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O que é o movimento antifa?

O antifascismo é quase tão antigo quanto o próprio fascismo. Mas muita coisa mudou desde a década de 1930

Os Estados Unidos vivem uma nova onda de protestos que tem gerado certo temor entre as autoridades. O que começou com uma manifestação concentrada na cidade de Minneapolis, em reação ao assassinato de George Floyd, homem negro que foi asfixiado por um policial branco, espalhou-se em protestos radicais por 75 cidades, segundo levantamento do jornal The New York Times. A repressão policial e dos governantes também se acirrou: a maioria dos municípios decretou toque de recolher e mais de 1.600 pessoas foram presas nos primeiros seis dias de manifestações. 

Mas foi na noite do último domingo (31), quando manifestantes bateram às portas da casa do presidente, que as autoridades americanas apressaram-se em encontrar um responsável para pagar a conta dos protestos: em sua conta no Twitter, o presidente Donald Trump atribuiu a organização e violência dos protestos aos anarquistas e integrantes do movimento antifa, que ele agora ameaça classificar como “terrorista”. O FBI também se pronunciou por meio de uma nota. Segundo o secretário de Justiça, William Barr, os organizadores do protesto já estão sendo investigados:  “A violência organizada e conduzida pelo antifas e outros grupos similares e o terrorismo interno serão tratados como tais”, escreveu.

Embora tudo aponte que a teoria do presidente não é de todo verdade – já que as manifestações mostram-se bastante difusas, com adesão diversa e com caráter inicialmente pacífico em muitos lugares – o apoio que demonstraram ao movimento “Black Lives Matters” (“vidas negras importam”) nos últimos anos leva a crer que os antifas estão, de fato, participando de alguma forma dos protestos, mas não na posição de liderança em que o presidente os coloca. Para evitar a acusação inconsistente, bastava que Trump fizesse um resgate à história do movimento.

Uma história tão antiga quanto o próprio fascismo

Para entender o movimento antifascista nos Estados Unidos ou em qualquer parte do mundo, é preciso voltar à Alemanha de 1932, à época da ascensão de Hitler. O primeiro grupo a se denominar como tal, o Antifaschistische Aktion, surgiu especialmente por iniciativa do Partido Comunista Alemão com o objetivo mais amplo de formar uma aliança entre as “esquerdas” – especialmente com os social-democratas – chamada Frente Única, impedindo assim o avanço do nazismo. Como bem sabemos, fracassaram. 

Foi somente na devastada Alemanha pós-guerra, em 1945, que o movimento antifascista deu sinais que não estava morto, mas somente esteve adormecido nos galpões de fábricas e conjuntos habitacionais. “Camadas mais largas [de trabalhadores] evitaram o perigo, mas foram capazes de manter os valores e memórias do movimento operário vivos em seus grupos de amigos, locais de trabalho e conjuntos habitacionais”, afirma o historiador Gareth Dale em seu texto Like Wildfire”? The East German Uprising of 1953. Esses grupos de trabalhadores intitulavam-se Antifaschistische Ausschüsse (“comitês antifascistas”) ou Antifaschistische Aktion, que passou a ser comumente traduzido como simplesmente “Antifa”. 

Eles continuaram a usar algumas táticas pensadas antes da guerra pela Frente Única, assim como mantiveram a bandeira desenhada pelos designers Max Kleison e Max Gebhard, membros da Associação de Artistas Visuais Revolucionários. As cores da bandeira estão ligadas à união do anarquismo (representado pelo cor preta) ao socialismo (em vermelho).

A diversidade de frentes políticas não se dava apenas em teoria. Nos anos seguintes, até por volta de 1951, grupos antifas espalharam-se por toda a Europa e, segundo Loren Balhorn, editor na revista Jacobin alemã (uma revista socialista com edições em diversos países), suas fileiras contavam não apenas com antigos membros do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e do Partido Comunista da Alemanha (KPD), como também com pessoas de organizações de trabalhadores católicos e outras forças. Eles foram, por um breve período, uma peça importante em governos provisórios do pós-guerra.

Embora os antifas tenham, desde sempre, a cultura do embate direto, como a “caça” aos nazistas, eles também lutavam para expulsar ideais fascistas da burocracia alemã. Por isso, o auge do movimento é considerado o período entre o fim da guerra, com a derrota dos nazistas, e 1951. Depois disso, com a influência crescente dos Aliados na reconstrução dos países no pós-guerra e o acirramento do cerco contra o comunismo, durante a Guerra Fria, os grupos antifas foram gradativamente perdendo espaço. Para completar, surgiram conflitos internos entre as diferentes frentes de esquerda que compunham o movimento, culminando na saída dos social-democratas. Em 1956, os antifas (ao menos no formato que existiam até então) desapareceram de vez, acompanhando o banimento do Partido Comunista na Alemanha Ocidental.

