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Como será Cuba sem a família Castro?

Não se esperam, por ora, grandes mudanças políticas na Ilha, mas as reformas econômicas devem continuar

Por Danilo Thomaz Atualizado em 22 abr 2021, 16h07 - Publicado em 22 abr 2021, 07h03

 Na semana passada, durante o primeiro dia do 8º Congresso do Partido Comunista de Cuba, o ex-presidente cubano Raúl Castro, que governou o país entre 2008 e 2018, anunciou que deixaria a presidência da sigla hegemônica no país desde a revolução de 1959. Com sua aposentadoria, a velha guarda revolucionária deixa efetivamente o comando, entregando o poder à nova geração. Em seu lugar, assume Miguel Díaz-Canel, que governa a ilha desde 2018.  

Apesar de seu caráter simbólico, a aposentadoria do irmão de Fidel Castro (1926-2016) não deve, no entanto, ter grande impacto político e econômico. Isso porque o novo presidente do PCC deve seguir com as reformas econômicas que vinham sendo implementadas desde 2008, quando Raúl sucedeu o irmão, em um contexto de grave crise econômica para a ilha, última colônia do império espanhol. 

O GUIA ajuda você a entender melhor o que está em curso em Cuba, especialmente do ponto de vista econômico, e resgata a história da ilha caribenha.

Da Revolução Cubana de 1959 até a década de 1990

O movimento que depôs Fulgencio Batista, aliado dos Estados Unidos, levou a uma transformação do país do ponto de vista social, promovendo uma igualdade no acesso a educação, cultura e saúde pública de qualidade. No entanto, diferentemente da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da Coreia Norte, o país não deu um impulso industrializante. Manteve-se uma economia baseada no setor agrário e de serviços – e muito dependente da URSS.  Com o fim do bloco socialista, fundamental para sua sobrevivência, e os embargos americanos – que começaram a ser implementados em 1960, durante a Guerra Fria –, a ilha entrou em grave crise econômica.

Em 2008, ao suceder o irmão, Raúl Castro deu início a importantes reformas econômicas, entre elas a venda de carros (eram famosas as imagens de Cuba com carros antiquíssimos da antiga URSS) e imóveis; uma nova onda abertura de pequenos negócios, ainda dentro de restrições; e o acesso à internet, que deram novo impulso à economia. A chamada “onda rosa” na América Latina, com a ascensão de uma série de governos progressistas, também foi importante no período. A Venezuela, antes da crise, por exemplo, fornecia gasolina subsidiada a Cuba. 

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Foi na gestão de Raúl Castro também que houve a reaproximação história entre Cuba e os Estados Unidos, durante o governo de Barack Obama. Isso, porém, sofreu um grave retrocesso com a ascensão de Donald Trump,  em 2016, que impôs uma série de novas sanções econômicas à ilha, o que colaborou muito para agravar sua crise econômica. hostilidade entre os dois países, que só recompuseram as relações diplomáticas em 2015, deve arrefecer nos anos Joe Biden, que foi vice de Obama.

  • Reforma cambial 

    No final de 2020, o já então presidente Miguel Díaz-Canel deu início à mudança econômica mais desafiadora: a unificação das duas moedas cubanas. Desde 1994, no auge da crise, a ilha contava com duas moedas: o peso cubano, valendo 0,04 dólar, e o peso conversível (CUC), em paridade com o dólar (1 CUC = 1 dólar). A primeira era utilizada pelo governo para o pagamento de salários e serviços; a segunda, pelo setor turístico, braço importante da economia cubana. A criação desse sistema foi uma forma de estabilizar e impulsionar a economia nos anos 1990, mas levou a disparidades sociais, como a diferença de renda entre funcionários e aposentados do setor público, fundamental na economia cubana, e trabalhadores autônomos ou proprietários de pequenos negócios voltados para os turistas. Diante da escassez de produtos, aqueles que tinham acesso ao peso conversível – ou seja, ao dólar – acabavam tendo mais poder de compra, sobretudo no mercado paralelo.  

    Com a unificação, no início de 2021, o peso conversível deixa de circular e 1 dólar passa a valer 24 pesos cubanos. A medida, que vem acompanhada por outras ações, pode ajudar a impulsionar a economia cubana, por meio do investimento estrangeiro, por exemplo. Mas traz também desafios. A principal preocupação do governo é com a inflação diante do cenário de escassez e de uma única moeda em circulação, desvalorizada em relação ao dólar. Isso deve corroer ainda mais o poder aquisitivo da população.  

    Cuba Libre? 

    As reformas econômicas que vêm sendo adotadas e aprofundadas em Cuba não significam, porém, que o país vá sofrer uma revolução liberal. O processo de abertura da economia e expansão do setor privado, como ocorre na China e no Vietnã, deve continuar a ser conduzido pelo Partido Comunista Cubano. Há, no entanto, pressões, como uma nova oposição. As transformações econômicas devem gerar novas demandas sociais e políticas, que podem desafiar a postura por ora conservadora do novo governo de Cuba. 

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