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Como a Shein escancara os problemas da indústria fast fashion

Gigante chinesa eleva a potências astronômicas o modelo de produção – e isso tem muito a ver com a decisão inicial do governo brasileiro de taxá-la

Por Luccas Diaz
Atualizado em 15 set 2023, 10h54 - Publicado em 23 ago 2023, 12h18

Jodi Opuda, influenciadora estadunidense começa um vídeo de 2021 no TikTok falando: “Eu gastei $900 na Shein“. Sem dizer mais nada, começa a abrir uma caixa de papelão, de onde surgem dezenas e mais dezenas de embalagens plásticas com o logo da gigante online. Com um sorriso no rosto, ela balança a caixa para o alto e as embalagens caem, se espalhando pelo chão, como as cartas de Hogwarts no filme de Harry Potter. “Isso vai ter muitas partes”, brinca a influencer, já prevendo as segundas, terceiras e quartas partes de vídeo que serão necessários para mostrar as 91 peças compradas.

O vídeo de Jodi não é o único deste tipo. Navegando pela tag #SheinHaul no TikTok (não há uma tradução exata para o português, mas o termo traduz a ideia de mostrar produtos comprados na Shein), é possível assistir a milhares de usuários mostrando suas compras na loja online. A quantidade de peças compradas e os preços pagos em cada uma espantam. “Um vestido curto por $8,63”, “essa camiseta oversized foi $6,37″, “escolhi esse vestido roxo por $14,50”.

Loja física da Shein em shopping de São Paulo
Fast fashion chinesa, Shein é sucesso absoluto no Brasil: já chegou até a ter lojas físicas temporárias por aqui (Shein Brasil/Divulgação)

A discussão em torno de lojas como a Shein é complexa: desperta o pesadelo dos produtores nacionais, a fúria dos ambientalistas e, em pessoas do mundo todo, o que há de mais consumista. Também faz pensar no formato das fast fashion e no estilo de vida no capitalismo. O termo em inglês, que em português significa literalmente “moda rápida”, pega carona em outro mais conhecido, fast food. Assim como nas franquias McDonald’s e Burger King, o conceito das fast fashion é vender roupas baratas, de baixa qualidade e que, por isso, são muitas vezes descartáveis. Zara, Forever21 e H&M são alguns dos exemplos mais conhecidos mundialmente; no Brasil, se destacam Renner, Riachuelo e C&A.

O que diferencia a Shein de todas elas é bem simples: a Shein é 100% online, e entrega para mais de 150 países. A primeira loja física foi aberta somente no fim de 2022, em Tóquio, mas segue não sendo uma prioridade da gigante. No Brasil, deu as caras no formato de pop up stores, isto é, lojas temporárias que limitam sua estadia a poucos dias ou semanas. As filas quilométricas, a necessidade de distribuição de senhas, e até mesmo as brigas entre clientes pela mesma peça provam o sucesso da loja por aqui. Atualmente, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de países que mais acessam a Shein no mundo todo.

A febre da loja entre os brasileiros foi um dos motivos que levou o Governo Federal a começar a taxar as peças vendidas no e-commerce – que até então conseguia baratear ainda mais as peças por uma brecha na legislação dos impostos. Neste texto, o GUIA DO ESTUDANTE explica o que são as fast fashions, os riscos que elas representam, e o que está por trás da decisão do governo de taxar as importações da Shein.

Ctrl C + Ctrl V

Cantora Taylor Swift usando peça da grife Balmain, ao lado de peça vendida pela fast fashion americana Nasty Gal
Cantora Taylor Swift usando peça da grife Balmain, avaliado em 5 mil dólares, ao lado, peça vendida pela fast fashion americana Nasty Gal por 78 dólares (Getty Images/Nasty Gal/Reprodução)

Roupas que acompanham as últimas tendências da moda com preços que cabem no bolso. Esta é a ideia de uma fast fashion. Em 2015, a cantora Taylor Swift usou um macacão branco da grife francesa Balmain em uma premiação nos Estados Unidos. A peça havia sido apresentada pela primeira vez na coleção Primavera-Verão 2015 da marca, e ainda não estava à venda nas lojas. Avaliado em torno de 5 mil dólares, o macacão provavelmente foi enviado especialmente para a cantora. No entanto, uma cópia da peça já estava sendo vendida pela fast fashion americana Nasty Gal há meses e, acredite se quiser, a marca chegou a insinuar que a cantora estaria usando o seu macacão – que na época era vendido por US.

