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Quem são os curdos e que lugar ocupam nos conflitos do Oriente Médio

A população curda, apesar de não ter um território próprio, está envolvida em uma série de questões políticas, militares e sociais na região

Por Julia Di Spagna 20 jun 2022, 15h37

Eles tiveram um papel importante no combate ao Estado Islâmico. Conseguiram se estabelecer no norte sírio e aumentar a oposição contra Bashar al-Assad durante a Guerra da Síria. Vivem em embate com o governo turco. Afinal, quem são os curdos?

Os curdos são a maior população apátrida do mundo, ou seja, que não possui um território próprio. Falantes de várias línguas, principalmente árabe, curdo, turco e persa, eles são compostos por diferentes grupos étnicos e religiosos que se consideram iguais mais pela região onde vivem do que pela origem cultural. Mas, majoritariamente, os curdos carregam tradições e costumes que misturam elementos de culturas religiosas milenares e se identificam com o islamismo.

Estima-se que cerca de 30 milhões de pessoas da etnia se dividam em quatro países: Turquia, Síria, Irã e Iraque. Desde a fragmentação do Império Turco-Otomano, no pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1918), eles reivindicam que a área que ocupam nessas regiões se torne um Estado chamado Curdistão. Embora a área já seja historicamente conhecida por esse nome, não há uma unidade territorial ou um governo único autônomo. 

O Curdistão nunca foi aceito pelos países que teriam que ceder territórios para sua criação. A concessão de terras dessas nações é um dos principais fatores que dificulta que os curdos tenham seu próprio país. Além disso, a autonomia curda não é vista com bons olhos por países do Oriente Médio, pois os governos temem que a consolidação do Curdistão como um país possa desencadear uma série de movimentos separatistas na região. 

Mapa do Curdistão
O Curdistão ocupa áreas da Turquia, Síria, Irã e Iraque wikimedia commons/Reprodução

Atualmente, o povo curdo se coloca enquanto uma nação que luta pelo reconhecimento de sua história, cultura e identidade orientados por um socialismo democrático que abarque a diversidade étnico-religiosa e a construção da soberania nacional. 

Segundo Luis Felipe Valle, professor de Geografia do Curso Pré-Vestibular da Oficina do Estudante de Campinas (SP), embora considerem que a luta armada seja necessária como forma de resistência e sobrevivência, os curdos não vislumbram a manutenção de um Estado Nacional militarizado, mas de uma democracia popular.

“Mas isso ainda está muito longe de ser alcançado por conta das motivações imperialistas especialmente da Turquia e do Iraque, que sequer consideram abrir mão de territórios ricos em petróleo e terras férteis para satisfazer as reivindicações do povo curdo”, explica o professor.

Perseguições no Iraque

Entre as décadas de 1960 e 1980, os ataques do governo do Iraque aos povos curdos foram frequentes, principalmente pelo interesse econômico em regiões ricas em petróleo, como em Kirkuk. 

Só entre 1975 e 1978, mais de 200 mil pessoas curdas tiveram que fugir de zonas de guerra no Iraque e, em 1988, a operação iraquiana “Pilhagem de Guerra” levou à destruição de mais de duas mil aldeias curdas e cem mil vítimas sob ordens de Saddam Hussein.

Combate ao Estado Islâmico e impactos na Guerra da Síria

A ascensão do Estado Islâmico, que busca a criação de um país fundamentalista no Oriente Médio, fez com que o grupo tentasse ocupar áreas onde está informalmente localizado o Curdistão, colocando terroristas em combate direto com as tropas curdas. 

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Israel Mielli de Castro, professor de Geografia do Colégio Anglo Chácara Santo Antônio, explica que uma dessas áreas foi o chamado Levante, parte norte do território Sírio ocupada pelos curdos. A região foi invadida pelo Estado Islâmico em 2014, durante a Guerra Civil da Síria. Diante desse cenário, os curdos organizaram uma força de resistência e foram fundamentais para evitar o avanço do grupo terrorista e recuperar territórios. 

Ao longo do conflito, eles acabaram recebendo apoio militar de países ocidentais, com destaque para os Estados Unidos e, assim, também conseguiram se estabelecer no norte da Síria e aumentar a oposição contra Bashar al-Assad na guerra.

Conflitos com a Turquia

Ao longo dos últimos dois séculos, a Turquia tem um histórico de um intenso nacionalismo – o que resulta, inclusive, em movimentos repressivos a alguns grupos étnicos, como os armênios. “Com os curdos não foi diferente. Enquanto se realocavam dentro da Turquia, foram proibidos de utilizar um idioma próprio. Diante disso, os curdos organizaram movimentos armados de resistência e passaram a lutar pela formação de seu país”, explica Castro, professor do Anglo.

Em 1970, os curdos criaram, na Turquia, o Partido dos Trabalhadores Curdos (PPK), que realizou ações armadas contra o governo da região e é tido como um grupo terrorista pelos turcos. Entre 1984 e 1999, as forças militares da Turquia entraram em conflito com o PPK, forçando a evacuação de 400 mil curdos de milhares de vilas onde viviam.

Em 2016, o presidente Recep Tayyip Erdogan chegou a acusar militantes curdos de tentarem realizar um golpe de estado contra seu governo. Entretanto, a oposição turca afirma que a declaração era apenas uma mentira de Erdogan para justificar a perseguição ao povo curdo. 

Atualmente, ainda sob regime autoritário militarizado de Erdogan, as tropas turcas combatem os movimentos curdos que lutam pelo reconhecimento de seu povo e cultura, bem como a permanência nos territórios onde ocupam. A recente retirada das tropas norte-americanas dos territórios curdos, levou a Turquia a realizar novas ofensivas contra o grupo.

Nos vestibulares

Como os curdos estão envolvidos em uma série questões políticas, militares e sociais do Oriente Médio, eles podem aparecer em questões de história ou geografia nos vestibulares. 

Uma dica do professor do Anglo Chácara é estudar grandes tópicos que podem abranger discussões sobre os curdos, como:

  • nacionalismos (disputas pelo território)
  • terrorismo (Estado Islâmico)
  • conflitos no Oriente Médio (Guerra da Síria e relações com a Turquia)

O professor da Oficina do Estudante também ressalta que é importante estudar as tensões envolvendo a influência da Otan, por meio da Turquia, no Oriente Médio, e conflitos que tiveram início com a fragmentação do Império Turco-Otomano pós-Primeira Guerra Mundial, assim como as disputas entre Irã e Iraque durante a Guerra Fria e a influência da antiga URSS na região que foi berço de várias das mais antigas civilizações da humanidade. 

Além disso, segundo o professor, com a insurgência de grupos fundamentalistas, principalmente o Estado Islâmico, os conflitos armados têm visado muito mais a sobrevivência dos povos curdos do que a luta pelo reconhecimento diplomático do Curdistão. “Por isso, o vestibulando deve refletir sobre o papel que as guerras cumprem na manutenção do controle que grandes potências, como Estados Unidos e Rússia, ainda exercem sobre territórios onde os interesses estratégicos econômicos se sobrepõem claramente a direitos políticos, sociais e culturais de grupos marginalizados”, afirma Valle.

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