança, se trata de justiça. Não se trata apenas de reduzir a maioridade penal, temos que elevar a moralidade penal.

Disponível em: http://acidblacknerd.wordpress.com/2013/04/25/euvi-reducao-da-maiorida-penal10-motivos-para-ser-a-favor-10- motivos-para-ser-contra/ (Adaptado) Acesso em: 10/5/2013.

Tendo em vista a temática “REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL” desenvolvida nos textos integrantes do caderno de prova e nos fragmentos acima, escreva um ARTIGO DE OPINIÃO, destinado a ser publicado em um blog destinado a estudantes universitários. Você deverá contextualizar o tema, discutir posições e manifestar explicitamente seu posicionamento. O texto deve ter coerência, coesão e argumentação fundamentada. Dê um título criativo. Seu texto deve ter entre 180 e 300 palavras.

Você pode enviar seu texto até quinta-feira, dia 9 de abril, para o e-mail: redacaoguia@gmail.com, em um anexo ou no corpo na mensagem. Coloque seu nome completo, idade e cidade. Ele poderá ser avaliado e publicado aqui no blog. Importante: apenas uma redação será corrigida, mas lembre-se de que a melhor forma de se preparar para a prova de redação é treinando, certo?

 

 

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Categoria: Proposta

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Análise da redação para a proposta “O legado da escravidão e o preconceito contra negros no Brasil”

Ana Prado | 27/03/2015

O vestibular 2015/1 da Universidade Estadual Paulista (Unesp) pediu para os candidatos dissertarem sobre “O legado da escravidão e o preconceito contra negros no Brasil” (leia a proposta na íntegra aqui).

escrevendo_aluno

Leia a seguir texto escolhido:

Ninguém se considera racista, mas conhece algum. É evidente que a sociedade brasileira ainda carrega esse preconceito racial, trazido desde o século XIX, quando a Lei Áurea de 1888 pôs fim a escravidão, mas não a liberdade efetiva dos negros, escravos.

Uma pesquisa realizada em São Paulo em 1988, mostrou que a população brasileira possui um preconceito étnico-racial “mascarado” um “apartheid invisível”, na qual 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito e 98% dos mesmos disseram conhecer outras pessoas que tinham, preconceito. Isso só vem ratificar que mesmo após 400 anos do fim da escravidão ainda somos discriminadores raciais e além de tudo não aceitamos a nossa identidade. Os africanos que chegaram no Brasil no período da colonização influenciaram na cultura, na construção da identidade brasileira.

No século XIX, predominava o ideal de uma sociedade civilizada, que possuía como modelo a cultura europeia -maioria branca- fato que ficou evidenciado com a imigração de europeus para o “embranquecimento” da população brasileira. Esse ideal, portanto, contribuiu para a existência de um sentimento contrário aos negros, sentimento este que se manifestava pela repressão às suas atividades culturais e pela restrição de acesso a certos ramos profissionais.

A naturalização da desigualdade social é tratada no livro A Ralé Brasileira, de Jessé Souza, o autor expõe uma sociedade discriminatória que classifica seres humanos em diferentes categorias, de acordo com sua posição econômica e étnica, marginalizando as pessoas descendentes de africanos, prejudicando-os na ascensão econômica.

 

Comentários da professora de redação do Colégio e Curso Oficina do Estudante, Ednir Barboza: 

COMENTÁRIOS SOBRE A PROPOSTA

Esta proposta de redação convida o aluno a discorrer sobre um tema bastante presente em  nossas relações com o preconceito racial, especialmente, em relação ao negro. A coletânea de textos inspiradores é composta de 4 fragmentos, mais uma foto, que deixam inconteste a presença do preconceito entre brasileiros: camuflado ou não, ele existe! Dos 5 textos, apenas um defende a ausência de preconceito, mas mesmo assim, baseado numa pesquisa que conclui que o preconceito está presente em empresas brasileiras.

A tarefa do aluno era ler, entender e interpretar a coletânea e, a partir daí, criar sua própria impressão sobre o assunto.  Portanto, antes de começar a escrever, o aluno deveria ter formulado sua opinião a respeito do tema: o legado da escravidão e  o  preconceito contra o negro. A primeira conclusão a que se chega ao ler a proposta é que a escravidão deixou marcas indeléveis nesse preconceito velado, mas presente em nossas relações com o negro, no Brasil. E que esse sentimento tem suas origens na escravidão que trouxe africanos para trabalhar de forma sub-humana na lavoura.