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O plágio no mundo da moda é algo complexo. Há quem diga que é uma indústria que se retroalimenta, e as leis de direito autoral parecem vagas. Exemplos como o da cópia do macacão Balmain é só um dos milhares que ilustram como as fast fashion funcionam. E a Shein é a aluna exemplar nesse sentido. Cópias (ou melhor, “inspirações”) de peças de grifes como Prada, Gucci e Versace são vendidas no e-commerce chinês a preços de banana e, muitas vezes, apenas dias depois de serem apresentadas pela primeira vez.

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A técnica do “ctrl C + ctrl V” acontece também nas redes sociais. A empresa conta com mapeadores de tendências que vasculham as redes em busca de possíveis estilos e peças em ascensão. O casamento, inclusive, entre as redes sociais e a loja é um match feito nas estrelas. Se hoje em dia nos deparamos com uma nova tendência de estilo a cada semana no TikTok, fica cada vez mais fácil para a Shein embarcar na onda e produzir as exatas peças que estão no “hype”.

Quer um exemplo? Recentemente, a estética “fairycore” bombou no TikTok: a hashtag acumula mais de 4 bilhões de visualizações. O estilo remete às representações de fadas da Idade Média, ao etéreo, e à cantoras como Florence Welch. No site da Shein, há uma página especial para o estilo, com peças esvoaçantes, de renda e com tons pastel ou terrosos. As modelos das fotos usam orelhas de elfo e posam em cenários naturais. Em uma rápida pesquisa no Google, o mesmo jovem que se encantou com a estética no TikTok vira o consumidor das peças na página especial da Shein. O pesado marketing que a empresa faz já elimina as chances de o consumidor se dar ao trabalho de caçar quais seriam as peças que remetem ao estilo e em quais lojas poderia encontrá-las – a Shein já fez o processo todo e oferece o menor preço.

Printscreen da tela da Shein
Estética “fairycore” tem coleção especial na Shein. Loja mapeia tendências nas redes sociais para a criação de novas coleções (Shein/Reprodução)

Assim, se instala uma tempestade perfeita para o consumismo desenfreado. As roupas seguem tendências instantâneas (que dificilmente durarão até o ano seguinte), são feitas com materiais de baixa qualidade e, por consequência, dispõem de pouca longevidade. Em pouquíssimo tempo, a peça é descartada e o consumidor se vê preso em um ciclo de compras – que contribui para mais exploração dos recursos naturais e mais problemas ambientais causados pelo descarte inapropriado.

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Para se ter ideia, a indústria das fast fashion é responsável por cerca de 10% de toda a emissão de gás carbônico na atmosfera do planeta (o mesmo que os países da União Europeia inteira juntos) e é a segunda que mais consome água durante o seu processo de produção (são necessários 2.710 litros de água para produzir uma camiseta de algodão, por exemplo). Um dos materiais mais usados nas peças, pela flexibilidade e baixo preço, é o poliéster, um tipo de plástico que, segundo dados do Greenpeace, libera de duas a três vezes mais gás carbônico do que o algodão, e que representa cerca de 35% dos microplásticos encontrados no oceano. Estamos falando de uma indústria que anualmente descarta toneladas de lixo o suficientes para cobrir a cidade de Sidney, na Austrália, por completo.

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Estilo e rapidez têm um preço

Galpão de produção de roupas com muitos retalhos no chão e mulheres costurando
Trabalho análogo à escravidão e peças de baixa qualidade são características do fast fashion (Unsplash/Reprodução)

A rapidez com a qual um produto é desenhado, fabricado e disponibilizado na Shein só é possível graças ao seu modelo de negócio – muitas vezes ilegal e nem sempre ético. A fabricante, assim como toda fast fashion, conta com uma cadeia de produção altamente segmentada. Estamos falando de uma hierarquia de trabalho que chega a cargos “quarteirizados” (mais que terceirizados). O processo até uma roupa chegar no consumidor final pode envolver, facilmente, mais de três países. Essa internacionalização do processo de fabricação acontece porque diferentes países possuem diferentes salários mínimos e diferentes direitos trabalhistas.

Em 2021, um relatório denunciou que os funcionários de fábricas da Shein em Guangzhou, na China, estavam trabalhando mais de 75 horas por semana. Para efeitos de comparação, no Brasil, atualmente a carga horária máxima permitida é de 44 horas semanais. Alguns dos funcionários entrevistados disseram na época que trabalhavam três turnos diários e que tinham folga somente uma vez ao mês. E o fato de ganharem por peça produzida só aumentava a pressão.

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“No capitalismo financeiro informacional que vivemos, a terceirização, e até a quarteirização, se tornou uma coisa normal. Temos diretores e pessoas em cargos de prestígio no topo, isolados e com salários altíssimos, enquanto toda a rede de produção abaixo vai ficando cada vez mais precarizada e com salários menores”, afirma Luís Felipe Valle, professor de Geografia da Oficina do Estudante.

