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Como é feito um livro didático

Alvo de críticas de movimentos como o Escola Sem Partido, ele segue uma base comum para compartilhar conhecimentos básicos com os estudantes

Por Luccas Diaz 12 mar 2021, 16h04

Na última quinta-feira (11), a professora Sandra Ramos foi escolhida pelo Ministério da Educação para coordenar a área de produção de materiais didáticos na rede de ensino público. Ramos, que atua no Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal do Piauí (UFPI), é aliada do movimento Escola Sem Partido e chegou a defender que os estudantes devem aprender sobre criacionismo, além da teoria da evolução proposta por Darwin, para entender a diversidade de espécies no planeta.

A nomeação da professora causou discussões sobre a função e os limites dos livros didáticos no ambiente escolar. Para entender melhor como são produzidos esses materiais tão importantes na educação das crianças e jovens brasileiros, o GUIA conversou com dois autores .

“Um assunto como a Covid-19, por exemplo, poderia demorar anos até entrar em uma obra didática antigamente. Hoje, esse diálogo com a realidade é muito mais rápido. O estudante tem que se identificar e conseguir reconhecer o que vê nas obras. Não pode ser algo distante e estranho para ele”, afirma o professor Alfredo Boulos Júnior, autor dos livros de História da editora FTD Educação.

“O livro didático, seja ele em formato impresso ou digital, deve ser entendido como um instrumento pedagógico. Ele se difere da lousa, do caderno, do lápis ou de outros materiais, porque carrega em si um conhecimento em potencial”, diz o professor Joamir Souza, autor de Matemática também da FTD Educação.

Como é feita a seleção de conteúdos dos livros didáticos?

Alunos em sala de aula
Alunos da Escola Municipal Abílio Gomes, na capital pernambucana, usam livros didáticos que podem ser proibidos pela Câmara de Vereadores Sumaia Vilela/Agência Brasil

A maior função dos didáticos é agrupar um conjunto de conceitos e atividades. Mas não é só isso. “O livro didático, de reconhecida qualidade, apresenta informações relevantes e confiáveis, uma vez que, nas diversas etapas de sua produção, são submetidas a análises e confirmações”, explica Souza.

Os conteúdos abordados em uma obra devem obedecer à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento é o responsável por definir quais conteúdos devem ser ensinados e em qual momento do Ensino Infantil ao Ensino Médio. O objetivo do documento é padronizar os conteúdos programáticos das escolas, o que antes era feito de acordo com cada instituição.

Discussões sobre o critério de seleção e a abordagem dos conteúdos são acaloradas desde a homologação do programa, feita pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017. Uma das polêmicas é a discussão de questões relacionadas a estereótipos de gênero no ambiente escolar. Segundo o Escola sem Partido, o tema não deveria ser tratado em sala. Outros pontos, como a disciplina de Filosofia ter deixado de ser obrigatória, se juntam a questionamentos se a BNCC traz algum tipo de limitação aos assuntos abordados em classe.

O professor Boulos defende a eficácia da BNCC na elaboração dos livros didáticos. Ele diz que o documento é uma forma de nortear a seleção dos conteúdos que entram nas obras. “Não é tão engessado quanto parece. É possível ter diferentes linguagens e abordagens entre um livro e outro. É um documento muito bem cunhado e que tem melhorado muitos nos últimos anos”, afirma.

Boulos atribui essa melhora na qualidade da BNCC a anos de aproximação entre os conteúdos ensinados na escola e os pesquisados na academia. Segundo ele, “antigamente, as pesquisas feitas pelas universidades ficavam presas àqueles ambientes, não havia uma comunicação entre os dois mundos”.

O professor Souza esclarece que não é apenas a BNCC que delimita os conteúdos de um material didático. “Na produção dos livros para a rede pública, existem diversos itens a serem observados no edital publicado pelo MEC. Esses itens versam em diferentes searas, desde questões técnicas, como a quantidade de páginas, até conteúdos e abordagens recomendadas”, diz.

A distribuição dos livros didáticos na rede pública é feita através do Programa Nacional de Livros Didáticos (PNDL). Graças ao programa, todos os anos cerca de 150 milhões de livros didáticos circulam por mais de 140 mil escolas brasileiras e chegam a 40 milhões de estudantes de forma gratuita. O PNDL é considerado o segundo maior programa de distribuição de livros do mundo, ficando atrás apenas da China. Para saber mais sobre como ele funciona, você pode ler uma matéria que o GUIA fez sobre o assunto.

