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Ex-BBB João fala sobre seu futuro com a educação: ‘É a solução’

Em um papo exclusivo com o GUIA, o professor fala sobre voltar à sala de aula, vacinação e dá conselhos para os estudantes

Por Giulia Gianolla Atualizado em 11 jun 2021, 11h44 - Publicado em 10 jun 2021, 17h40

Quem acompanhou o Big Brother Brasil 21 lembra da participação contundente do professor de Geografia João Luiz Pedrosa. O mineiro foi parceiro de jogo da vice-campeã Camilla de Lucas e foi o 12º eliminado do reality. Durante seu período na casa, o professor teve falas marcantes sobre racismo e homofobia. Além disso, comentou sobre a sua realidade antes do programa: as dificuldades do dia-a-dia dos professores na rede pública, a importância do ensino e até temas da geopolítica.

Como homem negro homossexual, João encontrou na educação uma maneira de combater o preconceito. Em entrevista ao GUIA, ele explicou: “Eu não consigo imaginar outra solução.  A educação é o caminho pra gente construir algo melhor”, disse. 

Este mês, João se prepara para ser um dos apresentadores do programa Trace Trends, junto ao ator e também ex-BBB Babu Santana. Com estreia marcada para 23 de junho no Globoplay e no Multishow, o programa vai abordar temas como cultura afro-brasileira, educação, realidade jovem nas periferias entre outros.

João Luiz, ex-BBB.
João deve apresentar um quadro chamado EducAção, para falar de iniciativas de jovens da periferia. Roberto Tumpas/Divulgação

Em conversa com o GUIA, João falou sobre sua época de estudante e sobre a função da educação na sua vida. Ao fim, deixou também um conselho aos estudantes que enfrentam dificuldades de adaptação durante a pandemia. Confira o papo abaixo:

GUIA: João, no BBB você se mostrou uma pessoa bem humorada. Fez piadas, falou de memes. Você também levava esse lado brincalhão pra sala de aula? Como é o João Professor?

João: Nossa, total. Tem gente que fala que não pode ser amigo dos alunos e que “a gente não pode misturar as coisas”. Eu sempre fui amigo dos meus alunos e “misturei as coisas” na sala de aula, sabe? Particularmente, eu acredito que se eu chegasse numa sala de aula, simplesmente vomitasse o conteúdo da geografia e fosse embora sem estabelecer nenhum tipo de relação ou conexão com os meus alunos, não faria sentido. E tenho certeza que também não faria sentido pros meus alunos e alunas. Nas aulas, eu também pego coisas que fazem sentido, sabe? Que estão ali no nosso dia a dia, na nossa realidade. Eu vou falar de economia? Beleza, mas eu posso falar de economia dando um exemplo do que está no nosso cotidiano. E aí aquilo começa a fazer sentido. Assim é muito mais interessante.

GUIA:  Você também falou muito sobre educação pública no reality. De onde veio essa sua paixão pela educação? 

J: Eu venho de uma família de professores. Meu tio era formado em história e ciências sociais, minha tia é assistente social, mas foi professora, minha mãe era professora da educação básica, eu tenho uma prima que é professora de artes, uma outra que é a professor biologia… A educação sempre esteve presente na minha casa. E desde criança, eu ganhava lousa e giz pra brincar de escolinha (risos). Nem sempre a gente tem que seguir a profissão da família, mas eu acho que no meu caso específico, isso veio muito desse desejo que a minha família sempre teve de enxergar na educação uma perspectiva futura um pouco mais positiva. E aí, por conta disso, eu cresci querendo muito fazer isso. Eu quis ser professor antes mesmo de descobrir qual era a disciplina que eu gostaria de ensinar. E mesmo que a gente esteja num cenário onde talvez seja um pouco difícil da gente projetar, eu ainda acredito que a educação seja o principal pilar para a realidade se alterar. 

GUIA: E como é ser professor da rede pública?

J: É difícil. Eu amo ser professor, mas o amor pela profissão não paga as minhas contas, né? A gente tem hoje professores e professoras que entram em jornadas insanas de trabalho, de manhã, tarde e noite pra ter uma vida um pouco mais confortável. Quando eu dava aula em Minas Gerais, eram dezoito aulas semanais pra ganhar dois mil reais. E o trabalho do professor não é só nos cinquenta minutos de aula. Você leva trabalho pra casa, tem um tempo de preparação de aula, de reunião de planejamento na escola. A escola funciona com direção, com família, com pai, com mãe, com aluno, com o tio, com o avô, com a comunidade escolar inteira. Então, é difícil. Eu vejo um descaso financeiro também. Um esquecimento da educação. Parece que a gente estagnou. Se você pega uma sala de aula de cinquenta anos atrás, ela é exatamente como uma sala de aula de hoje na rede pública. Tem uma ou outra escola que consegue se reinventar. 

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GUIA: João, além de uma inspiração para muitos estudantes e professores, você se tornou uma referência para jovens da comunidade LGBTQIA+. Qual é o papel da educação na inclusão e no combate ao preconceito?