AVALIAÇÃO DA REDAÇÃO

Vejamos o texto do aluno que faz uma boa leitura dos textos oferecidos e contribui, também com dados de seu conhecimento próprio. Entretanto, a estrutura do texto, que deve ser dissertativo, peca em alguns aspectos que esclareceremos abaixo.

Afirma no primeiro parágrafo  que “ a sociedade brasileira ainda carrega esse preconceito racial,…” e faz referência à escravidão, ao citar o seu fim com a Lei Áurea. Essa é, portanto, a tese do texto que deverá ser comprovada nos parágrafos seguintes. No segundo parágrafo, o texto argumenta em favor da tese apresentada, mas não traz nenhuma palavra de coesão unindo os 2 parágrafos iniciais. [nesse caso, o parágrafo poderia ter-se iniciado com uma expressão como: isso fica evidente quando se lê uma pesquisa…] é importante lembrar, aqui, que o texto dissertativo precisa ser articulado; as ideias precisam estar interligadas para uma melhor compreensão do todo. Ainda deve-se ressaltar que houve um erro de cálculo ao se afirmar que faz 400 anos que a escravidão terminou legalmente. De 1888 a 2015, temos 127 anos…

No terceiro parágrafo, o aluno continua com sua argumentação esclarecendo a presença do preconceito entre brasileiros, mas também  não há elementos de coesão entre as ideias. O parágrafo poderia ter-se iniciado com : esse sentimento de aversão ao negro, tem sua origem no século XIX, quando predominava…

O último parágrafo, que deveria encerrar o texto, expondo a conclusão a que se chegou após a argumentação, traz um elemento novo- a citação de um autor e seu livro que retrata o preconceito contra os negros. A citação é bem vinda, mas deveria estar entrelaçando os argumentos citados anteriormente não servir como conclusão do texto. A conclusão, numa dissertação, precisa ser o fecho que confirma o que se discutiu no corpo da redação– deve dar conta de retomar a tese e expô-la, no final, já confirmada pela argumentação.

O aluno ainda faz referências ao legado cultural trazido pelos negros, mas abstém-se de desenvolver esse aspecto interessante, que também faz parte da discriminação.

Concluindo a avaliação: é um texto que tinha tudo para ser muito bom: boa leitura da coletânea, acrescida de dados trazido de fora, linguagem adequada e correta (salvo alguns pequenos deslizes), mas que errou na organização e na melhor exploração das ideias. Faltou, também, habilidade em entrelaçar a escravidão ao preconceito, exigência da proposta!

Sugestão: entender a correta estrutura da dissertação e escrever o texto de forma coesa, unindo ideias e conceitos em favor da comprovação da tese, que é o cerne de qualquer texto argumentativo.

Nota: 6,0 (numa escala de 0 a 10)

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Nova proposta de redação: EaD e democratização do ensino superior

Ana Prado | 19/03/2015

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A proposta de redação da semana foi tirada do Vestibular EAD 2014 da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Leia as instruções a seguir:

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi uma das primeiras instituições de ensino superior pública a experimentar a oferta da Educação a Distância (EAD). Em 2012, foi publicado o livro “A prática da Educação a Distância na Universidade Federal do Rio Grande do Norte” e, em sua apresentação, a professora Marta Pernambuco afirma que “A implementação da Educação a Distância, principalmente como forma de escolarização”, gera polêmicas.” Depois, ela faz alguns questionamentos, reproduzidos a seguir:

“É uma forma aligeirada e mais econômica, uma política de governo para ampliar a oferta dos sistemas escolares em diferentes níveis? [...]
Será que as pessoas podem aprender de ‘verdade’ a distância? Sem a presença de um professor? É só um ‘faz de conta’, e o aluno sai dos cursos sem os conhecimentos “garantidos” em um curso presencial?”

Captura de Tela 2015-03-18 às 6.25.02 PM

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir das considerações feitas pela professora e do conhecimento prévio que você tem sobre a modalidade de Educação Superior a Distância, escreva um artigo de opinião, no qual você defenda um ponto de vista em resposta à seguinte questão:

A Educação a Distância é uma alternativa viável para a democratização da Educação Superior de qualidade no Brasil?

