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Entenda o cenário político da Hungria – e por que Bolsonaro buscou a embaixada

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, criou em seu país um laboratório da extrema-direita

Por Ludimila Gomes
4 abr 2024, 15h00

A Hungria está longe de ser uma das grandes potencias mundiais e não tem relações comerciais relevantes com o Brasil. Por isso, é provável que, por aqui, pouca gente tenha ouvido falar sobre o país da Europa Central. Ao menos até março deste ano. Imagens divulgadas pelo jornal americano New York Times mostraram que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) hospedou-se, em fevereiro, por duas noites seguidas na embaixada da Hungria em Brasília. Dias antes, seu passaporte havia sido confiscado pela Polícia Federal no âmbito de uma investigação por tentativa de golpe de Estado.

A escolha da embaixada da Hungria como refúgio não é mera coincidência. Desde 2019, Bolsonaro é bastante próximo do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Os dois encontraram-se algumas vezes e trocam elogios públicos. Mas se Brasil e Hungria não mantêm vínculos econômicos, o que justificaria essa proximidade?

“Essa relação estava baseada no compartilhamento de uma visão de mundo lastreada por autoritarismo e religiosidade”, afirma Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparativa na UFMG, em entrevista à BBC Brasil.

A Hungria é tida como uma inspiração e referência para países com governos de extrema-direita de todo o mundo. Neste texto, o GUIA DO ESTUDANTE explica por quê.

+ Esquerda e direita: a origem dos termos e como usá-los (corretamente) hoje

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A Hungria antes de Orbán

A Hungria tem um histórico de conflitos. O país fez parte do Império Austro-Húngaro que lutou ao lado da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. A partir de 1949, foi dominada pela União Soviética e transformada na República Popular da Hungria, sendo liderado pelo Partido Comunista de Mátyás Rákosi, alinhado ao ditador soviético Josef Stálin.

O autoritarismo e, principalmente, a crise econômica culminaram em um levante da população: em 1956, os civis revoltaram-se no que ficou conhecida como Revolução Húngara. Houve um massacre militar que deixou mais de dois mil mortos após o confronto.

As décadas seguintes ficaram marcadas pela resistência de alguns grupos, mas o país só libertou-se de vez com a dissolução da URSS. É no decorrer deste processo que surge a figura de Viktor Orbán.

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A queda silenciosa da democracia na Hungria

Em 2022, o Parlamento Europeu apontou que a Hungria não poderia mais ser considerada uma democracia plena – resultado dos 14 anos em que Viktor Orbán governa o país.

Orbán deu seus primeiros passos na cena política ainda no final da década de 1980. Na época, ele liderava o movimento estudantil Aliança dos Jovens Democratas, que se reivindicava liberal. Com a transição do país para uma uma democracia multipartidária em 1990, ingressa na política institucional e assume uma cadeira na Assembleia Nacional.

Em 1998, elegeu-se, pela primeira vez, como primeiro ministro, mas deixou o cargo em 2002. De lá para cá, seu partido, o Fidesz, passou a adotar um discurso cada vez mais antiliberal, nacionalista e religioso.

Orban assumiu novamente como primeiro-ministro em 2010 e permanece no cargo até hoje, reeleito em 2014, 2018 e 2022. À frente do governo, adotou discursos contra imigrantes e minorias, chegando a construir uma barreira que impede a entrada de refugiados em território húngaro. O país também fez mudanças nos livros didáticos incluindo trechos que defendem a homogeneidade no país e alertam para os perigos da imigração.

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“É por isso que sempre lutamos: estamos dispostos a nos misturar, mas não queremos nos tornar pessoas mestiças”, afirmou o primeiro-ministro em um de seus vários discursos racistas e xenofóbicos.

A população LGBTQIA+ também é um dos alvos de Orbán. A constituição aprovada por ele em 2011 definiu casamento como a união de um homem e uma mulher, impedindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Homossexuais também não podem adotar crianças.

Essas e outras reformas políticas aplicadas pelo seu governo, que minaram outros poderes e perseguiram a oposição, começaram a enfraquecer a democracia húngara, a transformando no que o Parlamento Europeu chamou de “autocracia eleitoral”. Neste modelo, os governantes mantém os moldes de uma democracia, com eleições, mas final o que vale é a palavra do governante maior, neste caso, Orbán.

A Hungria faz parte da União Europeia, e já sofreu algumas sanções do bloco econômico pelas medidas autoritárias praticadas no país.

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+ Entenda como funciona a União Europeia

Laboratório da extrema-direita

“A Hungria, gente, é um exemplo de sucesso. De muito sucesso”, afirmou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) em 2022, na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) do Brasil. Construir essa imagem de “sucesso” perante outros políticos conservadores ao redor do mundo é um dos grandes projetos de Viktor Orbán.

O primeiro-ministro húngaro quer que seu modelo de extrema-direita sirva de exemplo para outros governos, e passou, literalmente, a receita:

  • Jogar com as próprias regras;
  • Ter a própria mídia;
  • Ter fé;
  • Fazer aliados;
  • Construir instituições.

Na prática, isso significou mudar a legislação do país a seu favor, usar discursos religiosos para validar medidas excludentes, sufocar a imprensa.

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Seu partido, Fidesz, ocupa a maior parte dos assentos do Parlamento húngaro, o que permitiu a Orbán realizar as reformas necessárias para governar. Ele aumentou o número da assentos na Suprema Corte de 11 para 15 juízes, nomeando aliados e forçando a aposentadoria de juízes antigos que eram seus opositores. Elaborou uma nova Constituição, aprovando leis que reorganizaram de forma radical a legislação do país. Orbán conseguiu enfraquecer o Judiciário húngaro, desequilibrando os Três Poderes

Além disso, tomou medidas para cercear a imprensa, levando diversos veículos à falência e comprando pequenos jornais, que passaram a disseminar apenas informações favoráveis ao governo. Jornais que fazem oposição ao seu governo dificilmente tem acesso a informações públicas.

A censura, vale lembrar, é prática comum em governos autoritários, como aconteceu durante a Ditadura Militar no Brasil e ocorre atualmente na Coreia do Norte.

Por fim, a Hungria tenta aproximar-se de outros líderes conservadores do mundo, que partilham de suas ideias. Foi o que aconteceu com Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia em 2022, e o ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. 

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