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Inspire-se: a estilista que ensina a criar roupas com tecido reciclado

A ideia surgiu no mestrado de Cristina Bertoluci, quando decidiu unir moda e sustentabilidade

Por Taís Ilhéu Atualizado em 13 Maio 2020, 10h51 - Publicado em 12 Maio 2020, 10h36

“Em vez de pensar ‘eu tenho que saber tal coisa para fazer Moda, você precisa pensar ‘o que eu sei que eu posso aplicar na Moda?’” A inversão da lógica de trabalho e aprendizado é o lema de Cristiane Bertoluci, que se valeu também dessa estratégia para desenvolver seu mestrado em Têxtil e Moda na Universidade de São Paulo (USP). 

Ao propor a produção de peças de roupa em tricô a partir da reciclagem de tecidos, ela não seguiu o procedimento convencional de começar pela escolha dos fios, por exemplo. Ao contrário, partiu da lógica “o que eu tenho e o que posso fazer com isso”. Partiu do resíduo como uma forma de resolver um problema. 

Esse resíduo podem ser as peças de roupas que temos em casa e não usamos mais como também os chamados resíduos “pré-consumidores”: os que vêm das fábricas em forma de novelo e os tecidos defeituosos doados por empresas. Um relatório lançado no final de 2017 pela Fundação Ellen MacArthur trouxe um dado importante sobre a poluição gerada pela indústria da moda: a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de resíduos de tecido é queimado ou descartado em aterros sanitários.

O saldo final da ideia transformadora de Cristina em converter esse “lixo” em algo novo foi a possibilidade de trabalhar com temas importantíssimos e que antes ela não imaginava que poderia abordar em um mestrado na área de Moda, como sustentabilidade, reciclagem e técnicas manuais no contexto atual. Para quem pensa que Moda se resume a desfiles e croquis, a trajetória de Cristiane mostra que vai muito além disso. 

  • Quase sem receita

    Antes de decidir que estudaria Moda, Cristiane já tinha se imaginado cursando Engenharia e até Administração. Prova de que não existe um “perfil ideal” ou mesmo talento nato para quem quer se aventurar nesse universo. “Eu sempre fui muito fã de Matemática, eu nunca imaginei que a minha profissão usaria tanta Matemática para desenvolver as criações”, conta. Por isso, para Cristiane, o essencial é gostar de Moda e ter interesse em se especializar em alguma coisa a partir da área, seja tintaria ou marketing. Para ela, o caminho foi o tricô. 

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    A estilista já tricotava desde os 8 anos, mas também se interessava por processos mais tecnológicos. Em um estágio durante a faculdade teve a oportunidade de unir as duas coisas: trabalhou em uma empresa que trazia máquinas de tricô do Japão, capazes de produzir peças sem nenhuma costura em uma hora. A experiência de aprendizagem foi única, “principalmente na parte de modelagem, costura e programação. Essa receita de como fazer a peça foi muito legal”, relata. 

    Esses conhecimentos, aliados a outros que aprendeu na faculdade, foram essenciais para desenvolver mais tarde sua proposta de mestrado. Na parte de modelagem, por exemplo, que é quando se transforma em molde o desenho feito pela estilista, Cristiane precisou produzir uma modelagem simples, que pudesse ser reproduzida por outras pessoas que quisessem criar suas peças em casa.

    Depois, teve que aplicar os conhecimentos de pontos e outras técnicas para conseguir criar peças leves, já que os fios de malha produzidos a partir do recorte de outras roupas é mais pesado. Além, é claro, dos conhecimentos de tendências para criar peças mais atemporais. “Se a ideia é transformar em uma nova peça não adianta transformar em uma nova peça que não será usada”, conclui.

  • Professora-estilista

    Cristiane poderia bem ter criado e vendido uma linha de roupas a partir de sua pesquisa do mestrado. Ao contrário disso, resolveu “fornecer a ferramenta em vez da sua criação”, como explica. “O que surgiu disso são aulas, são cursos em que eu dou subsídio para a pessoa criar sua própria peça a partir dos materiais que ela tiver em casa”. Geralmente, propõe a confecção de peças mais simples como coletes e golas. E, mesmo com suas peças próprias, prefere “fornecer a receita” do que vendê-las. 

    Assim, segue fazendo – e ensinando a fazer – da experimentação, criação. Misturando diferentes cores, tecidos e fazendo combinações que muita gente ainda pensava ser impossível como moda e sustentabilidade!

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