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Como proteger a saúde mental das armadilhas das redes sociais?

É preciso criar o hábito de parar de rolar o feed e prestar atenção no que está consumindo e o que aquilo causa em você

Por Juliana Morales - Atualizado em 2 out 2020, 19h24 - Publicado em 3 out 2020, 07h05

O contexto de pandemia intensificou as relações com a tecnologia. Por um lado, deu um certo alívio conseguir dar andamento a muitas das nossas atividades no ambiente virtual, como eventos e palestras. Por outro, a nossa saúde mental que lute para lidar com todas essas novas informações, a sensação de nunca desconectar e com todo o caos do momento atípico. É preciso falar de redes sociais e saúde mental.

Um dos pontos preocupantes abordados, inclusive, no recente e muito falado documentário da Netflix Dilema das Redes é a tecnologia persuasiva e seus impactos negativos. O filme, que ouviu ex-funcionários de empresas de tecnologia, explica que as redes sociais usam uma técnica de design baseada no conhecimento psicológico do comportamento humano. As plataformas são desenhadas para mudar gradativamente o comportamento dos usuários, fazendo com que sintam uma necessidade de consumir, infinitamente, o conteúdo que passa na tela de seus celulares.

O resultados desse hábito inconsciente são efeitos colaterais que muitos jovens conhecem bem: ansiedade, depressão, distúrbio do sono, arritmia, estresse, dependência, entre outros males.

Uma pesquisa realizada pela instituição de saúde pública do Reino Unido, Royal Society for Public Health, em parceria com o Movimento de Saúde Jovem, mostrou que 90% das pessoas entre 14 e 24 anos usam redes sociais, mais do que qualquer outro grupo etário. Ao mesmo tempo, as taxas de ansiedade e depressão nessa parcela da população aumentaram 70% nos últimos 25 anos.

Mas como proteger a saúde mental das armadilhas das redes?

Não existe uma resposta “milagrosa” para resolver todo o problema, que é grande e complexo. Muitos especialistas e estudiosos falam de ações no âmbito público e privado para conter o avanço desenfreado das ferramentas de manipulação algorítmica das redes sociais, como a necessidade de regulamentações que exijam transparência das grandes companhias de tecnologia.

No documentário da Netflix, Tristan Harris, ex-designer ético do Google, fala sobre a necessidade de a sociedade pressionar as empresas por melhorias: “Podemos exigir que esses produtos sejam feitos de forma humanizada. Podemos exigir não ser tratados como fonte de extração”.

Mas nem tudo está nas mãos de outras pessoas. São essenciais ações individuais, em que cada um impõe limites na maneira e tempo de uso das plataformas. Tristan Harris, em entrevista à revista Veja, reafirmou o conselho: “Se você puder sair das redes, saia”. Porém, a possibilidade de se desconectar completamente é distante para a maioria, levando em consideração o histórico e o contexto que a sociedade está inserida. Simplesmente sair e perder um contato mais próximo, ainda que virtual, com os amigos ou deixar de ver conteúdos bacanas (vale fazer propaganda do Insta do GUIA?) pode não ser a melhor alternativa.

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Desativar ou diminuir as notificações no celular e desinstalar aplicativos que consomem muito tempo, sem agregar coisas úteis, são alguns conselhos vindo do próprio filme. Também é importante abandonar o hábito de  ficar rolando pelo feed e passar a prestar atenção ao que está consumindo – e, especialmente, aos sentimentos que isso desperta em você.

Outra ação importante é limitar quando e onde utilizar as redes sociais. Nas configurações dos próprios celulares e redes sociais, é possível checar o tempo que você está ficando conectado. Olhe esse número e repense o uso das horas do seu dia. Há também aplicativos que bloqueiam por um tempo as redes sociais – ou seja, a saída pode estar na própria tecnologia! E, claro, sempre que der, tenha dias de “detox”, sem entrar nas redes.

Geração Z

Os integrantes da Geração Z, que corresponde a quem nasceu a partir de 1996, são as principais vítimas do problema das redes, pois já nasceram na era dos likes. Apesar da imersão virtual, discussões sobre o tema têm chegado aos jovens de alguma forma. A mais recente pesquisa Digital Society Index (DSI), publicada pela empresa de mídia Dentsu Aegis Network, revela como pessoas de 18 a 24 anos estão assumindo a tarefa de reduzir sua atividade online. Realizado no auge da pandemia, o estudo mundial foi feito com 32.000 pessoas e analisou mais de 5.000 Gen-Z’ers.

O levantamento mostra que, apesar dos bloqueios que levaram a um aumento da atividade online, um quinto (17%) dos Gen-Z’ers desativaram suas contas na mídia social nos últimos 12 meses. Esta tendência é particularmente perceptível em toda a Europa, incluindo os finlandeses (34%) e os espanhóis (30%). Globalmente, um terço (31%) limitou o tempo gasto online ou olhando para o smartphone e quase metade (43%) tomou medidas para reduzir a quantidade de dados que está compartilhando online, tais como limpar seu histórico de busca ou optar por sair dos serviços de geolocalização.

Bom para a cabeça

A saúde mental é uma das grandes preocupações que motivou os jovens a diminuir o uso das plataformas. Quase metade da Gen-Z acredita que o uso pessoal da tecnologia tem um impacto negativo em sua saúde e bem-estar – isto é particularmente forte na Espanha (59%), na Austrália (55%) e na França (53%).

O uso de dados pessoais pelas empresas é outro motivo. Mais da metade dos Gen Z’ers (58%) não confia nas empresas de tecnologia por causa das preocupações sobre como utilizam seus dados, enquanto quatro em cada dez (37%) acreditam que a mídia social está tendo um impacto negativo sobre o discurso político em seu país. Esta visão é mais elevada na Hungria (56%), que vive um regime com tons autoritários, seguida da Austrália (50%) e dos EUA (48%), que foram questionados em 2016 por campanha suja nas redes.

Mesmo com essas preocupações, dois terços (62%) dos jovens entrevistados estão otimistas que as tecnologias digitais ajudarão a resolver os desafios mais urgentes do mundo. 

Seja como for o futuro das redes, no presente, é preciso desligar o modo automático na hora de clicar em um anúncio, rolar o feed, ver stories. Conscientes de como a tecnologia pode ser atraente, é preciso consumir e se perguntar: “por que estou fazendo isso?” e “como me sinto?”.

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