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Como a ascensão da China muda a geopolítica dos EUA

Gigante asiático é o primeiro rival de peso para o país desde o fim da Guerra Fria

Por Danilo Thomaz 23 jun 2021, 16h15

Recentemente, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos no governo Obama, a Democrata Hillary Clinton, disse em uma entrevista que era preciso “retomar a produção”, reindustrializar o país para que não ficasse novamente à mercê da indústria chinesa, como aconteceu no auge da pandemia, em 2020. Naquela ocasião, o país que já correspondeu por metade da produção industrial do mundo ficou à mercê do gigante asiático até mesmo para a importação de máscaras. 

 Mas o que a declaração de Hillary significa sobre a política internacional americana? Ela mudará nos anos Biden na comparação com os anos Trump? Vamos relembrar o histórico da questão. 

 Até a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da URSS, em 1991, o grande inimigo estadunidense era o mundo socialista. Por mais que a China também estivesse governada por um partido comunista desde 1949, o gigante asiático não fazia parte da Guerra Fria que dividia o mundo entre um polo liberal e capitalista e um mundo socialista. Tanto é que as empresas americanas, em busca de salários mais baixos, mudam suas matrizes industriais para a China a partir da década de 1980 – contribuindo para o salto industrial do país. 

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Durante mais de três décadas, não houve animosidade entre os dois países. Primeiro porque a economia chinesa não apresentava uma concorrência à americana nos anos 1990 e na maior parte dos anos 2000. O país ganhou peso de fato após a crise de 2008, quando a sua estratégia de recuperação ajudou a reerguer a economia global.  

 A crise de 2008 revelou também a profunda desigualdade e situação de precariedade de antigas cidades industriais dos Estados Unidos e seus trabalhadores. O assunto tornou-se temas de livros como “O Sequestro da América”, de Charles Ferguson, diretor do premiado documentário “Inside Job”, e “Desagregação”, de George Packer. Essa situação de precariedade começou a gerar revoltas simbolizadas por movimentos como o Tea Party e o Occupy Wall Street.  

 Esse ciclo de revoltas foi um dos fatores que levou à eleição de Trump e à promessa de uma América Grande Outra Vez. Por isso, entenda-se: um país industrializado, que gere empregos. E aí começa a guerra contra a China. 

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 Para fazer frente ao país asiático, Trump adotou uma série de medidas e sanções dentro e fora dos Estados Unidos. No final do mandato Trump, por exemplo, três empresas chinesas foram retiradas da Bolsa de NY. Além disso, aplicativos do país são proibidos dentro dos Estados Unidos. 

 Essa pressão repercutiu mesmo dentro do Brasil. O caso de maior repercussão foi a batalha americana contra a adoção da tecnologia chinesa 5G em países como o Brasil. Para tanto, os Estados Unidos se ofereceram até mesmo para financiar redes para implantar a versão americana do 5G no Brasil.  

 O governo Biden, recentemente, anunciou novas sanções, proibindo que empresas e investidores americanos ajudem a financiar ou mesmo detenham ações de determinadas companhias chinesas. Sobretudo na área de defesa. Uma dessas empresas é a Huwaei – sim, a que fabrica o 5G. 

 Além disso, o atual presidente lançou o maior pacote econômico da história dos Estados Unidos, o chamado “Bidenomics”, que pretende reindustrializar o país, gerar empregos qualificados, investir em novas tecnologias e recuperar a massa salarial americana. O objetivo, segundo especialistas, não é apenas reerguer a economia estadunidense no pós-pandemia, mas fazer frente à China – que pretende criar uma classe média de 700 milhões de pessoas, mais que o dobro de toda população dos Estados Unidos e tem investido em tecnologia verde 

 China e Rússia 

Os dois gigantes nunca foram aliados históricos. Nem mesmo na época da Guerra Fria. A aliança estabelecida entre o governo Xi Jinping e Putin é, além de uma novidade na história, um problema para os Estados Unidos, que mantém uma relação de animosidade com sua inimiga da Guerra Fria.  

E por quê? Os dois países já eram aliados econômicos: a Rússia, como o Brasil, é fornecedora de matérias-primas para a China e importadora de produtos industriais. Essa parceria, no entanto, fortalece a ambos do ponto de vista militar, uma vez que a Rússia possui um arsenal nuclear semelhante ao dos Estados Unidos e ainda hoje é uma potência militar. Além disso, com a parceria e o investimento chinês nessa área, há uma complementariedade. Ou seja, a China entra naquilo em que a Rússia é fraca e vice-versa. 

 A parceria também fortalece a ambos nos órgãos multilaterais, como a ONU. O que, somado ao poder de pressão da economia chinesa, como viu-se recentemente nas sanções à Austrália, tradicional aliada do Ocidente, deve causar muita preocupação ao governo Biden. E tensão para todo o mundo.  

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