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Processo de criação

Todo e qualquer livro publicado precisa passar por uma série de processos antes de chegar às mãos do leitor. O processo é minucioso, quando se trata de livros educacionais, é preciso uma dose extra de cuidado. Segundo o professor Souza, uma coleção de livros didáticos de Matemática em primeira edição para o Ensino Médio, por exemplo, demora cerca de 3 anos para sair.

“Depois do planejamento, de maneira resumida, existem as etapas de escrita dos originais, edição, ilustração, diagramação, revisões de texto, conferências de resposta e impressão. Essas etapas são dinâmicas e algumas delas se repetem no processo”, explica.

Por mais que os assuntos já tenham sido abordados por milhares de outros autores e outras obras, os livros didáticos são escritos do zero. De acordo com o professor, os autores começam a fase de escrita a partir de uma conversa com os editores. “Costumamos dizer que vamos ‘tirar o branco do papel’”.

Souza explica que o processo de escrita, por mais que seja semelhante entre os autores, varia de professor para professor. “Eu, por exemplo, antes de começar a escrever junto com a equipe autoral, procuro planejar todo material ou boa parte dele: determinar e delimitar o que será tratado em cada página”, diz. Além disso, é necessário estabelecer um rígido cronograma, em busca de definir os elementos e as seções que vão compor o livro.

O processo pode parecer solitário, mas ele garante que não é. “Se considerarmos todas as etapas de produção, são dezenas de profissionais”, diz. Ele afirma que, além da etapa autoral realizada pelos escritores, existe uma cadeia de profissionais, como editores, diagramadores, revisores de texto e ilustradores, que vai trabalhando simultaneamente. “Todas essas partes demandam tempo e esforço, o que necessariamente passa por muito tempo de pesquisa”.

Tem censura?

Livros sendo queimados
A censura de livros didáticos é uma preocupação de profissionais da educação Movidagrafica/Pixabay/Reprodução

A abordagem nos livros pode variar de acordo com o estilo dos autores ou da linha editorial da coleção, mas as editoras buscam sempre seguir os padrões indicados por documentos como BNCC. Ainda assim, não é difícil ver casos de censura em certos assuntos. “A informação é o principal insumo na produção do livro didático. Sempre que trazemos uma informação para a obra, fundamentamos com pesquisa em uma ou mais fontes confiáveis. Por exemplo, ao trazer algum dado estatístico sobre a população brasileira, o IBGE costuma ser um ótimo referencial”, diz Souza, que afirmou nunca ter sofrido qualquer tipo de censura em seus livros.

A legitimação das informações apresentadas é uma das principais preocupações dos autores e editores. Segundo o professor Boulos, esse é um dos fatores que evidenciam os bons livros didáticos. “É preciso conversar com a realidade. Nunca sofri censura por isso, mas é inegável que tenho uma abordagem pacifista em minhas obras”, admite. Segundo ele, é comum em seus livros uma defesa de elementos como a democracia e a liberdade. “Você não vai encontrar em um livro meu, por exemplo, uma explicação sobre alguma guerra que a justifique ou que, de alguma forma, incentive a violência”, diz Boulos.

Membros de grupos conservadores ou de ultradireita frequentemente condenam livros didáticos que abordem questões consideradas “ideológicas”. Um dos mais famosos é o Escola sem Partido, que luta contra a “doutrinação ideológica” que ocorre dentro das escolas. No site, o programa defende que “a imensa maioria dos educadores e das autoridades, quando não promove ou apoia a doutrinação, ignora culposamente o problema ou se recusa a admiti-lo, por cumplicidade, conveniência ou covardia.”

Amor pelo conhecimento

Os dois professores concordam quando afirmam que todos os desafios e horas de dedicação são recompensadas pelo amor ao ensino. “Sou professor de Matemática e acredito que nossas vivências em sala de aula, na relação com os estudantes, são fundamentais para os livros”, afirma Souza. “No fim, o objetivo é que o livro didático possibilite aos estudantes e professores a melhor experiência possível no processo de ensino e aprendizagem”.

O professor Boulos relembra como se sentiu na primeira vez que viu um estudante com um livro seu. “Eu me escondi no cantinho e comecei a chorar. Ver na mãozinha dele um livro que eu havia ajudado a escrever e saber que eu estava fazendo parte da sua educação… Foi um momento muito marcante para mim”, conta.

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