Seu artigo deverá, obrigatoriamente, atender às seguintes exigências:

- apresentar explicitamente um ponto de vista, fundamentado em, no mínimo, dois argumentos;

- ser redigido na variedade padrão da língua portuguesa;

- não ser escrito em versos;

- ter entre 180 e 300 palavras.

 

Você pode enviar seu texto até quinta-feira, dia 26 de março, para o e-mail: redacaoguia@gmail.com, em um anexo ou no corpo na mensagem. Coloque seu nome completo, idade e cidade. Ele poderá ser avaliado e publicado aqui no blog.

Importante: apenas uma redação será corrigida, mas lembre-se de que a melhor forma de se preparar para a prova de redação é treinando, certo?

 

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Categoria: Proposta, Vestibular

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Entenda a estrutura da dissertação (e veja como planejar a sua)

Ana Lourenço | 18/03/2015

Um grande sábio já disse: organização é o segredo para atingir o sucesso. Brincadeira, inventei essa frase agora, mas ela não deixa de ser verdade. Assim, se você quer arrasar na redação, uma das primeiras coisas que deve aprender é a organizar e estruturar o seu texto. Não é difícil. ;)

Primeiro, vamos entender como a dissertação funciona. Ela é dividida em três partes: a introdução, o desenvolvimento e a conclusão.

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Introdução

É a parte do texto em que se coloca a ideia-chave, o assunto da dissertação. A partir da ideia principal é que se desenvolve o resto do texto, onde você pode justificar e apresentar fatos que comprovem sua tese.

Atenção: A tese não deve ser confundida com o tema. Ela é uma proposição sobre o tema, um posicionamento claro e fácil de ser absorvido pelo leitor, em torno da qual se desenvolvem os argumentos que tentam comprová-la.

Desenvolvimento

Os parágrafos de desenvolvimento são os que vão dar sustentação à tese apresentada na introdução. É esse o momento de justificar, demonstrar, provar as declarações feitas na introdução. Os parágrafos de desenvolvimento devem ser marcados pela progressão, ou seja, o texto deve ser construído de forma que vá apresentando novas informações, claras e pertinentes. Ou seja, nada de enrolação ou de repetição desnecessária do que já foi dito! Para facilitar sua argumentação, você pode separar o desenvolvimento de cada ideia em um parágrafo diferente.

Mas além de apresentar fatos que fundamentem a sua dissertação, é importante que você também aponte argumentos contrários e que aponte porque, de acordo com a sua tese, eles não são verdadeiros. Afinal, dissertação não é um artigo de opinião, o que significa que as opiniões contrárias também devem ser consideradas.

Conclusão

Parte final do texto. Mas é preciso que uma coisa fique clara: concluir não é simplesmente “terminar” o texto. A conclusão é feita de comentários que confirmam os aspectos desenvolvidos nos parágrafos anteriores. É o momento de oferecer uma solução ou demonstrar algum tipo de expectativa em relação à sua tese e ao assunto como um todo.

Atenção: a conclusão não é o momento de levantar questionamentos que não tenham sido esclarecidos nos parágrafos argumentativos, portanto EVITE frases interrogativas.

Com essas instruções em mente, o segredo do planejamento da redação é já saber exatamente o que vai abordar em cada parágrafo antes mesmo de iniciar o texto. Além disso, compreender quantas linhas você vai ter para desenvolver cada argumento é absolutamente vital para você saber de quanto espaço dispõe para expor cada ideia. Preparamos um esquema básico ideal para uma redação de 30 linhas. Veja:

estrutura-dissertacao

Mas calma! Só porque colocamos aqui que é um esquema ideal, não significa que você precise seguir à risca as quantidades de linhas. Essa orientação é apenas para auxiliar quem estiver perdido e não souber bem quanto espaço utilizar para cada parte do texto. ;)

Fique ligado: O texto bem sucedido constitui um “todo” significativo, ou seja, uma unidade de sentido. Cada parte do texto só faz sentido se colocada junto às outras. Não se trata de reunir fragmentos isolados. Dentro do texto, os elementos devem estabelecer ligação com as partes, ou seja, cada parágrafo precisa estar relacionado imediatamente com o seu anterior, e com o restante. Isso se chama coesão, tanto no sentido gramatical quanto no sentido do conteúdo.

