À primeira vista, o filme "Foi Apenas um Acidente" parece seguir uma premissa simples – um evento inesperado, quase trivial, que altera a rotina de pessoas comuns. Mas, como costuma acontecer no melhor cinema iraniano, a simplicidade é apenas a superfície. O que o filme propõe, na verdade, é uma pergunta incômoda e política: quem paga o preço quando um sistema inteiro se recusa a assumir responsabilidade?Dirigido e roteirizado pelo cineasta iraniano Jafar Panahi, o longa possui como pano de fundo os traumas vividos por quatro personagens, dentro dos desdobramentos da Revolução Iraniana. Movidos pelo sentimento de vingança, eles são forçados a confrontar o passado, questões morais e suas incertezas.Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original, o filme ganhou projeção internacional não por discursos explícitos ou cenas de confronto direto, mas por algo mais sutil e potente. Ele expõe, com delicadeza e rigor, os mecanismos de medo, autocensura e acomodação que moldam a vida cotidiana no Irã.Mas, para entender mais do filme, é preciso dar um passo para trás e compreender melhor a situação do país e os recentes protestos.+ Aprenda sobre a Revolução Islâmica no Irã com uma HQ consagradaIrã e os protestos atuaisNo final de 2025, o Irã chamou, mais uma vez, a atenção da comunidade internacional devido a mobilizações da população.Segundo Adilson Nascimento, professor de geografia do Poliedro Colégio, os protestos ocorreram (e ainda ocorrem) devido a insatisfação da população com a profunda crise econômica e política que assola o país. “Crise essa motivada principalmente pela alta inflação dos últimos anos e pelas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos devido ao suposto apoio do governo iraniano ao grupo palestino Hamas, que afetam diretamente a população, além do aumento do custo de vida e aumento da taxa de desemprego”, explica o professor.Vale lembrar também que o Irã, após a Revolução Iraniana de 1979, possui um governo teocrático, onde o poder está concentrado nas mãos dos Aiatolás. O regime iraniano conta com vários órgãos de segurança que buscam reprimir os protestos. Esses grupos atuam de forma coordenada e autoritária sob ordens da liderança do atual aiatolá (líder supremo), Ali Khamenei, no poder desde 1989.+ 7 filmes indicados ao Oscar 2026 que são uma mina de ouro para a redaçãoImpactos na populaçãoO cotidiano da população iraniana é marcado pelo intenso e contínuo controle imposto pelo regime dos Aiatolás.O professor explica que o regime teocrático no Irã tem adotado uma postura de repressão aos protestos, utilizando de prisões arbitrárias e táticas militarizadas contra os manifestantes. O resultado é um número ainda desconhecido de vitimas fatais, cortes totais de internet e bloqueios de plataformas de comunicação (que dificultam a organização de protestos e o fluxo de informações), uso de acusações como “Moharebeh” (crime contra Deus - uma acusação legal baseada na Sharia) passíveis de pena de morte, e julgamentos acelerados sem garantias de processo justo. O cinema iraniano Há décadas, cineastas iranianos desenvolveram uma linguagem própria para contornar restrições estatais e censura institucional. Em vez de slogans, optam por metáforas. Em vez de heróis, personagens comuns. Em vez de grandes vilões, estruturas invisíveis.“Foi Apenas um Acidente” segue exatamente essa tradição. O filme não fala abertamente de política, mas tudo nele é político: as hesitações dos personagens, os silêncios prolongados, as decisões adiadas, o peso que recai sempre sobre quem tem menos poder de escolha. Nada acontece de forma espetacular e é justamente aí que mora sua força.O comportamento dos personagens evidencia as cicatrizes provocadas pelo medo. Em diversos momentos, podemos vê-los se utilizando de recursos questionáveis, para evitar a exposição, o julgamento e a perseguição. “O filme tenta retratar o clima de desconfiança e tensão gerados por uma sociedade marcada pelos embates ideológicos e culturais. Podemos estabelecer uma relação direta entre os cenários expostos no filme e os atuais protestos”, diz Adilson Nascimento.+ O que o filme 'Pecadores' revela sobre a história dos Estados UnidosUm “acidente” como metáfora de um paísO título não é irônico por acaso. No filme, o acidente funciona como uma espécie de álibi moral: algo que acontece sem que ninguém quisesse ou planejasse. Mas, à medida que a narrativa avança, fica claro que o problema não é o evento em si, e sim o que vem depois dele. As tentativas de normalização, a culpa empurrada para debaixo do tapete ou mesmo o esquecimento.É difícil não relacionar essa dinâmica com o momento político do Irã. Nos protestos que vêm tomando as ruas do país, mortes, prisões e abusos de poder são frequentemente tratados pelas autoridades como desvios isolados, erros pontuais – ou acidentes de percurso. O filme parece perguntar: quantos “acidentes” são necessários para que um padrão se revele?+ 5 livros fenômenos de venda que viraram filmePessoas comuns e seus dilemas Outro mérito do longa está na construção de seus personagens. Não há figuras idealizadas nem antagonistas caricatos. Todos operam dentro de um campo de tensão constante, em que qualquer escolha pode ter consequências graves não só para si, mas para familiares e pessoas próximas.Essa lógica ajuda o espectador estrangeiro a compreender algo essencial sobre o Irã contemporâneo: a repressão não se sustenta apenas pela força, mas também pelo medo. O filme mostra como o sistema se perpetua quando a sobrevivência cotidiana exige concessões morais contínuas.Por que esse filme importa agora?O filme não pretende explicar o Irã, mas oferece pistas valiosas para entendê-lo: um país onde o conflito entre consciência individual e ordem social não acontece apenas nas ruas, mas dentro das casas.Em tempos de protestos, o longa lembra que nem toda violência é barulhenta e que, muitas vezes, o controle se exerce por meio da normalização do absurdo.O professor de geografia também reforça a proximidade da situação do Irã e da temática abordada no filme, como o fato do diretor Jafar Panahi, já ter sido preso pelo regime iraniano diversas vezes, tendo inclusive realizado as filmagens de maneira clandestina, uma vez que possui um mandado de prisão vigente. Atualmente Panahi reside fora do Irã, já que é perseguido pelo governo iraniano.+ Relatório aponta aumento no número de ditadura no mundoO que o foi filme deixa para os espectadores“O filme, assim como a sociedade iraniana, são extremamente complexos. Não podemos cair no ‘perigo da história única’ ao crermos somente nos estereótipos que nossa realidade ocidental nos apresenta, sobre o Irã e seu povo”, afirma o professor.Ele reforça que, apesar de simples, 'Foi apenas uma acidente' retrata diversas camadas de um mundo e de uma sociedade. Essas camadas são construídas por diversos elementos, como os sons, os silêncios, as pessoas comuns, o passado, o medo. Apesar do filme retratar temas violentos e sensíveis, os personagens também nos levam a vivenciar momentos cotidianos carregados de leveza e até mesmo um bom humor. “Foi Apenas um Acidente” é um filme marcado por dilemas universais, conflitos internos e metáforas, revelando nas entrelinhas a complexidade sobre o contexto político e cultural do país. Entre no canal do GUIA no WhatsApp e receba conteúdos de estudo, redação e atualidades no seu celular!