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O que é a Otan e o seu papel, da Guerra Fria à Guerra na Ucrânia

Conheça o processo de formação da Organização do Tratado do Atlântico Norte e sua ressignificação com o fim da URSS

Por Juliana Morales Atualizado em 29 jun 2022, 13h31 - Publicado em 25 Maio 2022, 09h33

Nesta quarta-feira (29), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) anunciou que convidou formalmente a Finlândia e a Suécia para aderir à aliança militar ocidental. Os dois países entregaram suas candidaturas para ingressar na organização em maio deste ano. Na ocasião, o secretário-geral da aliança militar, Jens Stoltenberg, afirmou que os pedidos de adesão são um “passo histórico”, em um “momento crítico para a nossa segurança”, referindo-se à guerra na Ucrânia. Segundo Stoltenberg, a entrada de novos membros poderá aumentar a proteção compartilhada da Organização. 

Com as candidaturas, os dois países, ambos com histórico de se manterem de fora de alianças militares, deixam de lado seu status de neutralidade. A Finlândia é o quinto país com a mais longa fronteira com a Rússia: são 1.300 quilômetros compartilhados entre eles. A Suécia também é próxima geograficamente do território russo. 

Para que os dois países sejam aceitos na Otan, todos os 30 atuais membros da Aliança Atlântica precisam dar o seu aval. O único país que apresentou resistência em relação às adesões é a Turquia. O governo turco alega que a Suécia e a Finlândia abrigam muitas organizações terroristas, entre elas o PKK – um grupo guerrilheiro curdo que combateu por décadas em uma insurgência separatista em partes da Turquia. O governo truco, no entanto, mudou de posicionamento e parou de travar a entrada dos dois países, após reunião da cúpula do grupo em Madri, na Espanha.

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A decisão sueca e finlandesa de aderir à Otan também desagradou a Rússia, que definiu as candidaturas à aliança como ‘grave erro’ com consequências de ‘longo alcance’. A expansão da Otan, principalmente para o leste europeu, foi inclusive o principal pretexto usado pelo presidente russo Vladimir Putin para invadir o país ucraniano. A Rússia queria garantias que a Ucrânia, por quem nutre interesses geopolíticos e econômicos ao longo da História, não aderisse à aliança militar liderada pelos Estados Unidos. 

Diante das recentes movimentações geopolíticas envolvendo a Otan, o professor de geografia do Curso Anglo, Augusto Silva, afirma que é importante que o estudante conheça o processo de formação e contexto histórico da Organização do Tratado do Atlântico Norte, além de entender a relevância e atuação dela nos últimos anos. Vamos lá!

Nascimento da aliança

Para entender a criação da Otan é necessário revisar o contexto da Guerra Fria. Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo polarizou-se entre os dois maiores vencedores do conflito. De um lado, os Estados Unidos – defensores do capitalismo – garantiram sua hegemonia sobre o oeste da Europa por meio do Plano Marshall, de 1948. Do outro, a União Soviética projetou-se sobre o Leste Europeu, estimulando a adesão ao socialismo nos países que havia libertado do nazismo. 

O alinhamento internacional ficou ainda mais claro com a formação de duas alianças militares. Os EUA e a Europa Ocidental uniram-se em 1949 na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Seis anos depois, URSS e o Leste Europeu constituíram o Pacto de Varsóvia. 

No caso da Otan, a finalidade da aliança era lutar contra a expansão do comunismo e retaliar qualquer ataque soviético contra seus países-membros. Eram eles: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Reino Unido. “Em resumo, a regra da Otan era ‘um por todos e todos por um’, ou seja, se um de seus países fosse atacado, todos os outros estariam unidos para proteger e revidar a agressão”, explica Silva.  

O professor esclarece que durante toda a Guerra Fria, no entanto, a Otan não teve nenhuma atuação prática em termos militares. “Naquele contexto, a aliança existia muito mais como uma política de contenção do socialismo. As tropas dos países membros não chegaram a agir em conjunto”, afirma.

Pós-Guerra Fria

O desfecho da Guerra Fria, marcado pela dissolução da URSS, aconteceu em 1941. Em consequência disso, o Pacto de Varsóvia chegou ao fim, diferentemente da Otan que, mesmo depois que a cortina de ferro acabou, permaneceu como instituição internacional. 

Leonardo César Souza Ramos, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, afirma que a Otan passa, de certa forma, por um conflito de identidade, já que o papel dela até então era lidar com questões de segurança no contexto da Guerra Fria.