Mas coesão na redação já vai ser tema de outro post do blog. Continue acompanhando! :)

Consultoria

Redação – Manual de sobrevivência para concursos e vestibulares
Juarez Nogueira
Editora Autêntica

Redação de textos dissertativos – Concursos, vestibulares, Enem
Luiz Ricardo Leitão (org.), Manoel de Carvalho Almeida e Manuel Ferreira da Costa
Editora Ferreira

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Chavões e senso comum nas redações: fuja do clichê!

Ana Lourenço | 02/03/2015

“Nos dias de hoje, o problema da saúde é uma das questões mais importantes para o povo brasileiro. A população precisa se conscientizar de seu papel na busca por um futuro melhor para as próximas gerações. Apesar do estado precário dos hospitais do país, os governantes corruptos não se mobilizam e só o que se vê é descaso. Mas deve-se pensar positivo, porque a esperança é a última que morre.”

Esse parágrafo parece um pouco familiar? Será que você já leu algo parecido antes? Sim, com certeza! E, provavelmente, já escreveu algum texto com um conteúdo semelhante. Vou me explicar melhor: esse pequeno trecho está recheado com o que chamamos de clichês, senso comum, chavões ou frases prontas. São frases ou ideias tomadas como “verdades universais”, muito repetidas ao longo dos anos, que acabam se tornando vícios de linguagem. Às vezes, usamos sem perceber, mas os clichês enfraquecem o texto. Um verdadeiro vírus da redação!

Você consegue identificar todos os chavões presentes no parágrafo? Veja a resposta ao fim do post! :D

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Imagem: Thinkstock

O clichê pode se manifestar de várias maneiras. Veja:

1. Frases prontas: são as frases e construções repetidas à exaustão. Exemplos: fechar com chave de ouro, obra faraônica, voltar à estaca zero, era uma vez. Também são incluídos os ditos populares, como “a pressa é inimiga da perfeição”.

2. Expressões: Não necessariamente são escritas sempre do mesmo modo, mas a ideia é sempre a mesma. Exemplos: a população precisa ser conscientizada, a natureza deve ser preservada, o homem deve parar de fazer guerras.

3. Senso comum: são as ideias prontas, já muito batidas, mas transmitidas como verdade incontestável. Entram aqui os estereótipos. Exemplo: todos os políticos são corruptos, asiáticos são inteligentes. É preciso ficar atento, porque às vezes o senso comum e a generalização podem reproduzir preconceitos: muçulmanos são terroristas, portugueses são burros, mulheres dirigem mal.

Mas por que usar esse tipo de frase é prejudicial para o seu texto? Porque a banca corretora preza pela originalidade e pelo senso criativo do candidato. O uso dos chavões deixa o texto vazio, com pouco sentido, e demonstra falta de habilidade do aluno em formular seu próprio argumento.

Quando digo que o clichê demonstra falta de originalidade, não quero dizer que o candidato deva apresentar uma ideia mirabolante. A originalidade em questão é ser capaz de pensar além do senso comum, ser capaz de problematizar o tema da redação e apresentar um novo ponto de vista sobre aquele assunto.

Vou dar um exemplo utilizando o tema da redação do Enem de 2001, que pedia que o aluno escrevesse um texto sobre o conflito entre o desenvolvimento e a preservação ambiental, e como conciliar os dois interesses. Neste texto, o aluno que escreva “é preciso conscientizar a população”, ou “o governo deve encontrar outras formas de desenvolvimento que não envolva o desmatamento” não está acrescentando nada de novo no debate. É claro que a população deve ser conscientizada e o desmatamento deve ser evitado ao máximo, mas esses pensamentos já se tornaram óbvios.

O que um bom texto faz é trazer o debate para outro ângulo, uma nova perspectiva. Mas como fazer isso? É preciso manter-se bem informado e ter bastante repertório cultural. Conhecer diferentes opiniões, especialmente sobre os assuntos mais comentados nos noticiários. Além disso, boa interpretação de texto é essencial, porque a própria coletânea da proposta de redação costuma ser bastante abrangente.

Mas sobre como construir um bom repertório nós já falamos nesse outro post aqui. Dê uma conferida!

Vamos ver agora se você acertou todos os clichês do parágrafo do início do post!

-Nos dias de hoje;
-A população precisa se conscientizar;
-Futuro melhor para as próximas gerações;
-Governantes corruptos;
-Pensar positivo;
-A esperança é a última que morre.

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Categoria: Dica, Redação

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