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Conheça a história da Família Real britânica até o reinado de Elizabeth II

No funeral do príncipe Philip, relembre o surgimento e as crises da monarquia inglesa

Por Danilo Thomaz Atualizado em 17 abr 2021, 11h44 - Publicado em 17 abr 2021, 05h08

2021 tem tudo para ser mais um ano que marcará o reinado de Elizabeth II, a monarca mais longeva da história do Reino Unido. Ela está desde 1953 à frente de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte e dos países da Commonwealth, formada por parte das antigas colônias inglesas, como a Austrália e o Canadá.

O ano começou com a entrevista do casal Harry e Meghan para a apresentadora americana Oprah Winfrey, em que se relatou a discriminação à mulher do príncipe dentro da família real, aludindo aos sofrimentos de sua mãe, Diana Spencer. Na sexta-feira (9), Elizabeth II ficou viúva do príncipe Philip. O duque de Edimburgo descendia da monarquia grega, derrubada nos anos 1920, e tinha um parentesco distante com a esposa: ambos eram tataranetos da rainha Victoria, a monarca britânica entre 1837 e 1901, período que ficou conhecido como Era Vitoriana.

Quer saber mais sobre a família real e, de quebra, do Reino Unido? Vem com o GUIA conhecer essa história.

Como tudo começa

A monarquia britânica data de um período anterior à constituição da Inglaterra. Precisamente no Reino de Wessex, unido a partir do século 9, após a derrota para os vikings. Os monarcas que governaram o país durante mais de 4 séculos – exceto por breves períodos de domínio da coroa dinamarquesa – pertenciam à casa (ou família) Saxônica.

A Carta Magna

Em 1215, é publicada a Carta Marga. Trata-se do primeiro texto constitucional do Ocidente. A sua publicação – como, aliás, ocorre até hoje em alguns países – não significou sua efetivação. A Carta foi criada como uma forma de os chamados “barões rebeldes” terem maior controle sobre o poder real, à época nas mãos de João (1199-1216), que sucedeu a Ricardo Coração-de-Leão (1189-1199), cujo legado de guerras havia traumatizado os ingleses.

A carta teve sua versão definitiva publicada somente dez anos depois, em 1225. Todavia, é um documento importante por estabelecer um novo tipo de relação entre o Rei – ainda um poder divino – e a nobreza, que, por sua vez, representava (formalmente) seus vassalos. Mas, sobretudo, por ser um marco do Direito inglês, na defesa das garantias individuais dos “homens livres” (os nobres).

Criação do Parlamento

Um conselho para o rei já existia antes mesmo da formação da Inglaterra. Era o chamado Witan, que perdurou por cerca de 400 anos, até o século 11. Com a Carta Magna, é lançada também a pedra fundamental do que viria a ser o Parlamento inglês, símbolo tão forte da política britânica quanto a própria monarquia. Chamado originalmente de o “Grande Conselho” (Great Council), tinha como objetivo aconselhar o rei em seu governo.

Conforme sua evolução ainda no século 14, estabeleceu-se a divisão de duas casas, que permanece até hoje. A Casa dos Comuns (House of Commons), composta pela burguesia e representantes dos condados. A Casa dos Lordes (House of Lords), composta por membros da nobreza do clero. Em 1707, o Parlamento da Inglaterra e o Parlamento da Escócia se unem, formalizando a união entre os dois reinos – que eram governados pela mesma Coroa desde 1603, com a ascensão de James 1º (Inglaterra) e James 4º (Escócia) – e criando o Reino da Grã-Bretanha.

Os membros da Casa dos Comuns são eleitos pelo voto direito. O líder do partido mais votado torna-se o primeiro-ministro. Os membros da Casa dos Lordes são eleitos de maneira indireta, além de ter membros permanentes e alguns hereditários remanescentes – até 1999 os assentos eram transmitidos diretamente a sucessores de membros que faleciam.

Independência da Igreja Católica – e da Europa

No reinado de Henrique 8º (1509-47) ocorre um evento determinante para a história da Inglaterra: o rompimento da Coroa britânica com a Igreja Católica e a fundação da Igreja Anglicana, que tem como líder o rei ou a rainha. A reforma – que leva a uma série de conflitos sangrentos no país – marca também a independência da Inglaterra com relação à Europa, o que se tornaria uma característica do país, que nunca se integrou completamente à União Europeia e, em 2016, decidiu deixá-la no referendo do “Brexit”.

É um período de ascensão para o país, mercado pela colonização de outras regiões, o surgimento do idioma inglês moderno e, já no reinado de Elizabeth I (1558-1603), do teatro elisabetano.

