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X-Men ’97 e a metáfora sobre minorias sociais

Stan Lee se inspirou no Movimento pelos Direitos Civis dos Estados Unidos e deu voz aos grupos minoritários em sua HQ

Por Ludimila Gomes
4 jun 2024, 15h00

Com o lançamento da série animada “X-Men ’97” no Disney+ e o retorno dos mutantes à cultura pop, muitos novos fãs surpreenderam-se ao descobrir que os personagens foram inventados por Stan Lee para serem uma metáfora sobre minorias sociais nos Estados Unidos. Os heróis da Marvel, que surgiram na época da luta por direitos civis no país, seguem servindo de reflexão a respeito de grupos marginalizados, desde pessoas não-brancas até a comunidade LGBTQIA+

Em uma entrevista realizada para o DVD “X-Men: The Legend of Wolverine” em 2003, Stan Lee relembrou como foi a criação dos X-Men. Os mutantes, de acordo com o quadrinista, eram uma analogia aos grupos sociais minoritários que eram rejeitados pelo restante da sociedade por parecerem diferentes, tanto fisicamente quanto devido aos seus poderes. Em 2014, ele confirmou a metáfora com a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos em uma entrevista cedida à Rolling Stone,

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Contexto histórico da criação dos X-Men

A primeira HQ dos X-Men, “Uncanny X-Men”, foi publicada em 01 de setembro de 1963. Naquela época, os Estados Unidos passavam pela Era Kennedy e o país lidava com a Guerra Fria, a disputa de poder entre EUA e União Soviética (URSS).

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Neste mesmo período, acontecia a Crise dos Mísseis, quando a URSS instalou secretamente mísseis nucleares em Cuba, e a Guerra do Vietnã, na qual os Estados Unidos entraram oficialmente em 1965. Esta segunda, inclusive, serviu de pano de fundo para as primeiras histórias do Homem de Ferro, outro herói da Marvel.

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Mas não era só na política externa que os Estados Unidos estava imerso em conflitos. O país também passava por um levante de lutas por direitos civis, liderado principalmente pelo Movimento pelos Direitos Civis, que defendeu a igualdade de direitos da população negra norte-americana. No mesmo ano do lançamento da primeira HQ dos X-Men, aconteceu a Marcha de Washington que reuniu 250 mil pessoas, na qual Martin Luther King fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”.

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Além da segregação das pessoas negras, ainda havia a caça aos homossexuais no país. Na época, a homossexualidade era vista como perversão, crime e doença, e eram comuns batidas policiais em bares frequentados pela comunidade LGBTQIA+ a fim de prender clientes e funcionários.

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Paralelos entre ficção e realidade

Em X-men, os mutantes são seres que nascem com superpoderes devido a uma mutação em seu DNA. Por causa desta diferença genética, são excluídos da sociedade, principalmente pelo medo que os seres humanos sentem deles, seja por causa dos poderes, ou de suas aparências. Os mutantes são divididos em duas equipes: a de heróis – os X-Men –, liderada pelo Professor Xavier, e a de vilões, liderada por Magneto.

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O grupo de heróis deseja se encaixar na sociedade, enquanto o de vilões ressente pela forma como são tratados e ,por esta razão, causam problemas com os seres humanos e desejam dominar o mundo. Ao longo da história, os quadrinhos, filmes e séries mostram a batalha entre os dois grupos e também o que os une: a segregação entre mutantes e humanos.

Nas HQs, chega a ser fabricada uma vacina de cura para os mutantes. Ela apareceu pela primeira vez no volume 3 da série “Astonishing X-Men”, de 2004. Na história, a médica geneticista Kavita Rao acredita que a mutação é uma doença e começa a desenvolver uma possível cura para o “gene X”, parte do DNA dos que nascem mutantes. 

É possível fazer um paralelo com a realidade quando se iniciou a discussão sobre a suposta “Cura Gay”, um “tratamento” psicológico para reverter a homossexualidade. A homossexualidade não é reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1990. Também é possível associar a vacina em X-men às teorias eugenistas que classificavam a população negra como biologicamente inferior.

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Além de eventos durante a série, é possível reconhecer diversas minorias sociais por meio dos próprios personagens. Ainda na comunidade LGBTQIA+, os X-Men possuem um herói abertamente gay, Ultimate Colossus, que fez sua aparição pela primeira vez na série de quadrinhos “Ultimate X-Men” em 2000.

Os X-Men também possuem representação de grupos étnicos, como é o caso de Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, que fez sua aparição pela primeira vez nas HQs em 1964. Wanda era uma Romani, um dos povos ciganos, e este grupo sofre com preconceitos até hoje. Já a série de quadrinhos “Giant-Size X-Men”, de 1975, apresentou o primeiro herói indígena, o Thunderbird.

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Naquele mesmo ano, na mesma edição, Tempestade apareceu pela primeira vez. Ela é uma das primeiras heroínas negras da Marvel e a primeira entre os X-Men. Para além das representações de etnia, raça ou orientação sexual, o líder dos X-Men, Professor Xavier, usa uma cadeira de rodas e é um dos heróis mais fortes da franquia de acordo com o próprio Stan Lee.

A HQ é, enfim, uma alegoria das diversas minorias sociais frequentemente rejeitadas por uma sociedade que, incapaz de conviver com a diversidade, prefere segregar e até exterminar o diferente.

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