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“O Nome da Rosa”: saiba como utilizar o filme no vestibular

Explore o enredo e enriqueça seu repertório

Por Julia Di Spagna Atualizado em 25 abr 2019, 16h38 - Publicado em 7 jun 2018, 17h55

A ideia desta série de matérias é permitir que você consiga desenvolver um repertório mais amplo e um pensamento crítico mais aguçado com base nas diversas camadas que a sétima arte pode apresentar. As análises dos filmes que faremos aqui buscam mostrar certas relações entre o enredo e temas contemporâneos que podem ser abordados na redação e em outras questões do Enem e dos principais vestibulares do Brasil.

O filme “O Nome da Rosa” é baseado no livro, de mesmo nome, de Umberto Eco. O best-seller dos anos 80 colocou o autor italiano entre um dos expoentes da literatura contemporânea.

Com uma história que brinca com o suspense beirando as investigações presentes na literatura inglesa, como Sherlock Holmes, o filme, apesar de obviamente ser uma redução do volumoso livro, cumpre seu papel e se mantém fiel à obra original.

A trama se passa em um remoto mosteiro no norte da Itália em plena Idade Média. William de Baskerville, um monge franciscano, e o seu ajudante noviço Adso de Melk começam a investigar a misteriosa morte de monges no local.

Ao contrário dos demais clérigos, que acreditavam que as mortes eram obras da ação demoníaca e sinais do apocalipse, William e Adso são movidos pelo conhecimento racional, pela experiência, pela investigação e a dedução.

Os protagonistas começam a desconfiar que a chave do mistério está na imensa biblioteca do mosteiro, cujo acesso é restrito a poucos monges.

Com o tempo, eles passam a associar as pistas e por meio da razão e da lógica encontram a verdade.

O filme trabalha diversas camadas de situações que marcaram a Idade Média e consegue colocar em pauta questões de cunho contemporâneo.

É possível explorar o filme “O Nome da Rosa” a partir de diversos aspectos. Conversamos com Eduardo Calbucci, professor de redação do Anglo, para estabelecer quais os principais e qual a melhor forma de aplicá-los na hora da prova.

A questão do racionalismo e do método científico  

O filme retrata a ciência como o caminho que leva à verdade e ao saber. A investigação de de William e Adso é baseada em evidências, na lógica e no pensamento racional – bem ao modo do método científico que René Descartes, o pai do Racionalismo, só desenvolveria dois séculos mais tarde.

Entretanto, ao longo do filme, fica claro como a ciência ficava subordinada às questões eclesiásticas.

A questão da religião

Em uma época em que a Igreja era detentora de um poder sem igual, os mosteiros – como aquele onde se passa a história – podem ser comparados a uma espécie de universidade: eram espaços para o estudo da teologia, filosofia, literatura e eventos naturais sob o ponto de vista da religião.

Por muito tempo, os mosteiros foram os responsáveis pela preservação e, no fundo, o controle da cultura e dos conhecimentos da época. Os pensamentos eram formados a partir do que ali era pregado.

Logo, os monges eram uma espécie de guardiões da cultura. O clero, na verdade, mantinha um monopólio do conhecimento.

O Riso

Seguindo todas as pistas que encontram, William e Adso descobrem finalmente o que motivou os assassinatos.

ALERTA DE SPOILER:

A biblioteca do mosteiro guardava obras não aceitas pela Igreja Medieval, incluindo muitas de cunho filosófico.

Uma delas era um suposto livro de Aristóteles que abordava a comédia e o riso, os quais eram condenados pela igreja como um ato que levaria os homens à desobediência a Deus.

Por isso, visando evitar a propagação daquelas ideias, um dos monges colocava veneno em suas páginas – o que ocasionou a morte de alguns personagens.

Tanto na época em que se passa a história quanto atualmente, a comédia é vista, por muitos, como um gênero menor, não tão importante como o drama. É importante refletir sobre o tema não apenas como o riso pelo riso, mas como uma forma de crítica.

O Guia preparou um especial sobre Aristóteles para você entender tudo o que precisa sobre o autor para o vestibular. Confira o material no link.

Cultura renascentista

O monge franciscano William aparece como representação de um período que se aproximava da época retratada e que abalaria boa parte do conhecimento adquirido pela humanidade até então: o Renascimento.

Colocando a razão em primeiro lugar, exaltando a ciência e a tecnologia, campos como a arte, a religião e a própria maneira de encarar aspectos cotidianos foram repensados e influenciados pelo movimento. Saiba mais sobre o período no link.

Por meio das investigações de cunho racional e fazendo da lógica um caminho para alcançar a verdade dos fatos, William deixa os ideais da Igreja de lado em prol da ciência.

Reconstituição da Idade Média

Não é à toa que muitos professores de história indicam esse filme para seus alunos: por meio de uma reconstituição cuidadosa da Idade Média, não apenas a história em si é interessante de ser analisada, mas também os seus detalhes. Comportamentos, vestimentas, ambientação e tradições – “O Nome da Rosa” é um prato cheio para quem busca compreender o período em termos de cultura.