Acontece que, quando autorizou a entrada de empresas estrangeiras nas chamadas zonas econômicas especiais, na década de 1970, a China criou o cenário irresistível para essas empresas migrarem suas fábricas. Por baixo de todo “made in China” estavam os baixíssimos impostos, as condições de trabalho exploratórias e o pouco (ou nenhum) controle ambiental. E este padrão é encontrado até hoje. O jogo começou a mudar quando o dragão asiático fez a sua lição de casa e, com a autonomia econômica suficiente, criou suas próprias marcas globais. Xiaomi, Oppo, Lenovo, TCL e Chery são apenas alguns dos exemplos fora da indústria têxtil.

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“Antigamente, o Polo Têxtil de Franca, por exemplo, era um local onde o algodão produzido no Cerrado era transformado em tecido, depois em roupa e, por fim, vendido. Havia até mesmo feirões ali nos pavilhões. Chegou um momento, porém, que comprar uma camiseta já pronta da China ficou mais barato do que fabricar uma no Brasil, mesmo o país sendo um enorme produtor de algodão”, explica o professor.

Protecionismo: a taxação das importações

Funcionários trabalham em centro de destruição do Correios
Centro de distribuição dos Correios: todo produto importado passa pela alfândega antes de ser entregue (Elza Fiúza/Arquivo Agência Brasil/Reprodução)

O sucesso de lojas de importação online como a Shein foi o principal motivo que levou o governo federal brasileiro a acabar com a regra que permitia a compra de produtos importados abaixo de sem taxação de impostos. A medida afeta diretamente o consumidor final: o produto sai mais caro e a tendência é que menos gente compre. “É o que a gente chama de medida de protecionismo”, afirma Valle. “Há várias formas de valorizar o produto nacional, e uma delas é taxando o produto importado.”

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Um importado ao chegar em um país precisa ser taxado pela alfândega antes de ser entregue. O que acontecia era que varejistas online com entrega global, como Shein, AliExpress e Shopee, burlavam a regra de taxação que permitia o envio do produto sem os impostos que um nacional pagaria. “Eles burlavam a regra da taxação quando iam postar o produto, afirmando que o valor era abaixo de $50 ou o categorizando como presente, o que também o isentava de impostos”, explica. Por mais que a mudança na regra tenha causado descontentamento entre os consumidores – que agora verão os preços das lojas de importação subirem –, o professor defende que a medida poderá trazer benefícios.

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“Quando a gente fala na taxação de compras de importados, a gente está falando em competir com empresas que estão instaladas na China, nas Filipinas, na Indonésia e na Índia, por exemplo”, diz. Ele explica que, diferentemente das brasileiras, essas empresas pagam apenas impostos para os governos dos países que estão inseridas. Somando isso à grande competitividade entre elas, temos produtos que, mesmo quando importados para cá, têm preços menores do que os feitos na indústria nacional. “Fica assim muito difícil para as empresas nacionais conseguirem fazer um preço igual ou menor que os das estrangeiras”, explica Valle.

Fachada de loja em shopping anuncia: liquidação
Taxação de importados pode ajudar indústria nacional a se fortalecer e, a médio prazo, baratear preço do produtos (Tânia Rêgo/Agência Brasil/Reprodução)

Desta forma, taxar a importação de itens abaixo de $50 ajuda a deixar o preço desses produtos mais parecido com o preço dos fabricados e vendidos no Brasil. Desenha-se então um cenário onde é possível haver uma competitividade entre os itens nacionais e importados. Em médio ou longo prazo, a economia nacional é fortalecida, mais empresas decidem abrir as portas por aqui, contratam mais trabalhadores no Brasil e o volume de produção e venda nacional cresce, baixando o preço dos produtos nacionais.

“No Brasil, existe essa essa percepção muito enraizada de que qualquer imposto sempre é ruim. ‘Se o meu produto vai ficar mais caro, eu não quero’, mas a gente precisa considerar que, a princípio, esse encarecimento pode fortalecer a indústria brasileira, baratear o produto nacional, fomentar a criação de empregos dentro do país e aumentar o poder de consumo da população”, conclui o professor.

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ATUALIZAÇÃO 15/09/23

Em 14 de setembro de 2023, o governo brasileiro anunciou a certificação da Shein como parte do novo programa Remessa Conforme, que garante a alíquota zero para importações abaixo de U$50. Na prática, as compras feitas por pessoas físicas no ecommerce chinês abaixo deste valor voltam a ter a isenção de impostos, sendo cobrado apenas os Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), já incluído na hora do carrinho. Compras a partir de U$50 continuam recebendo uma alíquota federal de 60% em cima do valor.

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