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Enem digital: como esse formato funciona em outros países

Diferente da Dinamarca, experiência encontra dificuldade nos EUA. No país mais rico do mundo, faltam computadores e uma cultura digital madura

Por Taís Ilhéu Atualizado em 5 jul 2019, 16h14 - Publicado em 4 jul 2019, 17h26

Estudantes de todo o Brasil foram pegos de surpresa ontem com o anúncio do MEC de que até 2026 o Enem se tornará 100% digital – isso mesmo, o fim da prova impressa. Segundo o presidente do Inep, o projeto piloto já começara a ser implantado no ano que vem, com uma amostra de 50 mil estudantes (correspondente a cerca de 1% dos que fazem o exame). Até a transição completa, os estudantes não serão obrigados a fazer a prova no novo formato e ainda poderão optar pela caneta e papel. 

O plano é que o Enem digital seja aplicado em datas distintas do tradicional, e que o número de aplicações cresça progressivamente ao longo dos anos. No ano que vem, serão duas aplicações convencionais (considerando a prova para pessoas privadas de liberdade, que já acontece todos os anos) e uma por computadores. 

Em 2021, o número de aplicações digitais cresce para duas e não haverá limite de “vagas” nessa modalidade. De 2022 a 2025, o plano é que aconteçam até quatro provas no novo modelo, mas com a tradicional ainda em vigor. Em 2026, a transição será completa com ainda mais aplicações ao longo do ano. 

Segundo o MEC e o Inep, o Enem Digital trará diversas vantagens como a economia em papel, a redução do risco de fraude, a adaptação ao Novo Ensino Médio, o aumento da interatividade e a possibilidade de aplicação em mais municípios

A avaliação de diversos especialistas desde a declaração, no entanto, é que apesar dos benefícios que a mudança de modelo oferece, o Brasil tem diversos desafios de ordem prática a enfrentar, como a baixa infraestrutura das escolas e de cidades do interior, a pouca familiaridade de muitos jovens brasileiros com a informática e o banco restrito de questões, que pode não ser abastecido a tempo para realizar tantas edições. 

Na coletiva de imprensa, o ministro da educação afirmou que o Brasil estaria ficando para trás em relação a outros lugares do mundo que já aplicam provas digitais. 

Dois países desenvolvidos, duas experiências distintas

De fato, em alguns países fazer provas em computadores e outros dispositivos digitais não é novidade. O dinamarqueses que o digam: desde 1994 os estudantes de Ensino Médio podem utilizar computadores no vestibular do país, conhecido como “Studentereksamen”. A partir de 2000, foi permitido o uso de dispositivos e programas instalados nos computadores, e em 2008 a Dinamarca se tornou o primeiro país do mundo a permitir o uso de internet para realização da prova. 

A explicação, segundo Steen Larsen, assessora do Ministério da Educação e supervisora ​​dessa reforma, é que os alunos já usavam largamente a internet para o aprendizado em sala de aula, e seria coerente avaliá-los da mesma forma como aprendem “É mais coerente: a aprendizagem e as avaliações são feitas nas mesmas condições”. 

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No dia da prova, ela explica, “quase todos os alunos estão equipados e levam seus próprios computadores. Caso contrário, pode pedir um emprestado na escola”. Na Dinamarca, mais de 90% da população tem acesso à internet, enquanto no Brasil apenas 57,8% dos domicílios estão conectados. Uma matéria de do jornal francês Le Monde aponta que o modelo com uso da internet ainda está em transição, mas que até o ano que vem todas as provas dinamarquesas poderão ser feitas com a ajuda da internet. 

Mas enquanto o país europeu comemora o sucesso do vestibular digital e caminha a passos largos para o uso da internet, um outro país desenvolvido, dessa vez do lado de cá do Atlântico, ainda está receoso com algumas tentativas não muito bem sucedidas de informatizar seus dois maiores processos seletivos. 

O SAT (Scholastic Aptitude Test) e o ACT (American College Testing) funcionam como o “Enem” nos Estados Unidos e permitem o acesso a diferentes universidades. Mas diferente do nosso atual Enem (e de encontro com a reforma anunciada ontem pelo Inep), as provas são aplicadas várias vezes ao ano. A ACT Inc. foi a pioneira no país, começando os testes da versão digital em 2015.  

No entanto, a empresa oferece a cada estado do país a opção entre aplicar o ACT digital ou em papel para seus estudantes. Apenas 8% dos cerca de 1 milhão de exames realizados no ano passado foram digitais. Em entrevista ao jornal The New York Times, Angie McAllister, vice-presidente de pesquisa da ACT, disse que o maior desafio dos estados é a infraestrutura, como a falta de computadores para aplicar a prova para todos os alunos. 

Foi por esse motivo que Oklahoma City optou por fazer o outro grande exame americano, o SAT, na versão tradicional no ano passado. A cidade não teria equipamentos suficientes e os prédios, muito antigos, estariam mais propensos a quedas de energia e instabilidade na rede. Em 2013, a cidade já havia passado por um teste com exames digitais, que é lembrado ainda hoje como um desastre. 

Já o estado da Carolina do Sul teve sua experiência mal-sucedida com o ACT em 2017, quando problemas técnicos atrasaram a computação de notas. O Departamento de Educação aconselhou os distritos a pedirem a prova em papel no ano passado. 

Além desses problemas de ordem técnica, a falta de “educação para tecnologia” também complica o processo. Mesmo com a implementação de um projeto federal há quase 20 anos com esse objetivo (chamado “No Child Left Behind Act”), os jovens americanos ainda não têm total familiaridade com computadores.

Thomas Tucker, superintendente de uma escola em Cincinnati, afirmou na mesma reportagem do NYT que, embora nascidos em uma era digital, os jovens têm mais contato com fones de ouvido do que com teclados, por exemplo. Segundo ele, por esses e outros motivos as notas dos alunos costumam despencar com a transição para o digital.

Isso além do desgaste emocional de fazer uma prova tão importante em um modelo em teste. “Muitos estudantes já ficam ansiosos ao fazer exames como o SAT, e interrupções nos testes podem aumentar ainda mais essa ansiedade”, afirmou Beth Harrison, chefe de comunicações das escolas de Oklahoma City, também ao jornal americano.

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