Segundo Ramos, desde o final da Guerra Fria, a Otan pode ser pensada como parte do projeto dos Estados Unidos de se tornarem a única grande potência. A organização está  associada com a Ordem Liberal Internacional que se consolidava, na qual os EUA se aproximavam da Europa, aumentando sua influência e se colocando como defensor dos países europeus.

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Do outro lado, no pós-Guerra Fria a Rússia e as outras repúblicas que formavam a União Soviética estavam em um momento de transição, como países independentes, e enfrentavam uma profunda fragilidade do ponto de vista econômico e geopolítico. “Os Estados Unidos, então, perceberam uma janela de oportunidade e começaram na década de 90 e começo dos anos 2000 a convidar países do leste europeu para entrarem na aliança”, explica o professor do Anglo.

Em 1999, Polônia, Hungria e Chéquia (a antiga República Tcheca) ingressaram na Otan. O mesmo foi feito por Letônia, Estônia, Lituânia, Bulgária, Romênia, Eslováquia e Eslovênia em 2004 – todos países que, durante o período de polarização da Guerra Fria, faziam parte do lado socialista, de influência russa.   

A colaboração entre os membros ainda é um dos maiores benefícios oferecidos pela Otan. A aliança se compromete a defender e atacar quando um dos seus países necessitar de proteção. Entre os membros, há benefícios como treinamento militar, compartilhamento de serviços de inteligência, excedentes militares e cooperação na área tecnológica.

Atuação militar

A primeira vez em que a Otan envolveu-se em operações militares foi no episódio que ficou conhecido como a Primeira Guerra do Golfo. Em 1990, após o Iraque invadir o Kuwait, uma região estratégica por suas reservas de petróleo, o conflito tomou proporções internacionais. “O conflito gerou instabilidade no petróleo e os norte-americanos ficaram prejudicados economicamente. Em resposta, mandaram tropas, incluindo da Otan, para retirar os soldados iraquianos do país árabe”, explica Silva. 

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Ramos observa ações como essa enquanto uma maneira da Otan de ressignificar sua importância enquanto organização e pensar segurança internacional no sentido mais amplo. Um outro exemplo indicado pelo professor é a atuação da Otan nos conflitos étnicos nos Bálcãs na década de 90: primeiro na na Bósnia-Herzegovina e depois na região de Kosovo.

“Bósnia-Herzegovina era território da antiga Iugoslávia, que tinha abandonado o comunismo. As diferenças étnicas muito grandes levaram o território a se dividir então, formando países como a Sérvia, Croácia, Macedônia”, resume Silva. O professor explica que, neste cenário, começa um conflito da Bósnia-Herzegovina para decidir quem iria liderar esse novo arranjo. Com o aval da ONU (Organização das Nações Unidas), a Otan enviou tropas, alegando que o conflito estava gerando uma instabilidade na Europa e um processo migratório para os países membros da aliança.

“Um tempo depois, a Organização liderada pelos Estados Unidos também interveio, enviando tropas, na Guerra de Kosovo – território que buscava a independência em relação a Sérvia. O governo sérvio começou um processo de limpeza étnico, matando a população”, explica Silva. “Tropas da Otan permanecem até hoje em Kosovo para impedir novos ataques”, acrescenta o professor.

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Outras ações militares da Otan foram no Afeganistão (2001), no Iraque (2004) e na Líbia em 2011.

Rússia x Otan

Na interpretação de Ramos, a Rússia sempre esteve no radar dos planos de segurança dos Estados Unidos – inclusive, depois do fim da Guerra Fria. O professor de relação internacionais explica que isolar o país russo era uma ferramenta dos EUA para manter a sua hegemonia.

Já do ponto de vista de Putin, o governo russo alega que os americanos, a partir das alianças, estão entrando em uma área de influência russa: o leste europeu.

Esse embate, que pode ser observado na Guerra da Ucrânia que dura mais de três meses, esteve presente também no episódio da Crimeia. Em 2014, a crise na Ucrânia colocou Estados Unidos e Rússia em lados opostos em uma disputa geopolítica. A decisão do então presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, de rejeitar um acordo comercial com a União Europeia em favor de um acerto com a Rússia desencadeou violentos protestos da população. Os EUA, que também tinham interesse no acordo entre União Europeia e Ucrânia, apoiaram as manifestações populares. O presidente Yanukovich acabou sendo deposto, mas, em retaliação à derrubada de seu aliado, a Rússia tomou da Ucrânia a península da Crimeia.

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