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Os engenheiros que criaram o respirador que pode salvar vidas na pandemia

Ele pode fazer a diferença contra o coronavírus: cada aparelho pode ser produzido em duas horas e é 15 vezes mais barato que o mais em conta do mercado.

Exatamente um mês depois do início de seu projeto, uma equipe de engenheiros da Escola Politécnica da USP deu mais uma prova do valor da ciência em tempos de combate ao coronavírus. Os coordenadores que estiveram à frente da criação de um ventilador pulmonar emergencial para pacientes diagnosticados com covid-19 divulgaram, no último dia 20, que os testes em humanos foram finalmente feitos e aprovados. Agora, só falta o aval da Anvisa para que o respirador produzido em até duas horas e que custa 15 vezes menos que o mais barato do mercado possa ser fabricado em grande escala. 

O Inspire, como foi batizado, é fruto da mente e do trabalho de engenheiros elétricos e de outros engenheiros e também de profissionais de outras áreas (mais sobre isso abaixo).

O projeto apresenta ainda uma outra grande vantagem em relação aos respiradores já utilizados nos hospitais: ele é produzido totalmente com matéria-prima brasileira e, por isso, não depende de importação. Em um cenário em que a curva de contaminados pelo coronavírus cresce rapidamente e o sistema de saúde ameaça o colapso, é preciso agir rápido: “Os componentes [importados] podem não chegar a tempo para fazer essa produção”, alertou em entrevista à Escola Politécnica o professor Raul González Lima, especialista em Engenharia Biomédica e um dos coordenadores do projeto. 

Além de Raúl González, também esteve à frente do desenvolvimento do Inspire o professor Marcelo Zuffo, formado em Engenharia Elétrica. Entenda como o respirador foi criado e a contribuição dos mais de 30 engenheiros envolvidos na tarefa!

Inspire 

O Inspire é, sem dúvidas, mais simples do que os outros ventiladores disponíveis no mercado. Afinal de contas, trata-se de um modelo mecânico, que não necessita de linhas de ar comprimido como os outros amplamente utilizados na maior parte dos hospitais. No entanto, em situações de grande emergência, em que não há aparelhos e sequer linhas de ar disponíveis para novos, ele pode salvar vidas. 

Foi justamente observando casos como esse no cenário internacional que os engenheiros da USP se mobilizaram para tentar evitar que o mesmo acontecesse por aqui. “Temos relatos de que em Nova York não há ventiladores e, então, voluntários ficam apertando a bombinha para o paciente não morrer durante a noite”, explica Marcelo Zuffo em entrevista à revista Época Negócios. Se esses hospitais em Nova York contassem com um respirador como o Inspire, ele faria as vezes dos voluntários ao bombear ar, mecanicamente, para os pacientes. 

 (Escola Politécnica da USP/Reprodução)

Pois é, explicando assim parece que o processo de criação do ventilador foi simples, mas quem assiste aos vídeos de Diário de Bordo no site do projeto provavelmente se surpreende com a quantidade de pesquisadores mobilizando os mais diversos conhecimentos para chegar ao produto final. Em um dos vídeos, Raúl Gonzales relata, por exemplo, como um dos engenheiros desenvolveu uma estratégia mais eficaz de estimativa para medir a complacência (grau de extensão para cada aumento da pressão) e a resistência dos pulmões durante o uso do respiradores. 

Essa e outras etapas exigiram dedicação integral da equipe, que diante da urgência da situação queria finalizar o projeto o quanto antes. Zuffo disse que os pesquisadores passavam até 18 horas do dia dedicados à tarefa!

 (Escola Politécnica da USP/Reprodução)

Engenheiros, médicos, veterinários, estudantes

Nem só de engenheiros se fez essa equipe inspiradora. Eles foram, sem dúvida, maioria nas fases iniciais de desenvolvimento: entre especialistas em Engenharia Mecânica, Biomédica, Mecatrônica, Elétrica e de Produção, ao menos oito fizeram parte da equipe técnica e muitos outros participaram por meio dos quatro grupos de pesquisa envolvidos. 

Mas a contribuição dos estudantes (como o graduando em Química Otto Heringer) e de profissionais de outras áreas, como médicos e até veterinários, também foi determinante. Não, você não leu errado: até mesmo veterinários ajudaram à sua maneira. As professoras da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP Denise Tabacchi Fantoni e Aline Ambrósio coordenaram os testes do respirador em animais, realizados nos dias 13 e 14 de abril. No final do mês, foi a vez de médicos, anestesiologistas e até fisioterapeutas da Faculdade de Medicina da USP conduzirem os testes em humanos. 

Por fim, embora a equipe da Poli tenha trabalhado para desenvolver o projeto, a partir da aprovação da Anvisa fica a cargo de empresas a produção, comercialização e distribuição dos ventiladores mecânicos para a rede de saúde. Como o projeto tem licença aberta, qualquer empresa pode acessar o passo a passo da produção e fabricá-lo.