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Umberto Eco

Autor da história que inspirou o filme, Umberto Eco (1932-2016) foi um intelectual italiano que ficou conhecido tanto pelos seus romances como pelos estudos em comunicação.

Em grande parte dos diferentes papéis que assumiu em sua vida (incluindo o de filósofo, linguista, especialista em estética medieval, escritor e professor), ele refletiu sobre a comunicação e até vivenciou experiências na TV e na mídia impressa.

Também trouxe importantes contribuições para a discussão sobre a cultura de massa, a mídia e as novas tecnologias de comunicação e informação.

Além disso, Eco se destacou na literatura. No caso de “O Nome da Rosa”, a obra chegou a ser traduzida para 30 idiomas e vendeu mais de 10 milhões de exemplares.

Ficou na dúvida de como esse conteúdo poderia ser aplicado na sua redação? Vamos ajudá-lo nessa missão.

É impossível prever qual será a proposta dos vestibulares. Entretanto, seja qual for o tema, se você estiver munido de diversos exemplos e relações relevantes na hora da prova o resultado será muito melhor do que imagina.

No caso do filme “O Nome da Rosa”, é importante identificar os principais tópicos, como a cultura renascentista, o papel da Igreja para a sociedade da época e a questão do riso, por exemplo, e memorizar algumas cenas que exemplifiquem as situações.

Você não precisa assistir ao filme com um caderno fazendo várias anotações. O importante é entender o enredo como um todo e refletir sobre determinados acontecimentos que achar adequados. Se quiser, anote alguns tópicos apenas e pesquise mais sobre os temas que achar mais pertinentes ou que lhe apresentarem alguma dificuldade.  

Selecionamos algumas propostas de redações de vestibulares de anos anteriores em que você poderia utilizar seus conhecimentos sobre o filme para desenvolver o tema, tanto em termos de relações estabelecidas quanto em forma de exemplos.

Fuvest 2018 – Devem existir limites para a arte?

“A arte é um exercício contínuo de transgressão, principalmente a partir das vanguardas do começo do século 20. Isso dá a ela uma importância social muito grande porque, ao transgredir, ela aponta para novos caminhos e para soluções que ainda não tínhamos imaginado para problemas que muitas vezes sequer conhecíamos”.

As recentes problematizações e censuras acerca de obras de arte foram o tema da Fuvest 2018. É possível analisar e utilizar o filme sob dois aspectos: o próprio enredo e o filme como um produto.

Por um lado, conseguimos refletir sobre como “O Nome da Rosa”, mesmo tratando de um tema extremamente delicado, como a religião, pode ser crítico e mesmo assim ter um vasto alcance.

Entretanto, também podemos analisar essa questão pelo prisma do enredo: para a Igreja, as obras da biblioteca deveriam ficar restritas e serem censuradas da sociedade.

A arte pode abordar criticamente temas delicados? É válido relacionar um desses dois aspectos na construção da sua argumentação.

UFRGS 2013 – O papel e os limites do humor na sociedade

“Jornalistas, escritores e comediantes saúdam essa liberdade, entendendo que o espaço para o humor não está a serviço apenas da diversão, mas também da crítica social”. Este é um dos trechos apresentados pela coletânea da prova.

Como apontado anteriormente, muitos monges achavam a comédia um gênero perigoso por supostamente ter o poder de enfraquecer o temor a Deus.

Desde a Idade Média, o riso era algo que intrigava. É interessante analisar como esse recurso tem um forte poder de crítica social e oferece a possibilidade de abordar temas delicados de formas diferentes.

Dependendo da época, do contexto cultural e dos elementos utilizados, o humor pode ser visto como uma expressão que precisa respeitar certas regras ou defendido como algo totalmente sem censuras.

UFRJ 2007 – Relação entre estados de humor e experiências da vida cotidiana

Um dos textos da coletânea levanta uma questão muito explorada pelo filme. Leia a seguir:

“Para Freud, o senso de humor é o principal sinal de um psiquismo sadio. Ele o consideravaa forma privilegiada pela qual adultos mantêm a capacidade de brincar e de não seresmagados pelos imperativos da vida em sociedade.”

O temor a Deus devia ser algo constante na vida dos homens da época, segundo a Igreja. Então como lidar com um elemento que, como o trecho acima aborda, seria capaz de aliviar a realidade em que eles viviam e supostamente “afrouxar” esse temor? Para os monges, a censura foi a solução.

Tente refletir de forma crítica sobre como a comédia tem esse poder de afetar o cotidiano e como os personagens reagem a isso.

Enem 2006 – O poder de transformação da leitura

A prova traz pequenos textos de como esse hábito influencia e pode mudar a visão de mundo das pessoas. Vale fazer uma reflexão de como os monges temiam que as pessoas tivessem acesso à biblioteca e aos livros guardados ali. Uma simples leitura poderia ser capaz de alterar o respeito que os homens sentiam pela religião?

É válido o estudante refletir sobre como um livro foi o motivo de diversos assassinatos ao longo do enredo.

Filme: O Nome da Rosa
Ano: 1986
Direção: Jean-Jacques Annaud

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