J: A educação tem um compromisso para alterar essas realidades, eu acho. Hoje, eu não consigo pensar numa outra solução que não seja a educação, na realidade violenta que a gente tem hoje. E a gente pensa na violência só como algo físico, mas não é. A violência é muito reproduzida dentro da escola, de diversas formas. Muitas vezes é um reflexo de uma história, de uma construção familiar. E isso tudo vai pra escola, não tem jeito. Em algum momento as coisas vão chegar lá. E é um problema. Não adianta a gente falar que não é um problema. Ele é um problema sistêmico que está aqui.  E eu não consigo imaginar outra solução. Acho que a educação é o caminho pra gente construir algo possivelmente melhor.

GUIA: E agora depois do programa, com todas as coisas que estão acontecendo na sua vida, já devem ter te perguntado isso mil vezes, mas…

J: Você vai voltar pra sala de aula?” (risos)

GUIA: Eu tinha que perguntar! (risos)

J: Eu sabia que essa pergunta ia chegar (risos). Bom, eu vejo a educação na escola, claro, mas também entendo a educação como algo que ultrapassa esse espaço físico. Não é só a escola. É essa conversa aqui que a gente está tendo agora, é quando você anda na rua e identifica uma coisa, é tudo isso. Se eu tentar voltar pra sala de aula hoje, talvez seja um pouco inconcebível. Ninguém vai querer ter aula de geografia porque todo mundo vai querer saber do João do Big Brother, vamos combinar, né? (risos). Então acho que, hoje, eu preciso processar essa informação. Mas a discussão da educação e da geografia é algo que eu vou estar sempre construindo. É inevitável! 

GUIA: Você vai falar sobre educação no programa Trace Trends? Como estão os preparativos?  

J: Sim! A gente vai discutir bastante cultura afro-urbana e cultura brasileira, por exemplo.  Eu tenho um quadro que fala sobre educação e a gente vai discutir ações sobre a educação nas periferias na cidade, o que é muito interessante. É o que eu falei: não tem jeito, eu vou continuar discutindo a educação. A gente tem que fazer uma discussão ampla sobre isso. Se a gente não fizer, vai continuar na mesma. Tô super animado! Dia 23 de junho, sai o primeiro episódio. Assistam. Vai ser tudo!

  • GUIA: Aliás, por que você decidiu não tomar a vacina na fase prioritária para os professores? 

    J: Na verdade, não é que eu decidi não tomar. Eu queria muito tomar, mas eu não posso. Um dos principais critérios que eles colocam é: você tem que estar em situação ativa de trabalho e precisa apresentar as últimas duas folhas de pagamento. Dois meses atrás eu estava dentro da casa de um reality show, eu não estava trabalhando na sala de aula! (risos). Se pudesse, eu era o primeiro da fila, né? Eu madrugaria na frente da fila pra poder tomar a vacina.

    GUIA: Voltando um pouco no tempo, como era o João estudante na época da escola?

    J: Sabe aquele aluno que é o terror de todo professor, que é o aluno que fala muito, que conversa muito, mas que tem excelentes notas? Sabe? (risos) Eu pegava as coisas muito rápido, então, às vezes eu virava pra trás, ficava conversando… Mas eu era muito dedicado, sempre fui muito respeitoso, comprometido, participativo. Eu gostava de ir pra escola. Eu ia pras reuniões com os pais, falava muito, ia na direção e dizia: “ó, isso aqui não tá legal, não”. Às vezes ninguém me ouvia, mas eu falava. (risos)

    GUIA: Ficou nervoso na época de vestibular?

    J: A decisão de fazer Geografia foi bem suave pra mim. Mas o nervoso aconteceu durante a prova, sim. Isso é muito difícil, né? Mas acho que é muito reflexo da pressão que é colocada sobre a gente, “você precisa passar, você tem que passar, você vai”. Eu acho que, em vez de indicar e pressionar, tem que ser algo tipo: “você vai estudar pra passar, mas se você não passar, tudo certo, você vai fazer de novo e vai passar”. Eu acho que é uma frustração muito grande se você não passa da primeira vez. Parece que acabou o mundo. E não é assim que as coisas têm que funcionar. Nem sempre você vai passar. E está tudo bem. 

    GUIA: Os estudantes estão passando por um momento muito doido agora, né? Vestibular, pandemia, aulas EAD, mudanças dos calendários de prova. Quer deixar um recado para os estudantes?

    J: Isso que você falou é muito importante. É uma nova realidade. A gente tá aprendendo juntos a fazer dessa nova forma, estudar desse jeito. Eu diria que precisa organizar o tempo, não precisa entrar em rotinas insanas de estudo. Eu vejo muitas pessoas estudando, estudando, estudando, comendo enquanto estuda, dormindo pouco. Resolva o seu tempo de dormir, organize o seu tempo e o que você vai comer… E aí, você organiza a sua rotina de estudo em cima disso. Quando você estuda com qualidade e com o corpo bem, surge um resultado muito melhor e mais positivo do que se ficar exausto, fazendo milhões de coisas. Esse é um momento de calma. Se organize e estude! Se prepare, não tenha medo de ter dúvidas, procure fontes confiáveis para tirar suas dúvidas, pessoas que podem te ajudar. Se for por esse caminho, acho que tem tudo pra dar certo. E fique muito ligado de onde vem a informação que você pega. Então, se organize, procure fontes confiáveis…

    GUIA: E leia o Guia do Estudante! (risos) 

    J: E leia o Guia do Estudante.  Exatamente! (risos)

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