Breve período parlamentar

Antes da criação da Grã-Bretanha, a Inglaterra teve um breve período republicano parlamentarista. A burguesia ascendente no reinado de Carlos I (1625-45) já tinha muito poder financeiro e era vista como uma ameaça à coroa e à nobreza, que viviam de renda. Para frear a ascensão dessa nova classe, a coroa e os nobres queriam uma participação em seus negócios, além de aumentar os impostos.

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O acirramento dos conflitos da Inglaterra com a Escócia levou o rei a restaurar o Parlamento em 1640 e buscar o apoio financeiro da burguesia no combate. Esta novamente se opôs e, liderada por um de seus representantes, Oliver Cromwell (1599-1658), depôs a monarquia após uma guerra civil (que ficaria conhecida como a “Guerra Civil Inglesa”, “Revolução Inglesa” ou “Revolução Puritana”, posto que o puritanismo era a religião da burguesia).

Os conflitos de Cromwell com o Parlamento e sua morte em 1658 levaram à restauração da coroa pela nobreza. Esse período foi tema da série Wolf Hall, disponível Amazon Prime. Ascendeu ao trono Carlos II (1630-85), que também tentou burlar o Parlamento. O conflito só teve fim com a ascensão de Maria II (1662-94) e seu marido, Guilherme III (1650-1702), ao trono inglês, em 1688. Neste ano, são lançadas as bases da constituição formal da monarquia parlamentar inglesa na Inglaterra.

Revolução Industrial e Era Vitoriana

O século 19 é, pode-se dizer, o período de ascensão e hegemonia da Grã-Bretanha no mundo. Com a primeira revolução industrial, iniciada no final do século 18, o país estabelece um novo modo de produção – o capitalismo. A sua força econômica – feita também às custas de muita exploração dos cidadãos do país e das colônias – dá base ao Império Britânico, que começaria a ruir após a Segunda Guerra, em 1945. Durante quase todo o século 19, a nação foi liderada pela Rainha Victoria, conhecida também por seu puritanismo, que marcou o período.

Os Windsor

A família Windsor ascende ao trono inglês em 1917, durante a Primeira Guerra (1914-18). Com a abdicação do rei Eduardo 8º (1894-1972), que governou por menos de um ano em 1936, seu irmão, Jorge 6º (1895-1952) assume o trono. Em 1953, Elizabeth ascende, após a morte do pai. Seus quase 70 anos de reinado – que já a fizeram superar a longevidade da rainha Victoria no trono – são marcados tanto pelo reposicionamento da Inglaterra na nova ordem mundial quanto da própria monarquia inglesa.

Com a ascensão dos Estados Unidos no pós-Guerra e o fim das colônias, chega ao fim o Império britânico, que, entretanto, mantém parte de sua influência geopolítica por meio da Commonwealth. O país que chegou a ser a maior economia do mundo perde não só sua liderança global, mas também sua posição no continente, sendo superado pela Alemanha e a França ao longo do século 20.

A partir da década de 1980, com as reformas liberais de Margaret Thatcher (1925-2013), o Estado social inglês começa também a retroceder, ampliando a desigualdade. No século 21, o Reino Unido enfrenta duas grandes crises: o plebiscito de separação da Escócia, em 2014, e o Brexit, dois anos depois.

O reinado de Elizabeth II também é marcado por um reposicionamento midiático da monarquia: a sua coroação é a primeira da História a ser transmitida pela TV. A partir disso e de maneira controlada, os membros da família aproximaram-se aos poucos do mundo midiático ao longo da segunda metade do século 20.

É verdade que nem sempre com bons resultados. Houve uma série de escândalos – ao menos do ponto de vista da moral da coroa – envolvendo seus familiares. É bom lembrar que a história dos Windsor é marcada, já em seu segundo reinado, pela abdicação do Rei para casar-se com uma divorciada americana. Nos anos 1950, a princesa Margaret, irmã de Elizabeth, apaixona-se por um fotógrafo e depende de autorização da rainha para concretizar o casamento – após anos de relação secreta.

Nos anos 1980, tem início a crise que marca a dinastia: os problemas no casamento de Charles e Diane Spencer. Lady Di acabaria morrendo em 1997 – já divorciada do príncipe herdeiro. A resistência da rainha em colocar a bandeira em meio mastro – sinal de luto – gerou a maior crise da monarquia desde a abdicação de seu tio.

Ao longo do século 21, porém, a monarquia inglesa recuperaria sua popularidade com o casamento de William com Kate Middleton – a primeira não-aristocrata a casar-se com um membro da família real (o primeiro foi o marido da princesa Margaret) – e, depois, de Harry e Meghan. A paz, contudo, não foi duradoura. A saída do casal da família real e a revelação do cotidiano palaciano opressivo de Meghan ainda devem render novos capítulos (e novas temporadas de The Crown!).

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