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Como sambas clássicos refletem questões sociais e políticas do Brasil

No Dia do Samba, reflita sobre importantes momentos da história nacional nessas canções

Por Luccas Diaz 2 dez 2020, 17h42

A música, como todas as artes, possibilita uma reflexão sobre o tempo e a sociedade, para além dos sentimentos do artista. Através dela, é possível entender não apenas as alegrias ou aflições do compositor, mas também todo o contexto da época em que a canção está inserida. Tanto que é comum encontrar letras de música em provas e vestibulares, relacionando a composição a momentos históricos importantes, lutas e movimentos sociais, entre outros.

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O Brasil é um país rico na diversidade de ritmos, gêneros e músicos inesquecíveis. Um deles, reconhecido como marca registrada do Brasil, é o samba. Nascido nas rodas de capoeira de escravos na Bahia, o samba de roda foi uma primeira manifestação, que, no Rio de Janeiro, ganhou novas versões, como samba de breque, partido alto e samba-canção. Por causa da origem na cultura negra, o gênero chegou a ser mal visto e coibido antes de se transformar num símbolo nacional.

É dessa origem, negra e popular, que surgem os temas de muitas questões, como a desigualdade social, a intolerância religiosa e a discriminação racial. “A histórica tensão entre diferentes classes sociais e grupos raciais, sintomas de um país desigual, parece encontrar no samba uma válvula de escape que permite não só denunciar e chorar injustiças, mas também divertir como se não houvesse Quarta-Feira de Cinzas”, define a Enciclopédia Itaú Cultural.

Neste 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba – uma data não oficial que é celebrada desde a década de 60 –, o GUIA separou 3 sambas clássicos que dizem muito sobre o momento da história em que foram escritos.

O Bonde de São Januário, de Wilson Batista

Bonde de São Januário

Durante o Estado Novo, de 1937 a 1946, uma das principais preocupações de Getúlio Vargas era com a imagem que a população brasileira tinha do governo. Vargas buscou ser um símbolo popular, nacionalista e até paternalista para a nação. Para isso, o presidente instaurou uma série de leis e normas para a manutenção de sua imagem. Uma delas foi a criação do Departamento da Imprensa e Propaganda, o DIP. Esse órgão, criado em 1939, era responsável por controlar tudo que saísse na imprensa e fosse contrário à ideologia proposta por Vargas. A censura de produtos culturais que fizessem qualquer crítica ao governo era certa.

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Um desses casos foi o samba do compositor Wilson Batista O Bonde de São Januário. A letra faz referência ao famoso bonde que levava diariamente os operários das fábricas da região de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A superlotação era algo comum e fez o artista questionar a qualidade de vida do trabalhador das classes mais pobres. Na letra original, Batista escreveu “O Bonde de São Januário/leva mais um sócio otário/só eu não vou trabalhar”. O DIP, no entanto, censurou a canção e fez a mudança para “O Bonde de São Januário leva mais um operário/Sou eu que vou trabalhar”. A canção é apenas um dos exemplos de censura da Era Vargas, mas mostra a tentativa do governo de alienar e silenciar a população brasileira.

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Despejo na Favela, de Adoniran Barbosa

Favela do Ibirapuera
Região do Ibirapuera, em São Paulo, já abrigou uma favela na década de 50 e 60, antes dos despejos Acervo Sebastião Assis Pereira/Reprodução

Adoniran Barbosa é um dos grandes nomes do samba brasileiro. À primeira vista, podia-se duvidar um pouco sobre sua presença nas rodas de samba. Paulista, sempre de roupas formais e condição financeira diferente das tratadas na maioria das canções do gênero, ele se tornou um dos artistas brasileiros mais versáteis do século XX. Foi, além de sambista, escritor, ator e comediante. Suas obras, entre as quais “O Trem das Onze” é a mais conhecida, possuem um linguajar simples, e quase sempre adotam uma visão solitária, mas otimista da vida. Adoniran Barbosa foi a voz dos desfavorecidos, dos excluídos, dos silenciados.

A canção “Despejo na Favela”, escrita em 1966, escancarava os abusos de poder cometidos durante os projetos de urbanização na cidade de São Paulo da década de 60. A letra retrata os conflitos dos moradores das favelas que eram despejados de suas casas sem nenhum tipo de auxílio ou planejamento prévio. E mesmo hoje, mais de 50 anos depois, a música ainda soa atual. Quando o oficial de justiça chegou/Lá na favela/E, contra seu desejo/Entregou pra seu Narciso/Um aviso, uma/ordem de despejo/Assinada, seu doutor/Assim dizia a ‘pedição’/”Dentro de dez dias/Quero a favela vazia/E os barracos todos no chão”.

Quilombo dos Palmares, samba enredo da Salgueiro

Desfile Salgueiro 1960
Agência O Globo/Reprodução

Representando os sambas-enredo dessa lista, a canção “Quilombos dos Palmares” foi muito mais do que apenas a música feita para o desfile de uma escola de samba no Rio. O ano era 1960 e, depois do sucesso de 1959 com o desfile em homenagem ao artista francês Jean-Baptise Debret, o Salgueiro decidiu contar uma história que até aquele momento tinha sido silenciada nos produtos culturais. O tema escolhido foi a vida de Zumbi dos Palmares, último e mais famoso líder do Quilombo dos Palmares. Sua vida foi marcada pelos atos de guerrilha pela liberdade e emancipação dos escravos no Brasil, principalmente entre 1680 e 1690.

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A canção é considerada um marco para o samba não apenas por abordar essa figura nacional importante, mas por ser o momento que há o despertar da abordagem da história negra nos desfiles. Até aquele ano, nenhuma escola havia abordado temas históricos relacionados exclusivamente aos negros, principalmente do modo como o Salgueiro fez. Todo o luxo e a pompa foram substituídos para contar a história de Zumbi; com alguns integrantes, inclusive, caracterizados de escravos. “Surgiu nessa história um protetor./Zumbi, o divino imperador,/Resistiu com seus guerreiros em sua Troia,/Muitos anos, ao furor dos opressores,/Ao qual os negros refugiados/Rendiam respeito e louvor./Quarenta e oito anos depois”

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