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“A Ilha”: saiba como utilizar o filme no vestibular

Explore o enredo e enriqueça seu repertório

Por Julia Di Spagna Atualizado em 3 Maio 2019, 16h56 - Publicado em 24 Maio 2018, 19h03

A ideia desta série de matérias é permitir que você consiga desenvolver um repertório mais amplo e um pensamento crítico mais aguçado com base nas diversas camadas que a sétima arte pode apresentar. As análises dos filmes que faremos aqui buscam mostrar certas relações entre o enredo e temas contemporâneos que podem ser abordados na redação e em outras questões do Enem e dos principais vestibulares do Brasil.

O filme começa retratando um complexo, cujos moradores foram os únicos sobreviventes de um vírus que dizimou o restante do planeta. Os agnatos, como são chamados os sobreviventes, vivem nessa instalação fechada e são monitorados por câmeras, sensores e seguranças.

Eles recebem a informação de que apenas um lugar não está contaminado, chamado “a ilha”, e a única maneira de serem transferidos para esse local apresentado como paradisíaco é serem sorteados em uma loteria.

Entretanto, o personagem Lincoln 6-Echo começa a ter sonhos estranhos e questionar essa dinâmica. Um dia, ele descobre uma parte secreta do complexo e vê um dos moradores que havia ganhado na loteria ser assassinado.

Quando descobre que sua amiga Jordan 2-Delta também foi sorteada ele decide salvá-la e ambos tentam fugir.

Ao conseguirem sair do complexo, descobrem que o mundo não está contaminado e que, na verdade, eles são clones de pessoas que vivem do lado de fora. O único objetivo de sua existência é fornecer órgãos para o caso de seus “originais” terem algum problema de saúde. Ou seja, uma espécie de corpo reserva para pessoas que poderiam pagar por tal serviço.

A ilha é, na verdade, uma invenção e a suposta “loteria” indica que o ser humano está precisando utilizar alguma parte do corpo de seu clone. Por isso, os “sorteados” são mortos.

Jordan, por exemplo, era o clone de uma famosa atriz de cinema com uma doença grave e Lincoln descobre que o seu “original” era um homem muito rico que sofria de cirrose hepática. Tendo descoberto a verdade, o objetivo dos personagens passa a ser salvar os outros clones.

É possível explorar o filme “A Ilha” a partir de diversos aspectos. Conversamos com Sérgio Paganim, coordenador pedagógico de linguagens do Anglo, para estabelecermos os principais e a melhor forma de aplicá-los na hora da prova.

Clonagem X Conflitos éticos e morais

Em discussões sobre a clonagem, o tema mais recorrente diz respeito às questões éticas que envolvem esse processo.

Pensando em um nível de clonagem mais avançado, complexo e em massa (como visto no filme), é possível indagar: o clone seria considerado um ser humano? Teria os mesmos direitos dos outros cidadãos? Deveria carregar algum tipo de identificação que o diferenciasse?

No filme fica clara a postura da sociedade a essa questão. Os clones são tratados como um bem, uma propriedade. Existe todo um processo de reificação com esses personagens.

Nesse contexto, é possível estabelecer uma comparação com a escravidão. Os escravos eram vistos como coisas, sem almas e, por isso, indignos de direitos. Em uma espécie de apropriação capitalista do indivíduo, a pessoa por trás da ação é apagada.

“Quem come hambúrguer nem sempre quer conhecer a vaca”. Essa frase mencionada no filme mostra um pensamento perigoso observado muitas vezes nas sociedades: se a pessoa quer algo, não interessa saber quem morreu por aquilo.

O custo da vida e os limites do desenvolvimento científico

Até que ponto você iria para viver alguns anos a mais? Essa reflexão está presente em todo o enredo. Nessa espécie de novo sonho americano, o objetivo é viver cada vez mais e se considera que o custo para isso vale a pena.

No filme, as pessoas com maior poder aquisitivo não se preocupam com os clones que serão mortos em prol de um órgão saudável.    

O filme também levanta a reflexão sobre os limites do desenvolvimento científico. Mais uma vez, é feito um cálculo de custo-benefício e a escolha da sociedade retratada fica clara. A morte, a escravidão e a mentira são vistas como recursos para gerar mais vida por meio de uma avançada tecnologia.

Controle social

Assistindo ao filme no conforto da sua casa, você pode se perguntar o porquê de os clones não questionarem tudo aquilo que foi imposto a eles. Entretanto, é preciso analisar alguns fatores.

Além da falta de comparação com outras realidades diferentes daquela, eles são fortemente controlados pelo medo da contaminação. Em um paralelo com a caverna de Platão (saiba mais no link), o medo do que estava no mundo exterior, ou melhor, da ideia construída sobre esse outro universo, mantém os clones no lugar onde os “administradores” desejam.

Estes podem ser vistos como um poder centralizador que controla as pessoas lá dentro. Diversos recursos de dominação e organização social (presentes em muitos momentos da história da humanidade) são utilizados, como o conforto (do complexo), o entretenimento (das loterias), o medo (da contaminação) e as mentiras que sustentam tudo isso.  