Os novos antifascistas

Loren Balhorn explica em A História Perdida dos Antifas: o Popular Movimento Antifascista, publicado na Jacobin,  que os antifas aos quais nos referimos hoje (e que Trump classifica como “terroristas”) não estão diretamente conectados aos antigos grupos alemães. Segundo ele, os novos antifas são muito mais um resultado do movimento autonomista da década de 1980, uma corrente da esquerda europeia que surgiu em oposição à burocracia do Estado e pregava a autogestão e descentralização do poder. Desde então, as pautas centrais tornaram-se o combate a políticas de extrema-direita, ao neonazismo, à xenofobia e ao racismo. 

E se antes eles representavam uma união consciente entre vários grupos políticos, hoje são um movimento profundamente heterogêneo e vago em sua organização. É justamente por essa estrutura pouco organizada, sem líderes, sede ou outras características que lhes permitam coordenar grandes movimentos que é pouco provável que Donald Trump coloque sua ideia no papel e os classifique legalmente como um grupo terrorista.

O que querem os antifas

É importante lembrar, no entanto, que embora o antifascismo derivado da década de 1980 não conte mais com a estruturação que tinham aqueles grupos do pós-Segunda Guerra (justamente por defenderem a autogestão e outros pressupostos autonomistas), esse movimento não deixa de ter uma carga política. Ou seja, os grupos minimamente estruturados que reivindicam o título de antifa abarcam uma série de valores e estratégias de combate ao fascismo em todas as suas formas. A respeito disso, Silvio Almeida, jurista doutor pela USP e professor em direito político na Universidade Mackenzie, defendeu nesta segunda-feira (2) em seu perfil no Twitter: “Ser antifascista não é somente ser contra a violência dos fascistas, mas ser contra tudo a que o fascismo dá suporte e sentido. Assim, ser antifascista é ser contra a economia do fascismo, o direito do fascismo, a cultura do fascismo. A luta antifascista é uma luta existencial”.

Portanto, embora os antifascistas façam frente a governos de extrema-direita, como o do presidente americano, o que eles almejam não é fazer oposição a eles na política institucional, ocupando cadeiras no Congresso, por exemplo. Tampouco resumem sua luta apenas à queda de alguns políticos. Sua atuação costuma ser mais direta e visa a expor também indivíduos e empresas que alimentam um sistema econômico considerado por eles fascistas – o que explica, por exemplo, a depredação de lojas e agências bancárias nos protestos. Os grupos antifas se classificam, em geral, como anticapitalistas. Além disso, atuam para interromper e boicotar eventos de empresários ou grupos que defendam ideais de supremacia branca. Um exemplo é o embate ocorrido na marcha racista de Charlottesville em 2017, quando os antifas e outros grupos entraram em confronto com os manifestantes e uma mulher morreu depois de ser atropelada por um simpatizante do nazismo.

Por fim, é importante destacar que o antifascismo não se resume apenas ao enfrentamento físico em manifestações, e muitos grupos antifas dedicam-se a outros trabalhos “de base” em camadas populares, por acreditar que o fascismo se manifesta em outros setores da sociedade e não se resume a uma questão de valores morais, como explica a socióloga Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia pela Universidade Carleton, do  Canadá, e especialista em estudos marxistas. 

As manifestações no Brasil e as torcidas antifascistas

Aposto que, nos últimos dois dias, a timeline de muita gente pipocou de fotos de perfil com filtros, correntes e até memes com a bandeira antifascista. Entre piadas e sermões sobre a banalização do tema por aqui, fica difícil precisar, com exatidão, a presença do movimento antifa no Brasil e como ele atua no país. Mas se a eleição de Donald Trump é tida como o estopim para o crescimento desses grupos nos Estados Unidos, há quem diga que a ascensão de Jair Bolsonaro por aqui teve efeito parecido. Ao menos dentro dos estádios.

Uma reportagem do El País publicada no final de 2019 mostrou que, com exceção da Ultras Resistência Coral, torcida do Ferroviário criada em 2005, todas as outras dezenas de torcidas de futebol antifas surgiram a partir de 2014, quando Bolsonaro venceu as eleições como deputado mais votado no Rio de Janeiro e despontava como um possível candidato à presidência. Foram essas torcidas (entre outros setores, é claro) que tomaram a Avenida Paulista em um ato no último domingo (31), em defesa da democracia e contra o fascismo.

Embora essas torcidas antifas não atuem exatamente como os grupos europeus ou americanos, suas pautas centrais e algumas estratégias as aproximam. Ainda segundo o texto do El País, muitas delas identificam-se como coletivos, e o time funciona como pano de fundo para discussões políticas sobre homofobia, racismo, machismo e até o capitalismo. Além disso, existe uma forte atuação de base junto aos movimentos negro, feminista e em defesa do trabalhador. A torcida antifa do Internacional, por exemplo, presta apoio ao Quilombo Lemos, um quilombo urbano em Porto Alegre que sofre ações de reintegração de posse.

No “país do futebol”, o movimento antifascista está sendo puxado por torcedores.