A loteria em si merece um destaque. É comum as massas serem conduzidas pela esperança construída por estados autoritários com promessas de melhorias sociais.

Linguagem na construção de realidades

É interessante observar como a linguagem instaura realidades ao longo do filme. Os personagens, que vivem no complexo isolados do mundo exterior, aceitam a rotina que é imposta pelos “administradores”, porque acreditam na história da contaminação.

Além disso, a promessa de um dia sair do complexo e ir morar na sonhada Ilha também é algo construído apenas pelo poder da palavra.

A dinâmica do “escolhido”

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A ideia da existência de um ser humano especial que guiará a humanidade para um bem maior é recorrente na história e muito explorada por Hollywood.

É comum as sociedades procurarem por esse alguém, seja no herói do filme de aventura, no Albert Einstein para a física, no Winston Churchill para muitos britânicos ou em Jesus Cristo para os cristãos, por exemplo.

Entretanto, no filme, essa dinâmica se transforma em um grande paradoxo. O “escolhido” para acabar com o mal é um clone. Ou seja, a suposta pessoa especial é igual às outras que vivem no mesmo lugar, se vestem da mesma maneira e terão o mesmo fim.

Por meio das memórias de seu “original”, em uma espécie de “defeito de fábrica”, ele sente que algo está errado.

Suas excepcionalidades e percepções do real guiam outras pessoas para o que foi estabelecido como o “bem”. Soa familiar?

Ficou na dúvida de como esse conteúdo poderia ser aplicado na sua redação? Vamos ajudá-lo nessa missão.

É impossível prever qual será a proposta dos vestibulares. Entretanto, seja qual for o tema, se você estiver munido de diversos exemplos e relações relevantes na hora da prova terá um resultado melhor do que imagina.

No caso do filme “A Ilha”, é importante identificar os principais tópicos, como a questão da ética na ciência, do controle social e do custo da vida, por exemplo, e memorizar algumas cenas que exemplifiquem as situações.

Você não precisa assistir ao filme com um caderno fazendo várias anotações. O importante é entender o enredo como um todo e refletir sobre determinados acontecimentos que achar adequados. Se quiser, anote alguns tópicos e pesquise mais sobre os temas que achar mais pertinentes ou nos quais tiver alguma dificuldade.  

Selecionamos algumas propostas de redação de vestibulares de anos anteriores em que você poderia utilizar seus conhecimentos sobre o filme para desenvolver o tema, tanto em termos de relações estabelecidas quanto em exemplos.

Fuvest 2016 – As utopias: indispensáveis, inúteis ou nocivas?

Podemos analisar o filme a partir de duas utopias construídas ao longo do enredo. Por um lado, existe um grupo que idealiza um mundo em que as pessoas não precisam se preocupar com problemas de saúde porque, afinal, existe uma espécie de corpo reserva.

Por outro, existe a ideia de um mundo ideal construída dentro do próprio complexo: a ilha. E, para alcançá-lo, as pessoas se deixam ser dominadas e controladas o tempo todo. O sistema que foi estabelecido é maior do que as individualidades e questões pessoais dos agnatos. No filme, a utopia é utilizada como uma forma de controle social e dominação.

O estudante pode utilizar ambas narrativas como exemplos de utopias nocivas e analisar seus custos e supostos benefícios para a sociedade como um todo.

Insper 2013 – De que forma somos condicionados a ter medo?

O medo da contaminação dita as regras do complexo. As autoridades do local são superiores e nunca questionadas pelos personagens. Esse sentimento molda o comportamento dos agnatos, que aceitam as condições impostas.

A coletânea da proposta de redação traz um texto de Mia Couto com a seguinte afirmação: “Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo”.

É válido analisar como esse mecanismo de controle funcionou em outros momentos da história e utilizar o filme como um bom exemplo dependendo do encaminhamento da sua dissertação.

Com o trecho “há quem tenha medo que o medo acabe”, por exemplo, é interessante estabelecer uma relação com o receio da sociedade de que os clones percebam que vivem uma mentira.

Mackenzie 2006 – Ciência e Ética

Nessa proposta, os textos da coletânea mostravam dois grandes pontos de vista. Por um lado, determinados avanços científicos e tecnológicos são questionados em nome de uma responsabilidade social.

Por outro, um dos textos ressalta a importância dos “espíritos inquietos e curiosos dos cientistas, sempre empenhados na busca de novas soluções para antigos problemas ou exercitando sua inventividade com o objetivo de abrir perspectivas nunca antes imaginadas”.

Toda a questão da clonagem terapêutica trazida pelo filme pode ser trabalhada na sua dissertação. Reflita sobre os dilemas de melhorar a vida de algumas pessoas – no caso, dos que possuem maior poder aquisitivo – e sacrificar os clones.

Unesp 2002 – A verdade ou a mentira: uma questão de conveniência?

“Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar”. Esse trecho de “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, é um dos apresentados pela coletânea.

É válido relacionar essa situação com todas as mentiras contadas aos agnatos para que eles aceitem as regras estabelecidas no complexo. Mais uma vez, vale ressaltar o poder da linguagem para construir uma realidade específica.

Filme: A Ilha
Ano: 2005
Direção: Michael Bay

 

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